The Recovery #40



Mercúrio 



     Ao acordar, Mercúrio sentiu uma enorme dor de cabeça e um cheiro a mel no espaço. Quando os seus olhos viram o rosto diante de si, como primeira reação, sorriu, mas logo percebeu que Mondy não o encarava da mesma forma e então o sorriso desapareceu. 
     Preparou-se para dizer algo como "Está tudo bem?" ou "Passa-se algo?" no entanto as memórias acertaram-lhe como uma flecha. Mercúrio perdera o controle. Deixara-se possuir pela raiva e quase que ia matando Tema, o Tal da sua Irmã. 
- Ainda bem que te lembras. 
A voz dura e triste de Mondy pesou-lhe nos ombros e no coração. Ele tinha mesmo feito asneira, e uma das grandes. 
- Mondy... desculpa. Eu... Eu perdi o controle. - Ele colocou a mão no rosto a tentar controlar a dor de cabeça. 
- Não é a mim que tens de pedir desculpa, Mercúrio. - Mondy respirou fundo. - Tens bem a noção do que fizeste? - Ele preparou-se para responder mas a voz da sua Tal perfurou qualquer palavra que iria sair da sua boca. Mondy levantou-se e desviou o seu olhar do dele e disse: 
- Tu quase matas-te a tua Irmã... Atacas-te o Sol e o Plutão e ias matando o Tema. - Fitou-o. - Mercúrio, o que se passa contigo? 
- Mondy, ele quase que te matou! - Levantou-se e ficou um pouco tonto mas isso não o impediu de continuar. - Eu só queria que ele tivesse o troco na mesma moeda. 
- E ele teve. Acredita que sim. Mas esta tua... - hesitou à procura de palavras - Esta tua sede de vingança foi longe de mais. Eu quero que o Tema  fique longe das nossas vidas para sempre, acredita, mas não desta forma. Sabes que mais? Depois desta tua loucura tu não és melhor que ele. Estás a agir como ele, Mercúrio. 
- Ouve, desculpa-me, está bem? Agi de cabeça quente. E eu não sou nada como o Tema. Tu sabes bem disso. - Mercúrio fitou-a, à procura de indícios de que ela não acreditava realmente naquilo. 
- Eu já te disse que não é a mim que tens de pedir desculpa. 
      Mercúrio passou a mão pelo cabelo a pensar em como iria sair desta trapalhada toda. 
- A Vénus já não está cá. Tema levou-a com a pouca energia que lhe restava.
- Eu vou falar com ela e com os outros, mas, por agora, podes ficar comigo? - Mondy hesitou em responder. - Por favor, Mondy. - Mercúrio olhou-a com os olhos tristes e cheios de saudade na esperança de que ela visse o quão ele precisava dela. 
- Eu fico... - disse baixinho e hesitante. - Eu fico. - Soltou-lhe um sorriso curto e estendeu-lhe a mão. - Mas por pouco tempo. - Mercúrio puxou-a para si e abraçou-a forte. Mondy retribuiu-lhe o abraço e não o queria largar. Ele sorriu e beijou-lhe o cima da cabeça. Mercúrio sabia que ela acabaria por ficar com ele o tempo que fosse necessário, o tempo que ele quisesse e precisasse, porque quando a sentiu nos seus braços, ele e Mondy recuperaram todos os fios perdidos da sua Ligação e desta vez eles não iriam desistir um do outro, nunca mais.



Tema 



     Após o incidente que tinha havido com Mercúrio, Tema usara as últimas porções de energia que tinha em si e trouxe Vénus para a casa deles. Ele temia que ela não sobrevivesse a viagem. Ela gastara demasiada energia  ao parar Mercúrio, mas Vénus é forte. Já tinham passado uma, duas, três horas desde que Tema aplicara o curativo na sua Tal e ela parecia não acordar. 
      Tema não tinha descansado nada de jeito desde que chegara. Estava demasiado preocupado com a Vénus para fechar os olhos por alguns momentos e descansar. Ele levantou-se, do canto da cama onde estava sentado, e foi à casa de banho. Colocou as mãos em cima do lavatório e encarou-se no espelho. Os seus olhos não estavam à espera do que viram: o nariz inchado, rodeado de sangue e decerto partido, o seu olho esquerdo negro, assim como zonas do maxilar, fios de sangue seco a saírem pela boca, dois arranhões; um por cima da sobrancelha loura e outro na testa. Tinha hematomas nas bochechas, o maxilar dorido e zonas levemente queimadas que precisavam de água fria. Suspirou. Abriu a torneira e molhou um pouco a toalha. De seguida começou a limpar os ferimentos. Tema soltou um gemido de dor. Não se tinha apercebido de qualquer dor  física até agora. Porém, não o incomodava assim tanto. Já se tinha habituado à dor. Ela era mais que sua conhecida, aliás. E Tema, lá no fundo, até acreditava ser merecedor dela. 
- Deixa-me fazer isso por ti - disse Vénus da porta da casa de banho.
      A sua cara estava pálida e tinha olheiras salientes, porém, trazia um sorriso. 
- Vénus... O que estás a fazer em pé? - Tema pousou a toalha no lavatório e foi ter com ela. Agarrou no seu braço e colocou-o nos seus ombros, oferecendo-lhe apoio. Rapidamente levou a sua Tal para a cama de onde ela não devia ter saído.
- Ia ajudar-te a limpar os ferimentos... - Vénus colocou a sua mão no rosto dele. - Estás tão ferido.
- Tu estás mais, Vénus. Tens noção que te ias matando? - As palavras dele pretendiam atacar, mas soaram calmas. 
- Resultou não foi? Tu não morreste portanto resultou. Valeu a pena. - Vénus deslizou a sua mão até à do seu Tal.
     Tema sentiu o calor do corpo dela apoderar-se do seu. Essa sensação agradava-o imenso. Tema inclinou-se e deu-lhe um beijo doce e suave. Colocou as suas mãos no seu rosto e quando os lábios deles se afastaram, ele fitou os olhos vermelhos dela que lhe faziam lembrar rubis. As bochechas dela ficaram coradas e o seu sorriso era capaz de iluminar mil e uma galáxias. Sentia também, no entanto, uma grande dor no maxilar e nos lábios.
- Não me voltes a fazer uma coisa destas, está bem? 
- Tu é que não me voltes a fazer uma coisa destas. 
- Combinado. - Sorriu-lhe e beijou-a de novo. 
     Depois, Tema deixou Vénus limpar-lhe as feridas mas não deixou-a usar qualquer poder de Cura nele. Ele sabia que ela ainda estava muito fraca e assim que ela acabara de tratar dele, fora a sua vez de tratar dela.
     Tema não é um mestre de culinária por isso fez  o melhor que pode: massa com molho enlatado.
Logo depois de comerem, Vénus deixou-se adormecer no peito dele e ambos caíram num longo sono, envolvidos no calor um do outro sem se lembrarem que alguma vez estiveram separados.



Luna 



- Importas-te de estar quieto? Estou a tentar usar isto do betadine bem.
- Estou a tentar - disse Sol numa cara de dor.
- Estás a ser um maricas, isso sim. Quase nem se vê a ferida, Sol.
     A cara que ele fez deu-me vontade de rir. Ele estava realmente a sofrer por uma ferida de nada.
- Pronto, já está. Já acabei com o teu sofrimento.
     Ele levantou-se e colocou o seu braço à volta dos meus ombros.
- Mercúrio realmente perdeu o controle.
     Hesitei em dar qualquer resposta apesar de ele não me ter perguntado nada. Eu compreendia completamente de onde surgira a raiva do Mercúrio. Eu tinha essa raiva dentro de mim e escolhi guardá-la, Mercúrio escolheu mostrá-la. Só que ele não devia ter chegado ao ponto que chegou... Ele magoou pessoas que nada tiveram a ver com o assunto... Sol, Vénus, o meu pai... Ele foi longe de mais.
- Pois foi.
- O que tens?
- Nada. Absolutamente nada.
      Antes que Sol pudesse bombardear-me com perguntas, fui ter com o meu pai na esperança de ele precisar de ajuda.
- Luna, estou bem.
- Mas estás a sangrar.
- Já não estou. O sangue secou.
- Então isso quer dizer que veio de algum lado, logo estás ferido, logo deixa-me ajudar-te.
     Ele suspirou e fez-me a vontade. Por uns bons 30 minutos consegui escapar-me de Sol, mas assim que o meu pai decidiu subir as escadas para ir para o antigo quarto do Sol  descansar (de certeza que a avó e o Mercúrio devem estar agarradinhos por este andar), Sol fez questão de fazer-me um inquérito.
- O que se passa contigo, Luna?
- Hum? Como assim?
- Estás estranha desde do almoço.
     Ele reparou que eu iria enrolar o assunto até ele desistir, e por isso, insistiu ainda mais. E então decidi contar-lhe das minhas visões.
- Eu não queria esconder-te isto. Por favor, não te zangues, está bem?
- Está bem. Conta-me o que é.
- Prometes?
- Prometo.
- Bem, eu tenho visões.
     Ele ficou, claramente, chocado quando lhe contei. Acho que ele esperava que eu dissesse que matei não sei quantos ou algo do género. Mas logo a seguir, consegui sentir que ele ficara um pouco perturbado por não lhe ter contado desde do início.
- Então é por isso que não te senti à bocado... Foi porque o teu espírito se tinha deslocado para outro local.
- Sim, mais ou menos isso, sim. Acho eu.
- Esta não foi a tua primeira, pois não?
    Abanei a cabeça. Sentei-me mais perto dele e contei-lhe como tudo começou. Até lhe contei que tinha visto que ele iria aparecer quando estivesse com Tema no jardim. Só de pensar nessa noite fico com um nojo e uma tristeza enorme. Acho que nunca me irei perdoar, mas Sol perdoou-me e isso é tudo o que preciso.
- Pelo menos contaste-me. Sou o único que sabe?
- Sim, e vai permanecer assim. A única pessoa que precisa de saber, és tu. - Abracei-me ao seu braço e coloquei a cabeça no seu ombro. - E desculpa ter-te escondido isto. Não sabia bem como irias reagir a cada visão que tivesse.
- Não faz mal, Luna. Estou contente que me tenhas contado. - Sorriu-me.
- Vamos para cima? Acho que por hoje já tivemos ação suficiente.
- Sim. Aliás, tenho de repousar. Estou ferido. - Disse enquanto se apoiava em mim para levantar.
- Sim, Sol. Muitíssimo ferido, deveras - revirei os olhos e sorri.


     Quando eu e Sol nos deitámos na cama e eu estavas prestes a fechar os olhos para um descanso merecedor, fui invadida por uma luz branca e cor de rosa e tudo à minha volta desapareceu. Eu só reconheci a sua figura quando olhei com atenção.
- Lua?
- Luna, tens de protegê-lo... Protege-o!
- Lua! O que se passa? Proteger quem?
- Luna, é importante que o protejas. Ele tem de viver! Protege-o... -      Num milésimo de segundo, tudo voltou ao normal. O calor do Sol percorria cada canto da minha pele e eu estava envolvida nos seus braços, porém, a minha mente estava a milhas de distância e eu não sabia o que fazer. E então um sussurro no ar se pronunciou: "Protege-o...". Nesse momento eu percebi que o futuro que tenho à minha espera, não é nada do que eu realmente pensava. 

The Anger #39



Tema 



     O ar à sua volta parecia ficar cada vez mais gelado. O tal calor no coração de Tema parecia ir-se apagando e cada sombra flutuante no espaço fazia o seu coração bater mais depressa na esperança de poder ser a sua amada. 
     Tema não dormira desde que Vénus partira para a casa de Mondy e caminhava agora pelo quarto vazio sem ela. Sentia o vazio deixado pela Vénus mas sobretudo uma raiva, raiva dele mesmo. Essa raiva concentrou-se e Tema atirou tudo o que estava na mesa perto dele e pousou as mãos em punhos nela, a pensar - Porque raio tive de a atacar... Porquê?
     Aquela casa conseguia acalmá-lo mas também colocá-lo stressado. Cada canto, cada divisão, faziam-no lembrar de Vénus e do mês que eles se passaram a conhecer. Tema fora tão diferente do que é, ou era. Ele não imaginava ser capaz de amar mas a verdade é que amava Vénus. Muito. E apesar deste sentimento ser completamente diferente de todos os que sentira - raiva, tristeza, vingança, angústia, poder - Tema sentia-se completo. Se ele tivesse realmente mudado teria sido para melhor. Vénus era o melhor dele. E agora ela foi-se. 
- Tenho de ir ter com ela. - Pensou alto. No entanto, as palavras de Vénus ecoaram no espaço.
      E se tiveres a lata de aparecer por lá, as coisas não vão acabar bem.  
     Tema obrigou-se a esquecer que ela disse tal coisa. Como é suposto eles resolverem as coisas se Vénus ficar em casa da Mondy? E neste caso, ele não pode ser visto por mais ninguém sem ser Vénus. Ele sabe que Mercúrio não hesitaria em atacá-lo e usar os seus poderes contra ele seria um erro. Já bastava ter magoado a Mondy, agora magoar o seu Tal e Irmão de Vénus não era nada inteligente.
      Apesar das infinitas coisas que poderiam dar errado nesta visita passarem em frente dos seus olhos azuis esverdeados, Tema ignorou tudo e foi atrás do que realmente o faz feliz: Vénus. 





Luna 



- ALMOÇO! - Ouviu-se Mercúrio gritar da porta da cozinha. 
     O seu grito fez Persifal acordar e arranhar as minhas calças de ganga. O meu pai, lá com o seu jeito extraordinário para gatos, acalmou-o e ele logo adormeceu nos braços dele. Dei-lhe uma festinha antes de me encontrar com os braços de Sol à minha volta. Vénus ajudou a avó a levantar-se e ir para a mesa. Sugeri que ela ficasse sentada no sofá e comesse num tabuleiro mas ela recusou logo e disse que não estava inválida, apenas cansada. Suspirei. Nem sei porque ainda tento convencer a teimosia da avó a fazer o que digo. 
     Sentámos-nos todos à mesa e reparei na tensão entre Vénus e Mercúrio. Não disse nada para não matar o bom ambiente que havia graças ao despertar da avó.
     Mas de repente tudo o que via ficou turvo e incerto. Uma luz branca apoderou-se da sala e mostrou um quarto iluminado por uma janela enorme com um cortinado branco ao vento. A cama de dossel era enorme com lençóis azuis escuros, coberta de almofadas escuras de tom acinzentado, azul e branco com um bonito tecido a cortinar a cama.
     Depois de ter reparado nisto tudo, finalmente dei-me conta da pessoa que estava no quarto. Era Tema e parecia tão preocupado e triste que até senti-me mal por ele. Rapidamente o sentimento de pena foi substituído por uma raiva que cresceu dentro de mim. Só queria atacá-lo e fazê-lo sofrer como ele fez com a avó, porém, eu não podia, eu não estava realmente lá. Obriguei-me a concentrar-me. Não estava ali para atacar ninguém. Eu estava  testemunhar um momento importante.
     Quando finalmente coloquei a minha atenção nele, Tema disse: 
- Tenho de ir ter com ela. 
     Bem, o ela era óbvio: Vénus. 
     Finalmente o que ele disse atingiu-me e apercebi-me que Tema vinha à minha casa. Não consegui evitar o pensamento de ele ser um homem com tendências suicidas. Ele acabou de atacar a minha avó e está espera de chegar em minha casa com um comité de boas vindas? Mercúrio matava-o se o visse, é que nem há dúvidas nisso. Para além do mais, Sol e Plutão de certeza que aproveitariam a chance de atacá-lo. Eu tentaria atacá-lo. 
      E com este pensamento, a minha visão desvaneceu-se lentamente e a sala de estar foi recuperando a sua forma. 
- Luna, está tudo bem? - Sol perguntou, stressado e preocupado.
     Nem tive tempo de assimilar o que me tinha acontecido e fui logo bombardeada com perguntas dele. 
- Eu estou bem, não te preocupes. 
- Por momentos não te senti. - Sussurrou-me, um pouco assustado e preocupado. 
- Hum? Como assim? 
- Como se tu não existisses.
O olhar dele estava a matar-me. Ele estava realmente assustado.
- Não te preocupes. Eu estou aqui, irei estar sempre. - Coloquei a minha mão no seu rosto e beijei-o seguido de um sorriso.
     Ele sorriu-me de volta mas o olhar preocupado manteve-se.
     O facto de estar a esconder as minhas visões de Sol estava realmente a afectar-me agora. Mas se lhe contasse o que tinha acabado de ver, ele iria atacar o Tema e no que acabei de presenciar, Tema só quer estar com Vénus e pedir desculpa. Atacar agora é uma boa oportunidade, ele vai estar distraído, mas não acho nada que seja o momento para iniciar uma guerra. Portanto vou ficar de olho em Vénus e quando Tema aparecer vou espiá-los. Bem, pelo menos tentar e rezar  que ninguém os veja.


     Depois do almoço deixei-me cair no sofá com Persifal na barriga até ouvir a agitação de alguém na sala. Pensei para mim que seria Sol, mas enganei-me. O perfume de flores apoderou-se da sala e percebi logo que era Vénus. Ela já deveria saber que Tema viria cá.
- Está tudo bem, Vénus?
     Ela demorou a responder, e quando o fez, a sua voz soava completamente segura.
- Sim, está tudo, Luna.
     Ela começou a caminhar para o jardim e fiquei na sala mais um pouco para Vénus não desconfiar que a iria vigiar. Apenas agradeci por todos estarem nos seus quartos.
     Caminhei até à porta que dá entrada ao alpendre do jardim e encostei-me junto a três grandes vasos de flores e consegui manter-me escondida. Vénus encostou-se na sombra mais funda da grande árvore do jardim e Tema apareceu numa luz azul-gelo. O olhar dela era ameaçador. O seu semblante mostrava raiva e Tema sussurrava a tentar explicar-se. Eles estavam mais a discutir do que a resolver qualquer briga de casais e sinceramente estava a ficar farta daquilo mas se saísse do meu esconderijo eles iriam ver-me e isso não seria bom. Portanto teria de esperar que eles acabassem a discussão.
      A discussão acabou mais cedo do que pensava.



Mercúrio 



     Mercúrio percorria cada canto da sua mente para tentar encontrar palavras para dizer, mas nada lhe surgia. Mondy deitara-se na sua cama e dormia profundamente. Os raios de Sol iluminavam o seu rosto e tudo o que ele via era beleza. Só de pensar que quase a perdera... Mas não. Ele não a perdera, ela continuava ali, com ele, viva. 
     Mercúrio queria ter as palavras certas para dizer a Mondy quando ela acordar. Queria dizer-lhe que depois deste incidente, eles deveriam ficar juntos de novo e que ele a ama muito, mas tudo o que ele pensava soava-lhe foleiro e demasiado lamechas. 
      Levantou-se do canto da cama em que estava sentado, deu um beijo na testa de Mondy e saiu do quarto. A casa estava num silencio profundo, nada se ouvia até Mercúrio chegar à sala. Apercebeu-se de que estava alguém no jardim. Devia ser Vénus. Num instante, ele tomou uma decisão: iria pedir desculpas a Vénus. Ela tratou Mondy tão bem e nem teve culpa do que lhe aconteceu, e aliás, pareceu-lhe bem arrependida com o que aconteceu anos atrás. Decidido, Mercúrio foi até ao jardim e encontrou Vénus... Mas também encontrou Tema. 
- O que é que estás aqui a fazer?
     Vénus encarou-o mas Mercúrio só conseguia ver Tema. 
     Instantaneamente, Mercúrio sentiu os seus olhos ficarem dum vermelho possesso de raiva e dentro de si ele conseguia sentir o fogo a alastrar-se até às suas mãos. 
- Não, não, não, Mercúrio, por favor! - Vénus gritava até ele, com as mãos abertas.
      Mercúrio, cego pela raiva, afastou Vénus com o braço esquerdo e ela tombou no chão. 
- Vénus! - Tema tentou mexer-se, caminhar até Vénus, mas Mercúrio não o deixou dar um passo. - Mercúrio, não quero lutar contigo. 
- Agora não queres lutar? - O seu riso não tinha qualquer humor. - Engraçado que há umas horas tinhas uma disposição diferente. 
- Ouve, desculpa por isso, está bem? Agi sem pensar. Mas não estou aqui para lutar contigo. 
- Bem, tarde mais, amigo. 
     Mercúrio criou chamas enormes com as mãos e lançou-as na direção de Tema, sem se preocupar com Vénus ou até consigo próprio, ele lançou mais chamas contra o seu oponente. Tema não atacou desta vez. Em vez disso, criou um escudo protetor de gelo à volta deles, mas não ficou por ali.  Em seguida, levantou-se e enfrentou Mercúrio. 
- Já vi que não me dás escolha - disse Tema. 
      Os olhos azuis esverdeados de Tema tornaram-se brancos e uma brisa de gelo voou à sua volta. Isto só fez Mercúrio querer derrotá-lo ainda mais. 
      O Tal de Mondy criou labaredas de fogo e lançou-as contra Tema, porém, este contra-atacou-o com flechas de gelo. Mercúrio sabia que iria ser difícil derrotá-lo por terem poderes opostos, no entanto, não desistiu. Continuou a formar labaredas e chamas de fogo e a lançá-las contra Tema e este continuava a contra-atacá-lo com flechas e esferas de gelo. 
     Quando Mercúrio já não aguentava mais aquele vai e vem, correu até Tema e lançou-lhe mais chamas até estar tão próximo dele que começaram a lutar. Tema sentiu as chamas dele na sua pele, tão quentes que mais um segundo expostos a elas teria sofrido queimaduras terríveis. Mercúrio possuído por raiva, agarrou no decote da t-shirt de Tema e começou a bater na cara dele. Tema sangrava do nariz e da boca e Mercúrio não iria parar até conseguir a sua vingança. Os seus punhos, ligeiramente iluminados por chamas, esmurravam o rosto da Estrela que continuava a sangrar, a abrir feridas, completamente à mercê do Planeta. Tema estava a ficar cada vez mais fraco e não conseguia encontrar força em lado algum para se defender. Os seus olhos tinham voltado ao normal azul esverdeado. O nariz sangrava, tinha a boca vermelha de sangue, um corte na sobrancelha, as faces encarnadas de tantos golpes sofrerem. Mercúrio arfava, com os punhos doridos, sem querer parar. Pelo que o que ele fez com a Mondy, pelo terror que ele implementou na galáxia, pelo sofrimento que Tema lhe trouxe, Mercúrio não via motivos para parar. Ele estava prestes dar o último ataque que iria acabar com a vida de Tema quando Vénus impediu-o. 
- Não! Tu não vais matá-lo! - Vénus empurrou-o com tanta força que ele saiu de cima de Tema e cambaleou para o lado. Mercúrio sentia-se atordoado, mas isso não iria impedi-lo de acabar o que tinha começado. Ele iria acabar com Tema.



Vénus 



     O seu maior pesadelo acontecia naquele preciso momento: um dos seus Irmãos estava a matar o seu Tal. Ela não conseguia ver aquilo e decerto que não iria deixar aquilo continuar.  
     Após afastar Mercúrio de Tema, Vénus colocou o seu Tal numa pose mais confortável e deixou-o descansar perto da árvore grande. Tema cuspiu sangue, com os olhos mal abertos. Desesperada, Vénus gritou: 
- Sol! Plutão! Luna! Por favor! Ajudem-me!
     Mesmo sabendo que eles poderiam não ajudá-la, eles iriam parar Mercúrio. Ele estava possuído duma maneira que ela nunca antes vira e ela tinha medo, muito medo. 
- Vénus, tu não me vais conseguir impedir. - Mercúrio avançava, completamente cego pela raiva e pelo ódio. 
- Não faças isto, por favor! - Vénus chorava. 
- O que se passa aqui? - Plutão perguntou. 
- Plutão, ajuda-me! O Mercúrio está... - Vénus mal conseguia falar. 
- Esse é... Esse é o Tema? 
- Sim, é. E vai ficar muito pior depois de eu acabar com ele. - Mercúrio criou chamas de fogo nas suas mãos e iria lançá-las se não fosse Luna a apagá-las com água.
     Vénus fitou-a surpresa mas estava mais que agradecida. Sol logo apareceu e ele, juntamente com Plutão, foram tentar acalmar Mercúrio, mas em vão. Ele abriu os braços e uma onda de calor fez Sol e Plutão caírem. Luna ficou desesperada ao ver o seu pai e o seu Tal caídos. 
- Mercúrio, por favor pára! Isto está a ir longe de mais! - pediu Vénus.
- Estás a magoar os teus amigos a que custo? Mercúrio, por favor... 
- Estou tão perto, Luna. Não vou parar agora. - Mercúrio caminhou até Tema mas Vénus colocou-se no seu caminho. 
- Maninha, por favor, sai do meu caminho. 
     Vénus passou o antebraço pela cara a limpar as lágrimas e olhou-o firme.
- Obriga-me. 
- Se o desejas.  
      Mercúrio ia derrubá-la com o braço, mas ela parou o seu movimento e fez-lo cair de joelhos. Vénus colocou dois dedos na testa dele e criou uma luz amarelada e finalmente, Mercúrio caiu desmaiado. 
Sem energia alguma, Vénus iria cair no chão manchado de cinzas e um pouco queimado de gelo e fogo, se não fosse o seu Tal a agarrá-la. Após ver o sorriso tímido do seu Tema, Vénus permitiu-se a fechar os olhos em paz. 

bright petals.