Underneath #43

     O ar à volta gelou e nele os fios negros e pegajosos do monstro voaram formando uma teia. Apesar de terem estado presas durante aquele tempo e terem as emoções à flor da pele, o poder das gémeas não vacilou quando os fios atacaram. 
     Violet protegeu o rosto com os braços e de palmas abertas viradas para a frente ela atacou a Escuridão com setas de luz. Os restantes levantaram-se e Saeva sobrevoou-os como um abutre a olhar para a refeição. Com um sorriso no rosto, deixou as serpentes negras ao seu comando atacar por ele enquanto se preparava para lutar contra a Estrela Vital e finalmente apoderar-se do corpo dele. 
      Melody colocou-se ao lado de Ryan. 
- Não penses. Escolhe um alvo e ataca. O teu poder irá responder à tua vontade - disse-lhe. 
      Ryan ia responder-lhe mas um fio largo e afiado, parecido com uma grande foice, balançou até eles e ambos tiveram de se baixar. Melody logo levantou-se e atirou terra molhada, que assim que tocou na foice esta solidificou-se, e com um gesto, partiu-se em mil bocados. 
- Não precisas de truques fantásticos. O que consegues fazer agora é suficiente. Não te deixes cortar, Ryan - avisou ela.
- Tens noção que eu não sei nada? - ele juntou-se à dança dela e ficaram de costas um para o outro com ambas as mãos levantadas prontas para contra-atacar. 
- Não tenho tempo para te motivar agora, Ryan. Ou fazes ou deixas o Troy pior do que já está. 
      Ryan sentiu-a mexer os braços e uma luz alaranjada intensa atrás de si. 
     Ele só viu por um reflexo algo a vir contra ele e sem saber como, das suas mãos inquietas saíram faíscas brancas que atacaram um servo de Saeva. Só quando abriu os olhos é que se apercebeu da respiração acelerada e do coração palpitante no seu peito. Melody não o encarou mas pelo seu tom de voz ele sabia que ela sorria.
- Não é assim tão difícil pois não, Bennett? 
- Pensava que tínhamos concordado em deixar os apelidos de fora - disse, com a postura controlada e um sorriso matreiro no rosto. 
- Foi no calor do momento - respondeu ela e Ryan deixou de sentir as costas dela atrás de si. 
- Melody? - chamou, ainda com os olhos postos nos fios que rodopiaram até si. Virou-se por um segundo e viu-a a lidar com quatro fios em forma de serpentes ao mesmo tempo. Ryan atirou uma explosão de energia para os dois fios que o rondavam e foi ter com ela resmungando durante o caminho. 
     A personificação de Plutão concentrou-se na principal cobra que teimava em não desaparecer. Com as mãos apontadas para o monstro negro, um cone de gelo e nevoeiro voou até ao centro do fio quebrando-o em pedaços. 
- Eu consigo safar-me sozinha - ralhou ela. 
- Eu sei que sim mas não é por isso que não fico assustado - admitiu. Se não estivessem envolvidos e ocupados pelos bichos da Escuridão, ambos teriam ficado constrangidos. 
         
      De olho em Saeva, Troy defendia-se dos fios cortantes e mutáveis que apareciam à sua frente. Pensava que estar neste ambiente tinha drenado as suas energias mas pensando nisso não tinha fome nem sono. A adrenalina fluía no seu sangue e os seus poderes respondiam aos seus pedidos. Violet estava um pouco atrás de si e pelo canto do olho ele conseguia ver que dois pegajosos fios a mantinham ocupada. 
     Troy deu cabo das setas negras que Saeva lhe tinha atirado e direccionou a palma da mão esquerda para o pássaro grande que a sobrevoava. Uma energia gelada atingiu o pássaro e que o fez tombar no chão e finalmente desaparecer.
     Violet lançou-lhe um olhar de agradecimento sorrindo subtilmente e procurou a irmã na teia que Saeva tinha tecido. Viu-a com Ryan e sentiu-se aliviada por não estar a lutar contra demasiados oponentes. Correu até Troy mas uma corrente rodeou o seu tornozelo fazendo-a gritar e tombar. Troy fitou-a. Um fio cortou-lhe o rosto superficialmente no momento em que se virou.
- Violet!
- Troy! - ela esticou os braços mas era tarde demais para Troy a conseguir agarrar.
     Com as duas mãos criou um tornado pequeno que afastou por momentos o inimigo. Ele começou a correr até ela mas Violet começou a ser levada pelo chão até finalmente ficar levantada no ar pela perna.
     Do outro lado, Melody e Ryan viram a personificação de Vénus pairada no ar. Violet tentou quebrar a corrente com os seus poderes mas aquelas eram como as cordas que prenderam os seus pulsos: atacavam ao ataque. Rapidamente, linhas escarlates começaram a cair pela sua perna até às calças e Violet mordeu o lábio para não emitir som algum. 
      A teia de Saeva recolheu-se como se tivesse sido sugada. O monstro voava alto e comandava o fio que prendia a filha do Sol e da Lua balançando-a como se fosse um brinquedo. 
- Vi! - gritou a irmã. 
     Melody atacou o monstro três vezes com os seus poderes e em todos eles Saeva conseguiu desviar-se facilmente. Ryan agarrou o braço dela de modo a pará-la. Troy tinha os nervos em franja. Ele sabia que aquilo era somente para distrair e magoá-lo e Saeva estava a conseguir o que queria. 
     Troy tinha prometido lutar, mas naquele momento considerou em desistir e entregar-se plenamente ao monstro. Mas Troy prometera não desistir. 
- Porque não lutas comigo? Porque não largas os rodeios? 
- Tudo bem, se é isso que queres. Mas lembra-te que foste tu que o pediste - respondeu Saeva com um sorriso horripilante. A corrente largou o tornozelo de Violet e Troy amparou-lhe a queda com um pequeno redemoinho de ar. 
     Sem avisar, a sombra negra atravessou o corpo da Estrela Vital fazendo-o recuar e causando-lhe uma forte dor de barriga. O riso da criatura encheu o espaço. Troy levantou o rosto e viu Violet a curar o seu tornozelo com Melody e Ryan ao seu lado.
- Tentem sair daqui! Agora! Vão! 
     Violet abanou a cabeça freneticamente mas Ryan apertou o ombro de Melody que momentos depois começou a brilhar num tom laranja pêssego. Melody lançou um olhar a Troy extremamente triste. Violet olhou incrédula para a irmã.
- Mel... O que estás a fazer?!
- Está tudo bem - ele sorriu, com a mão na barriga mal disposta.
- O que pensam que estão a fazer? Na, na, na - disse Saeva. - Ninguém vai sair daqui. Ninguém! 
      O estrondo da sua voz fez a luz à volta dos três desaparecer. Violet levantou-se.
- Fica onde estás - disse-lhe Troy mirando-a com um olhar doloroso e cansado. Virou-se para Saeva e endireitou-se. - Falta quanto tempo?
- Algum.
      Saeva desceu do ar.
     O corpo fantasmagórico modelou-se num homem não muito mais alto que ele, de cabelo negro encaracolado e olhos cinzentos escuros. Parecia estar vestido na escuridão do espaço, camuflando-se com as paredes negras e ondulantes. O sorriso do rosto cor de cinzas brilhou e dos dedos pontiagudos saíram fios negros famintos. A aura à volta do homem era negra, tal e qual como quando ele possuiu Aaro Alexander.
     Troy engoliu em seco. Como iria vencer a personificação da Escuridão? Ele não fazia a mais pálida ideia mas não tinha alternativa nenhuma. Troy tinha uma promessa para cumprir.
      A marca dele brilhou ao abrir as mãos. O cabelo loiro mexeu-se com uma brisa fresca e com cheiro a mar. Troy fechou os olhos ao presenciar tal cheiro - o cheiro de casa. Por segundos viu o rosto da mãe com o seu típico uniforme amarelo do mar com o cabelo loiro apanhado atrás. Depois seguiu-se o pai com os olhos azuis esverdeados a brilharem para ele num sorriso meigo e orgulhoso. O seu coração saltitou um pouco quando apenas a cor lilás se infiltrou nos seus pensamentos.
     Ele abriu os olhos e viu Saeva contentíssimo. O braço dele subiu e os fios imitaram.
     Troy deixou de parte o gelo que se fundira com Tema e permitiu o Ar liderar o seu caminho.
     A luz que emanava do corpo da Estrela quase cegou Ryan, Melody e Violet mas para Saeva foi só mais um incentivo para acabar com o rapaz de dezasseis anos à sua frente. A aura dele aumentou, os seus fios engrossaram e engrandeceram e Saeva criou uma onda negra que quase se sobrepôs à luz e aos ventos.



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      O palácio cintilava por cada canto e o grande satélite do Planeta estava tão perto que Luna não conseguia acreditar. Ao andar pelos jardins levemente cobertos por neve, ela conseguiu ouvir suspiros até vindos de Mercúrio. 
      Silver dissera-lhes que Qaya mal ficava na sua forma humana desde que Tema morrera e que isso poderia vir a ser um problema. Mas Luna estava disposta a fazer tudo ao seu alcance para garantir que saía de Lymph com as suas filhas nos braços. 
- Podem esperar aqui - disse ela e indicou-lhes o pátio coberto com bancos e plantas brancas, azuis escuras e esverdeadas. 
- Onde vais? - perguntou Sol. 
- Desculpa? 
- Perguntei onde vais - repetiu Sol um pouco irritado com a arrogância da personificação.
     Ela esperou que ele mostrasse algum sinal de fraqueza mas tal não aconteceu. A Estrela do Sistema Solar emanava calor e um brilho dourado pelo contorno do corpo mostrando o seu poder. 
- Vou tentar contactar Qaya - respondeu por fim. - Satisfeito? 
- Não podes fazê-lo aqui? - Mercúrio questionou com uma sobrancelha levantada. 
- Não me admira que o Tema quisesse acabar com vocês todos, são uma cambada de chatos - resmungou e virou-lhes as costas.
      Luna esperou até Silver se retirar da presença deles para resmungar: 
- Quem é que ela pensa que é?
- O primeiro, e por isso, o mais importante Planeta de Lymph - disse uma voz masculina. 
     Uma luz verde iluminou a sala. Um homem negro vestido em robes dourados e roxos apareceu. As representações automaticamente ficaram alerta e cercaram de certa forma Luna que ao reparar ficou ligeiramente perturbada. Apenas Sol se tinha mantido firme ao seu lado a dar-lhe a única segurança que ela precisava. 
- Qaya - murmurou Sol. 
- Não foi a Silver que me chamou - disse ele, depois de afirmar o seu nome. 
     Luna prestou atenção ao homem que surgira. O torso esculpido estava parcialmente tapado por drapeados roxos e dourados. As suas vestes lembravam-lhe da época grego-romana. 
- Se ficassem a depender da palavra dela nunca mais sairiam daqui - os seus lábios grossos formaram um sorriso. - As vossas filhas, o rapaz e a minha Estrela estão a lutar neste preciso momento - os quatro mexeram-se prontos para cederem ao desespero. Qaya abriu as mãos indicando-lhes que não começassem sequer. - Não há nada que vocês possam fazer. Saeva construiu um vácuo negro que somente alguém como o Troy pode destruir. 
- Eu sou uma Estrela Vital. Eu posso tentar - disse Sol, chegando-se à frente. 
- Eu sei mas não estás na tua galáxia e por conseguinte, não estás no teu pleno. Troy está. 
- Como sabes disto? - questionou Mercúrio com o som teu desconfiado. 
- O vácuo encontra-se no meu Planeta. Saeva criou-o perto da biblioteca onde os jovens estavam e estiveram presos durante vários dias. As palavras de Noir vão ter efeito se Troy não conseguir achar uma maneira de quebrar o vínculo entre ele e a Escuridão. 
- Quantos dias passaram? 
- Eles estão no teu Planeta, não podes fazer nada? 
- Leva-nos para lá. 
- Eu posso levar-vos até lá. Faltam dois dias para o aniversário da Estrela mas por ter estado tanto tempo em Lymph, Troy deu a energia que Saeva precisa para o conquistar. E não, não posso fazer nada. Os meus poderes vão até a um certo ponto e não sou eu que lido com as questões da Luz e da Escuridão na minha galáxia. 
- Quem é, então? 
- A Estrela - Sol respondeu à pergunta de Mercúrio. 
     Qaya caminhou até eles mas parou quando viu uma figura pelo canto do olho. 
- Não vou participar nos teus jogos, Sil - disse ele. 
     O grupo olhou para onde os olhos de Qaya se direccionavam. Silver estava encostada à ombreira da alta porta de acesso ao castelo com os braços cruzados. O vestido azul formava um poça no chão e o cabelo loiro mexia-se com uma brisa invisível. Os dedos finos mexeram-se no braço até ela finalmente decidir ter com o segundo Planeta de Lymph. 
- Como é que entraste aqui? - perguntou com os olhos a emitirem um brilho cinzento cortante. 
- Quando tens raiva ficas mais vulnerável sabias? É fácil encontrar uma fenda na tua concentração. 
- Armas-te sempre em esperto - disse ela. 
- Da próxima eu aviso - sorriu e tocou na ponta do nariz dela com o dedo. 
      Silver espirrou. 
- Odeio-te - resmungou ela que ficou subitamente com um ar muito constipado. 
- Vens? 
- Não. Não gosto deles - virou-lhes as costas e caminhou até a porta de acesso ao castelo batendo-a com força atrás de si. 
- Vamos então - disse Qaya. 


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     Antes do zumbido, o seu nome ecoou pelo ar.
     A onda de Saeva chocara com a sua luz e antes da sua mente se desligar, viu fragmentos da matéria arenosa escura tentar penetrar a onda de luz, em vão. Uma explosão de energia saiu do corpo da Estrela projectando Saeva e ele para trás. Troy só ouvira e seu nome antes da sua mente se apagar. Mas, ao contrário do que julgara, quando recuperou os sentidos ele encontrava-se num espaço amplo e luminoso - o Mundo dos Espíritos. À procura da Lua, Troy encontrou o seu antigo eu, filho de Alaric e Nöelle Alexander: Aaro ou melhor ainda, Tema.
- Ele separou-me de novo? - perguntou Troy ansioso.
- Não - respondeu-lhe Tema.
     Ambos ainda não se tinham habituado a ver uma figura idêntica a eles mesmos. A única diferença era o tom de pele e o tom loiro do cabelo. Troy tinha o cabelo ligeiramente mais escuro devido à exposição solar e a pele morena enquanto que Tema exibia o cabelo e a pele em tons claros. Os olhos azuis esverdeados, no entanto, eram a marca significativa de ambos.
- Eu trouxe-te aqui, temos pouco tempo. O teu consciente está desmaiado, assim como Saeva e os teus amigos. Demonstraste grande força ao chocar com a Escuridão daquela forma - explicou. Tema aproximou-se e era somente uns dez centímetros mais alto que Troy. Ele sabia que daqui a menos de um ano o jovem ultrapassaria esses dez centímetros.
- Porque me chamaste aqui? Eu preciso de acordar antes que o Saeva...
- Troy, pára um bocado - disse-lhe e pousou as mãos nos ombros dele. - Relaxa e respira fundo - ele hesitou em obedecer-lhe mas acabou por o fazer. - Eu quero pedir-te desculpas por ter posto este peso enorme em ti. Eu pensava que a morte tinha acabado com a porcaria toda que eu causei mas enganei-me e foi tudo parar aos teus ombros - Tema acariciou os ombros dele e moveu as mãos para os braços. - Eu tinha dezasseis quando o Saeva me tomou, eu sei os pensamentos que vão na tua cabeça. E o que eu quero que saibas que é que esses pensamentos só te ajudam até um certo ponto. Para ajudar os teus amigos e a tua família, precisas de desligar esses pensamentos. Não por completo, mas o suficiente para saberes que eles lá estão e que eles não te incomodam mais.
- Eu não sei como - disse Troy a ceder ao peso do mundo nas suas costas. - Eu não sei como.
- Sabes sim - Tema largou-lhe os braços e sorriu. - O que é que acabaste de fazer há segundos atrás? Tu largaste o mal que o Saeva te fez e agarraste-te ao bem. Troy, se não fosse o teu lado bom, tu não estarias aqui a falar comigo. Estavas neste momento a conquistar a Terra ou se calhar o Sistema Solar. O Saeva só te pode fazer mal se tu o deixares. Eu deixei-o. Tu és forte o suficiente para não o deixares.
     As palavras da antiga Estrela foram absorvidas lentamente e uma vez no seu sistema, elas começaram logo a fazer o efeito pretendido. Troy sabia o que tinha de fazer mas por alguma razão, as palavras dele ajudaram-no mais do que esperava como se o incentivo dele fosse o único que precisasse. Troy ainda tinha os seus medos mas a sua determinação estava mais segura e forte agora.
- Sabes qual é a tua luz, Troy?
     Troy não respondeu de imediato com várias coisas a saltarem-lhe pela mente. Há espera de encontrar um rosto, ele viu a sua praia e o seu mar. Em seguida os rostos dos pais apareceram, depois Ryan e Catarina. Troy sorriu inconscientemente e com os olhos fechados o rosto de alguém inesperado fez o coração dele saltitar. Tema sorriu ao ver o rapaz corar subitamente.
- Não tenho bem a certeza mas penso que, se a minha luz é o que me dá força, são os meus amigos principalmente.
- Então agarra-te bem a isso, é tudo o que precisas - disse-lhe. Troy assentiu. - Vejo-te em breve.
       As palavras de Aaro dançaram pelo ar e a luz que os rodeava tornou-se turva revolvendo-o como um tornado. Troy despertou. Os olhos miraram uma escuridão plena e até habituar-se ao escuro, nada viu. Sem se mexer, Troy sentiu os fios de Saeva a rodearem-lo, prontos para atacarem. A Estrela respirou fundo e deixou o cheiro a sal e verão inundarem o ar à sua volta. Rapidamente sentiu uma brisa a brincar com o seu cabelo loiro típico de surfista. Mexeu os dedos e sentiu uma certa diversão ao aperceber-se pela primeira vez como o seu poder verdadeiro realmente funcionava.
     O elemento do Ar percorreu o corpo de Troy Evans libertando-o da escuridão e tornando o seus olhos completamente brancos. Ao abrir os braços, uma rajada de vento afastou os fios negros e o véu que Saeva colocara no espaço desapareceu. O riso da criatura encheu o ar e Troy procurou o demónio sem sucesso.
- Aparece Saeva!
- Como queiras.
     Saeva tornou-se visível e Troy, ainda com os olhos totalmente brancos, atirou contra o espírito ataques típicos e originais de Lys. Saeva reconheceria o estilo de luta dos manejadores do Ar sempre que o visse. A muito custo, ele conseguiu desviar-se dos ataques poderosos da Estrela. Assim como ele, Troy também ganhava mais poder por estar na sua galáxia. No entanto, quem tinha a vantagem não era o rapaz inexperiente, mas sim a personificação da Escuridão que lutava no seu próprio elemento.
     De fora, Violet, Ryan e Melody assistiam à dança mortífera entre Saeva e Troy. O trio estava tão afastado quanto podia e nenhum deles desejava estar parado a assistir. Melody tinha a mão dada à irmã e de vez em quando sentia Violet a apertá-la sempre que Troy sofria um ataque. Já Ryan não parava quieto mesmo estando parado no seu lugar. Esta era uma daquelas vezes em que Melody sentia-se impotente. Não podia fazer nada para acalmar fosse a irmã ou Ryan e também não podia ajudar Troy visto ser esta a sua batalha. Tinha de se limitar ao papel de espectadora e isso deixava-a louca. Mesmo assim, guardou os seus sentimentos numa gaveta distante dos seus pensamentos. Se algo acontecesse, Melody tinha de estar funcional e pronta para tudo. Mas...
     Melody viu algo. Um risco de relance, algo fino e escuro... Desta vez foi ela a apertar a mão da irmã.
- O que foi, Mel?
- Não viste aquilo?
- Onde?
      Ela aguardou até o fio aparecer de novo e segundos depois apontou-o à irmã.
- Ali! Viste?
- Sim, é melhor...
     Mas já era tarde de mais. O fio atravessou o corpo de Troy mesmo no local da sua marca e este caiu de joelhos. O seu grito preencheu o espaço e nenhum dos três tinha ouvido algo tão doloroso e terrível. À mistura, o riso de Saeva congelou o ar e o trio susteve a respiração até finalmente começarem a caírem-lhes lágrimas silenciosas e quentes. Violet apertava a mão da irmã com tanta força que ficou com os nós dos dedos brancos. O sangue da Estrela espirrou até ao chão manchando a t-shirt preta. Os seus olhos voltaram ao azul esverdeado e uma lágrima caiu-lhe pela face morena.
- Troy - murmurou Ryan.
- És meu, pequeno Alexander, desde sempre e para sempre - proferiu Saeva.
- Não! - gritou Violet que largou repentinamente a mão da irmã e começou a lançar ataques aleatórios ao espírito maléfico. - Desaparece! Não te aproximes dele, seu monstro! - gritava ela, em choque pleno.
     Troy tentou murmurar algo mas mal conseguia levantar o rosto.
     Violet correu até ele e levantou-lhe a cabeça tirando o cabelo da sua cara.
- Troy, Troy... Não adormeças por favor - Violet chorava mais do que se pensava. - Vou curar-te, por favor aguenta mais um pouco.
- Vi - murmurou ele num tom de voz péssimo. - Violet... Sai daqui.
- Shhh, não digas nada - pediu ela e limpou os olhos com o braço.
- Não adianta de nada, princesa - comentou Saeva agora na sua forma humana. - Não o podes ajudar.
- Não te aproximes dela! - gritou Melody com as palmas abertas. Ryan vinha ao seu lado com os olhos vermelhos e as mãos preparadas.
     Saeva fez um gesto e os três foram parar ao outro lado do vácuo. Ao embateram contra a parede, os três caíram. Ele aproximou-se da Estrela ferida e puxou-lhe a cabeça para cima pelo cabelo. Troy tinha os olhos fechados, alguns arranhões nas faces e um risco de sangue a escorrer pela boca. O espírito levantou as duas mãos e lentamente, a Estrela começou a flutuar.
      Do outro lado, o trio fitava com desespero e ânsia o seu amigo. Se não fosse pela Melody, Violet já tinha corrido de volta para junto de Troy. A ocuparem o lugar de espectadores de novo, eles viram Troy a subir e a subir, rodopiando muito lentamente enquanto subia.
- Olhem para ali - disse-lhes Ryan, apontando para um local atrás de Saeva.
      Algo parecia estar a derreter e a abrir-se.
- Troy - murmurou Violet.
- Ele está a dar-nos uma saída - disse Melody.
- Nós não podemos ir. Não podemos deixá-lo sozinho.
- Eu não quero deixá-lo sozinho - concordou Ryan.
- Então vamos ignorar o sacrifício do Troy? Ele está a usar o último pingo de energia que lhe resta para nos arranjar uma saída.
     Violet ignorou o olhar da irmã. Ela tinha razão. Tinha sempre. Mas por algum motivo não podia aceitar deixá-lo sozinho. Violet fitou o pequeno círculo que começava a formar-se atrás de Saeva. Por um segundo viu mais que brilho dourado; viu um braço.
- Mel...
     Os olhares de Marte e Plutão dirigiram-se para o círculo e uma mão surgiu. Melody reconheceu essa mão de imediato.
- É a mãe! - exclamou. - É a mãe!
- Eles vieram...
      Violet esgueirou-se da mão da irmã e correu até Troy.
     Saeva começou a mexer os dedos para cima e para baixo num ritmo constante e deles saíram fios negros que começaram a circular à volta de Troy enquanto que este mal conseguia manter os olhos abertos. De relance, o espírito agora tomando a forma de humano, viu a personificação de Vénus correr até eles. Os seus dentes pontiagudos mostraram-se num sorriso malicioso e Violet foi atirada para a parede do lado direito. Saeva ouviu o grito da sua irmã gémea e sem precisar de olhar, soube que os outros dois corriam até eles. Lançando três fios grandes na direcção do duo, ele deixou a sua concentração ficar somente na Estrela, permitindo aos fios brincarem com as crianças.
- Estou quase lá - sussurrou ele já a saborear a vitória.
     Ryan fitou o buraco que se tinha formado no vácuo e viu o rosto da mãe das gémeas.
- Melody! Violet! - gritou ela. O buraco não era grande o suficiente para passar um adulto ainda.
- O quê? - Saeva olhou para trás e viu Luna. - Seu espertinho - virou-se para Troy, fechou a mão e acto contínuo, os fios negros apertaram o corpo fraco da Estrela.
      Os fios feitos duma matéria arenosa premeram a pele do surfista até ele gritar e não conseguir mexer-se. Depois, começaram a entrar na pele dele fazendo o seu caminho até ao interior do seu corpo.
     Saeva enviou fios negros para taparem o buraco que se formava.
- Não... - murmurou Troy com dificuldade a tentar tirar um braço do enlace dos fios.
      Troy conseguiu tirar o braço arranhado e vermelho do aperto e não deixou que Saeva fechasse o buraco que criara com a energia que lhe restava. Ao ver o poder que ainda fluía no sangue do rapaz, Saeva ignorou o buraco e deixou-o tombar no chão. Troy caiu, aterrando de lado no chão, ainda amarrado pelos seus fios pretos. Ele aproximou-se, agarrando no queixo do rapaz e cuspindo-lhe para a cara:
- Só preciso de ti porque quando te tiver, aqueles - e indicou simultaneamente os seus amigos e as representações do outro lado do vácuo - vão ser os primeiros que irei matar com as tuas mãos.
      Com mais intensidade, os fios atacaram a Estrela apertando-o de novo com força suficiente para o deixarem sem ar. As gémeas e Ryan livraram-se dos seus oponentes e começaram a atacar o espírito que tinha construído um escudo à volta dele e Troy tornando os seus ataques inúteis.
     O buraco fechou-se repentinamente e Troy fechou os olhos. A luz dourada que emergia do buraco apagou-se tornando aquele espaço negro de novo.
- Evans...
      O silêncio apoderou-se do espaço, engolindo tudo, mas Saeva via perfeitamente: Troy estava deitado sem mexer um músculo a não ser o coração. O que ele não via era o esforço que ele estava a fazer para conseguir reunir mais uma vez alguma energia. Ele tinha de salvar os seus amigos. Tinha de salvar a luz dele porque sem ela, Troy não iria conseguir encontrar o caminho de volta. Ainda não era o aniversário dele. Ainda havia uma chance. Nada estava decidido.
     Uma luz branca começou a brilhar, dentro dele, como uma chama. Imaginando o buraco a abrir-se, Troy concentrou-se somente naquilo e ignorou toda a dor que sentia pelo corpo todo. A adrenalina começou a fazer o seu papel e Troy não vacilou.
- Vão - disse-lhes e um buraco de dois metros de diâmetro abriu-se no vácuo permitindo a saída dos seus amigos.
     Troy abriu os olhos e viu o rosto marejado de lágrimas de Luna enquanto entrava pelo vácuo a dentro em busca das suas filhas. Logo em seguida viu Sol mas tudo ficou turvo. As vozes misturaram-se todas e de repente viu-se a chorar. Saeva aproximou-se dele, puxando o seu corpo para longe do grupo de pessoas que entrava no vácuo.
- Troy! - ouviu mas não reconheceu a voz nem viu o rosto. - Troy!
       Os fios de Saeva apertaram-lhe de novo como se fossem garras mas já não sentia dor alguma e por isso achou melhor fechar os olhos...
- Evans! - ouviu gritar. - Evans! Acorda!
      Ryan... Abriu os olhos e viu os olhos azuis do melhor amigo muito perto de si. A sua boca mexia mas Troy não ouvia nada.
- Evans, não desistas!
- Ryan, temos de ir! O buraco está a fechar-se!
     Ryan estava a ser puxado por Mercúrio e não conseguia livrar-se da mão dele no seu pulso. Com os olhos fixados no melhor amigo, Ryan estava decidido a não deixá-lo para trás. Saeva já não estava em local nenhum, pelo menos que ele soubesse e no entanto Troy estava a ser puxado por alguma força invisível. A pele dele começou a tingir-se dum tom preto como petróleo chegando até ao rosto dele. Troy parecia-se mais com Saeva a cada segundo que passava.
- Não! Troy - ele esticou o braço de novo e Mercúrio teve de o agarrar com os dois braços.
- Temos de ir! - gritou ele.
     Os olhos de Troy Evans começaram a ficar pretos perdendo o azul esverdeado e antes do seu rosto ficar completamente preto, ao cair-lhe uma lágrima pelo rosto, ele disse:
- Desculpa-me. 

bright petals.