Why? #36



Mondy 

     Onde anda a Luna e Sol? Porque estão a demorar tanto? 
     Mondy estava prestes a explodir. A preocupação, o medo e o stress estavam a atacá-la em peso. 
- Eles disseram que iam almoçar e já passa da hora de jantar. - Pensou alto. - Já deviam cá estar. Nem deviam ter ido. 
     Para tentar acalmar-se, começou a lavar os pratos, a tratar da cozinha e da mesa de jantar. Mondy já tinha reparado nos olhares curiosos de Mercúrio e Plutão, mas não tinha vontade nenhuma de os mandar olhar para o outro lado. Aliás, não tinha vontade de fazer nada. Porém, se não fizesse algo a sua mente iria provavelmente explodir com a quantidade de pensamentos que iam saltando na sua cabeça. 
     Mondy obrigou-se a respirar fundo antes de ter algum problema físico. Suportar a idade com este caos exigia um grande esforço da sua parte. Ainda mais com os treinos com a Luna. Tudo isto deixavam-na exausta mas ela já há muito tempo que tinha aprendido a ser forte. 
     Após tratar tudo na cozinha, Mondy foi surpreendida com um beijo de Mercúrio na sua bochecha. As borboletas na barriga, apesar de ter a idade que tinha, fizeram-se sentir. Ela e Mercúrio não estavam juntos, mas também não estavam separados. Eles eram íntimos, companheiros e confidentes um do outro, mas não amantes. Mondy fez questão de construir essa barreira entre eles assim que a sua velhice realmente se fez notar. Mercúrio era o seu Tal, mas ao olhar dela, ele não merecia alguém tão velho e que mais velho ficaria. 
- O que te preocupa? - A voz dele soou rouca. - Não me digas que é o Sol e a Luna? -
      Mondy olhou-o seriamente, respondendo à sua questão.
- Ouve, eles estão bem. 
- Como tens tanta a certeza? Tema pode ter ido começar a luta neste momento, pode ter aproveitado o facto de não estarmos lá com eles... Um milhão de coisas pode estar a acontecer e a maior parte delas não são coisas boas. 
- Não podes ser tão pessimista, Mon 
- O que me vale ser optimista? - ela virou-se no balcão e fitou-o. Tinha as mãos a agarrar o mármore frio do balcão.
- Um pouco de sossego - respondeu ele, aproximando-se mais um pouco, com o rosto baixo para conseguir fitá-la propriamente. 
- Não. Optimismo só me traz ilusões, Mercúrio. Isso sim. 
     Mercúrio suspirou e passou a mão pelo cabelo.
- Podes ao menos esquecer o assunto até amanhã?
     Mondy virou-lhe as costas e foi preparar chá. Não conseguia dizer-lhe que ia esquecer mas também não queria estar a pensar neste assunto eternamente. 
- Vou preparar chá e depois vou para o alpendre descansar um pouco. Queres que prepare chá para ti também? 
- Hoje não.
     Mercúrio aproximou-se e deu-lhe um beijo na testa macia da sua Tal.
- Por favor, descansa. Boa noite. 
- Boa noite. 
   
     Mondy sentou-se no pequeno banco almofadado do alpendre da entrada a beber o seu chá quente. Apesar da temperatura, chá sabia-lhe sempre bem e acalmava-a. A Lua brilhava mesmo à sua frente, uma Lua carregada de brilho e esplendor. Era quase Outono e a brisa tornava-se fria aos poucos. Mondy parecia não se importar. 
     A sua mente, prestes a desligar num sono merecedor, foi acordada pelo riso maléfico e alto que se apoderou do espaço à sua volta. Soube logo quem era, nunca teve dúvidas, nunca terá. 
- Tema - murmurou.



Mercúrio  



     Depois de ter ido ao encontro de Mondy e a ter deixado sozinha, Mercúrio obrigou-se a ir para o quarto dormir. Talvez se ele estivesse calmo o suficiente, Mondy o sentisse através do pequeno fio de Ligação que ainda os unia. 
     Mercúrio tinha tantas saudades dela e no entanto, Mondy estava mesmo ali, diante dele. Não lhe importava a aparência dela, a idade, os problemas... Nada disso lhe importava. Ele só queria mostrar-lhe o quanto ela ainda precisa dele e que não o devia afastar, mas Mondy não deixava. Ela não lhe queria dar essa oportunidade e então construiu a barreira entre eles. Apesar deste enorme muro, que os separava, já estar construído há mais de 20 anos, como era suposto Mercúrio esquecer a sua Tal? Eles até tiveram uma filha. Quase que tiveram uma vida normal. Bem, quase.  
     Foi nesse momento que a raiva e a tristeza começaram a possuí-lo. Os seus olhos passaram dum vermelho caloroso a um vermelho vivo, cheio de angústia. O fogo dentro de si começou a fulminar e implorava para sair do seu corpo. Mercúrio abriu as suas mãos e sem se aperceber do que estava a fazer criou uma bolo de fogo na sua palma e apontou para a frente, mas então olhou; os olhos dele focaram-se e há sua frente encontrou um retrato dele com a Mondy e a Mel. Pegou nele e sentiu uma angústia enorme no peito. Porque é que vocês se foram... Porquê?  
     Mercúrio deitou-se na cama com o retrato ao seu lado. A facilidade com que o sono o atacou surpreendeu-o, mas aceitou-o de braços abertos.  
     Passado poucos minutos, Mercúrio abriu os olhos mas não estava realmente a ver ou acordado. Na sua mente sucedia um momento que estava realmente a acontecer. Ele não conseguia mexer-se, Mercúrio não sabia que, o que ele estava a ver, estava mesmo a acontecer. Não tinha como saber.

- Tema. 
- Mondy. Que bom ver-te. A noite está realmente linda, não achas? 
- O que queres? 
- Consigo sentir que Sol e Luna não estão cá. Onde foram? 
- Não sei. 
- Ora, não me mintas - Tema aproximou-se. 
- Acredita no que quiseres. De mim, não vais ter nada. 
- Isso é que te enganas. 
     Tema pegou no pescoço de Mondy e levantou-a. Mondy mal conseguia respirar mas não vacilou. Tema largou-a. Mondy tombou no chão ofegante e logo levantou-se.
- Tens que fazer melhor que isso para me calares. 
- Oh, acredita que farei. E sabes que mais? Acho que a tua morte seria algo bem útil a meu ver - sorriu. - Iria por a Luna fraca e se ela está fraca, o Sol também está. E isso seria a perfeita oportunidade para atacar, não concordas? 
- Deveras. Mas o que iria Vénus pensar de ti? Não basta seres um destruidor com sede de vingança também és um assassino? Desculpa - fez uma pausa e fitou-o. - Mas tu é que sabes. Faz o que te convém. 
- Tens razão. Matar-te iria custar-me muito. Mas isso não significa que eu não possa ferir-te. 
     Tema esticou a mão e nela formaram-se pequenas esferas de gelo que foram lançadas em direção a Mondy. Ela não conseguiu evitar o ataque, não conseguiu usar os seus poderes para ficar em segurança e as esferas acertaram-lhe no peito, na barriga e na cabeça, deixando-a caída no chão inconsciente. 

     Mercúrio finalmente acordou ofegante e se apercebeu do que viu. 
- Mondy... - sussurrou - Mondy!
     Mercúrio levantou-se da cama num ápice e começou a correr até ao alpendre - a berrar pela sua Tal. Tinha uma fúria enorme dentro de si. 
     Mercúrio abriu a porta da frente e ela estava realmente lá. Respirava com dificuldade, tinha os olhos fechados e estava deitada no chão frio, banhada pela luz da Lua. 
Mercúrio agarrou na sua Tal, colocou a cabeça dela no seu antebraço e com cuidado tirou os cabelos soltos do rosto dela.
- Mondy, por favor acorda. Mondy! - suplicou.
     Ela não acordava. Mondy parecia morta e Mercúrio nunca presenciou tanta agonia. 
- Mondy, acorda, vá lá - pediu ele, a colocar a mão no rosto dela. - Acorda... 



Tema



- Tu o quê? - Vénus soou chateada e incrédula. - Não acredito que magoaste a Mondy, Tema! Como foste capaz? Estás doido? Porque é que ainda pensaste numa coisa dessas? 
     Tema parecia não ter resposta e Vénus ficava cada vez mais impaciente. 
- Vénus, desculpa, eu... 
- Tu o quê, Tema?! Explica-me! Força!
- Vénus, eu reagi. Ela estava a provocar-me e eu... Eu não consegui controlar-me. 
     Vénus passou a mão pelo cabelo ruivo e desviou o olhar do dele. Respirou fundo e disse: 
- Eu vou ter com a Mondy. E se tiveres a lata de aparecer por lá, as coisas não vão acabar bem. 
- Não vás, por favor - Tema agarrou na sua mão.      Vénus imediatamente tirou a sua da dele. 
- O que fizeste foi horrível... - Vénus abanou a cabeça, ainda incrédula. - Nem sei como arranjaste coragem para isso. Depois deste tempo todo, Tema? Eu não entendo... Porquê? - fez uma curta pausa, à espera da explicação dele. - Não. Não respondas. Eu não quero ouvir.
- Mas...
- Mas nada - respirou fundo e piscou os olhos muito rápido.
      Tema quase que a viu chorar, e a culpa era dele.
- Vou ter com a Mondy. Adeus, Tema. 
     Ele se apercebeu que ultrapassou um limite.  
- Desculpa... Eu estou... - e antes de poder dizer que lamentava, Vénus desapareceu numa luz branca deixando-o completamente sozinho. - ... arrependido. 

The Garden #35



Luna 



- Sol, isto é lindo! - exclamei sem fôlego algum. 
- Ainda bem que gostas porque vamos passar aqui o dia. 
- Podíamos passar é a vida toda! 
- Depois da confusão passar, quem sabe?
     Sol agarrou-me pela cintura e deu-me um beijo na bochecha. 
- Se a confusão passar, não é? 
- Não penses dessa forma. 
- Não posso evitar, Sol. 
- Evita por hoje, pode ser? 
     Assenti. Sol colocou a mão livre no meu rosto e deu-me um beijo na testa. 
- Vá, vamos encontrar um lugar parar irmos almoçar. 
- Estou esfomeada! 
     A cada passo que dava, o local onde estávamos surpreendia-me mais. Um gigantesco jardim com árvores de copas enormes, flores de todas as cores, e arbustos tão verdes e saudáveis. O ar que este lugar emanava fazia-me sentir calma e até poderosa. Sentia-me completamente sã e serena. Os raios de Sol passavam por entre as ramagens das árvores formando sombras deslumbrantes e acolhedoras. Este lugar para além de emanar paz e calma, emanava também poder. 
- Que lugar é este, Sol? 
- Já sentiste, não já, o poder?
     Assenti.
- Bem, este é o jardim onde Terra pratica, praticava, não sei bem, magia. 
- Terra? Terra, Planeta, forma humana, essa Terra? 
- Sim, Luna, essa Terra - soltou um sorriso. 
- E nós podemos entrar nele, assim do nada? 
- Desde que, antes de entrarmos, prometa-mos que não iremos fazer mal ao local. Isto é praticamente um lugar sagrado. 
- Uau.
     Fiquei sem palavras.  
- Anda, temos de andar mais um pouquinho. 
     Sol e eu caminhámos mais para a frente e deparámos-nos com um lago azul esverdeado. A Luz e o Ar combinavam-se numa harmonia perfeita e eu não podia estar mais deslumbrada. 
- Vamos ficar aqui, não é? 
- Vamos andar um pouco mais até encontrarmos umas mesas. 
- Já vieste aqui muitas vezes? - Fiz uma pausa e acrescentei - Com outras mulheres? 
     Sol olhou-me divertido, como se a pergunta fosse uma piada. Porém, respondeu-me com um tom sério. 
- Já vim aqui várias vezes, sim. Mas é a primeira que venho acompanhado, Luna. 
      Franzi o sobreolho. Sol riu-se. 
- Estás a rir do quê? 
- De ti, tonta. Achas mesmo que iria trazer qualquer mulher para este sítio? 
- Não... Mas...
- Nem mas, nem meio mas. 
     Fiz questão de largar o assunto nesse momento, revirei os olhos e sorri - Podemos ir comer? 
- Estamos quase lá. 
     Continuámos a caminhar e fomos para o lado direito do lago, onde encontrámos as tais mesas para pousar a nossa mala cheia de comida e roupa. Presumi que depois de comermos fossemos nadar. Não consegui evitar estar um pouco receosa e nervosa. Não sou a melhor nadadora do mundo. E se me afogasse? Só o pensamento deixava-me agitada. 
- Passa-se algo? 
- Não, nada. Só tenho fome - menti. 
- Deixa de te preocupar. Eu estou aqui - tocou-me no ombro. 
- Eu sei - movi-me consoante o seu toque - obrigada. 
- Se quiseres podes ir dar uma volta enquanto preparo o almoço. 
- Está bem.  
     Fiz o que ele sugeriu e fui andar pelo lago. Apesar do medo que sentia em entrar nele, não podia negar que era magnífico. Cresciam flores por toda a parte, o que tornava o local colorido e perfumado. Existiam árvores altíssimas e no lado onde estávamos, elas cercavam-nos. Os raios brilhavam intensamente. Consegui aperceber-me de que no jardim existiam vários pássaros e alguns esquilos. Se calhar devia ter trazido o Percy. Estar fechado em casa o tempo todo deve ser aborrecido, mas também, ele está com o meu pai. E a pensar bem no assunto, ele é ainda muito pequeno. 
     Por falar nele... será que o pai e a mãe já cá vieram? Isto parece ser o Resort Para Casais e não um local sagrado para praticar magia da Terra. 
     Terra... Será que ela aparecerá por cá? Será que a irei ver? 
     Bem, se a visse aposto que ela me iria dizer para derrotar o Tema, porque se não, estamos todos em apuros. Mais ainda.
     Tenho mesmo de esquecer o Tema e o caos que ele trouxe por algum tempo.
     Uma parte de mim tinha medo pela Vénus. Como será amar algo que pode não ter potencial algum para o bem? Tudo o que é bom tem algo mau dentro de si e vice-versa. Mas será que ela consegue chegar ao lado bom dele? Será que ele se vai deixar ir pelo que sente por ela? Que a Lua queira que sim porque se não estamos todos tramados. 
- Luna, o almoço está pronto! 
- Vou já! 
     Obriguei-me a esquecer Tema e o caos por este dia. Sol, depois de ter preparado isto tudo, não merecia que a minha cabeça estivesse cheia de preocupação. Neste dia, era só eu e ele.  





- Pronta para ir para a água? - perguntou Sol enquanto tapava a luz solar que bronzeava o meu corpo. 
- Hum - mordi o lábio - tem mesmo de ser? 
- Tem pois. 
     Estiquei-lhe a mão e ele agarrou-a, levantando-me e puxando-me para si.  
- Não te preocupes, eu não te deixo ir. -
     Sorri, pouco convencida e nervosa.
- Vai correr tudo bem, anda lá.  
- Sabes que ficas super jeitoso nesses calções? 
- Eu fico jeitoso de todas as maneiras - respondeu-me ao entrelaçar os seus dedos nos meus. 
     Mais obrigada do que por vontade própria, caminhei para água fria junto com Sol. Arrepiei-me. A água estava gelada e a cada passo que dava, mais medo tinha. Sol largou a minha mão e avançou mais no lago.
- Sol, onde vais? 
- Continua, Luna. Até onde estou, consegues sentir o chão. 
- Mas Sol...
- Continua. Anda lá. 
     Fiz o que ele dizia e continuei. Tinha a sensação de que Sol, a cada passo que dava, se afastava mais, mas a verdade era que, aos poucos, ia perdendo o medo e não me importava de ter a água a envolver-me. 
     A água já estava até ao meu peito e o facto de poder ir até ao meu pescoço aterrorizava-me. 
- Se não quiseres ir mais longe, ficamos aqui. 
- Sim, por favor.
    Sorri-lhe ainda nervosa. 
- Mas com uma condição. 
- Então? 
     Sol olhou para mim com ar de malandro e percebi logo que ele iria molhar-me toda. 
     Ele começou a aproximar-se de mim e a atirar água. Comecei a fugir a rir-me.
- Sol, não!  
- Sabes que não me consegues escapar. 
- Tentar não custa, sabes? 
     Sol perseguiu-me até eu não ter mais força para correr. Agarrou-me pela cintura e levantou-me, tirando os pés da água. Começámos a atirar água um para o outro até estarmos totalmente encharcados. 
     Quando me preparei para dar o meu último ataque antes de me render, a água ganhou vida. Ao mexer os braços, grossos fios de água voaram em direção a Sol, atacando-o realmente. 
- Oh não... Sol, estás bem?
     Aproximei-me dele e tentei ver como ele estava.
     Sol colocou a mão na cabeça e levantou-a.
- Hum, acho que sim... Como fizeste isso, Luna? 
- Não sei. 
- Sabes o que isso significa, certo? 
- O quê? 
- Que tens afinidade com a Água.  
Não consegui evitar a minha expressão de choque. Eu tenho afinidade com os três elementos da Lua? Como é que isso é possível? Ar, Luz e agora Água... Como? 
- Isto é... 
- Isto é fantástico, Luna!
     Sol abraçou-me, com um sorriso gigantesco nos seus doces lábios. Retribui-lhe o abraço, com um sorriso incrédulo no rosto, e na minha mente agradeci à Lua por me ter dado outra maneira de ajudar o meu Tal e o Universo. 

bright petals.