Underneath #7

     Uma luz brilhante cegou os seus olhos. Ao focá-los para a paisagem à sua frente, Troy encontrou o mar. Estava completamente flat. Os seus dedos acariciaram a areia molhada e um riso ecoou vindo em direção a ele. Ele podia esquecer-se de tudo mil e um vezes que aquele riso iria permanecer na sua mente para sempre; o riso que o fazia sorrir e lhe dava energia. O riso de Catarina. 
     Vestida no habitual biquini preto, Catarina correu para ele e estendeu-lhe a mão com um sorriso estampado no rosto. Os seus olhos castanhos brilhavam com a luz solar a incidir neles. As sardas sobressaíam-se mais que o costume. 
- Anda, Troy! - estendeu-lhe a mão.
     Troy agarrou na mão sem pensar duas vezes. Um sorriso abriu-se-lhe nos seus lábios. Agora, iam os dois a correr para o mar. Ele agarrou a cintura dela e rodopiou-a na água marinha. Eles riram e beijaram-se como se nada no resto do mundo existisse. Mas, de súbito, tudo se tornou negro. Catarina foi engolida por uma Escuridão imensa e Troy levado pela corrente, afogando-se e caindo nas profundezas do oceano...
     Troy acordou. Tinha tudo passado de um mero sonho. Um sonho. 
     Ele suspirou. Os seus olhos estavam atordoados e a luz naquele lugar era cada vez mais fraca. O ar mais frio. A Escuridão mais poderosa. Troy mais desesperado. 
- Saeva - chamou. Os seus olhos pesavam-lhe. - Saeva! 
- Ora, ora... O que se passa pequeno, Alexander? 
     O fantasma opaco apareceu diante de si. Naquela luz só era reconhecível os olhos, agora cinzentos. Troy perguntou-se como seria o rosto daquela criatura, mas sabia que nunca queria descobri-lo. 
- Tira-me daqui. O que quer que seja que queiras, eu dou-te. Apenas... Tira-me daqui - Troy passou a mão pela cara gelada antes de olhar nos olhos da criatura. 
- Já que pediste tão educadamente, a minha resposta é definitivamente não. Mas, boa tentativa. Deveras. 
     Saeva surpreendeu-se quando reparou no sorriso na cara de Troy. 
- Divirto-te, Tema? 
- Deveras.
     Saeva sorriu.
- Seja o que for que queiras de mim, tu nunca o vais ter. Desperdiçaste a tua oportunidade. 
- Assim o julgas. Oh, achas mesmo que consegues manter-te longe da Escuridão? - Troy não respondeu dando Saeva a chance de continuar. - Tu nunca irás ver-te livre de mim, Tema. Escuta bem o que te digo - os olhos do fantasma agora estava a poucos centímetros longe de Troy - Nunca! 
     O espaço à volta deles tremeu sendo Troy o único dos dois que ficara agitado. O sorriso maléfico de Saeva voltara no segundo seguinte e os seus olhos estavam pretos. Mesmo com a luz a incidir no rosto dele, Troy ainda só conseguia ver os seus olhos sinistros e o sorriso nojento de Saeva. O seu rosto parecia a milhas de distância, um nevoeiro negro com dois olhos e uma boca.  
     Saeva colocou um manto, que ao ser posto parecia fazer parte do seu corpo, posicionou o capuz no cimo da cabeça e antes de desaparecer declarou: 
- Ela fica, realmente, belíssima naquele biquini preto.
- O que... - Troy então lembrou-se do seu sonho. Uma raiva enorme apoderou-se dele. Troy deixou entrar parte da Escuridão dentro de si, da sua alma e sentiu a sua dor a ampliar. - Não lhe voltes a tocar, Saeva! - O monstro desapareceu deixando-o miserável no vazio - SAEVA!


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     As gémeas caminhavam para a sala das artes quando Ryan se meteu no caminho delas. Melody nem lhe dirigiu o olhar e a palavra. Violet durante a pequena conversa sorriu desajeitadamente sem saber o que fazer para melhorar a relação dos dois. Depois daquele almoço, Violet pensou que Melody iria simplesmente ignorar Ryan, talvez dizer-lhe bom dia mas manter a distância. No entanto, quando Melody lhe contou o que se passara em Crystal Riders soube que se iriam portar como o Tom e o Jerry. Nada poderia ser remediado sem o querer dos dois.  
     O toque para a última hora de aulas soou.
- Bem, nós temos de ir - Violet disse.
- Vejo-te mais tarde? - Ryan dirigiu-se para Violet, mas ambas lhe responderam ao mesmo tempo.
- Infelizmente.
- Sim.
      Violet sorriu arrastando Melody para a sala das artes.
- Até depois, Ryan!
     Quando finalmente se encontravam suficientemente longe de Ryan, Violet lançou-lhe o olhar.
- O que foi? - perguntou Melody.
- Vocês os dois são terríveis.
- Ele é terrível.
- Tanto ódio que acabará em amor.
- Não digas isso, credo - Melody bateu em madeira.
- Já não está cá quem falou - a gémea levantou as mãos e sorriu.
     Poucos minutos depois apareceu Troy e Catarina. Violet reparou neles os dois. À primeira vista estava tudo bem. Mas então ela reparou mesmo neles, especificamente em Troy. Depois de beijar a Catarina os seus olhos tornaram-se completamente negros e quando tornou a piscar, o azul da sua íris voltara. Foi apenas por uma fracção de segundo, talvez um relance... Violet massajou as pálpebras. Talvez estivesse com os olhos cansados. Já estava a olhar para a mesma coisa por várias horas, talvez fosse da luz. Mas ainda assim ela não conseguia abanar a sensação de que algo estava errado, fosse com ela ou fosse com Troy.
     Assim que deu o toque, Violet arrumou as suas coisas e ficou, como sempre, à espera da Melody. Ela nunca lava os pincéis com rapidez ou arruma a tela no local adequado apesar de ser super organizada. Troy, juntamente com Ryan, vieram buscar Catarina. Violet aproveitou para observar o rapaz loiro e Melody sentou-se ao lado dela a secar as mãos a fazer o mesmo só que com Ryan.
- Estes dois são estranhos - Melody comentou.
- Muito.
     Troy sorriu e ao piscar, os seus olhos tornaram-se a ficar da cor da noite e rapidamente mudaram para o tom original. Mas que raio?, pensou Violet. Ela estava tão concentrada à procura de sinais que ele era realmente estranho que nem se deu conta que Troy lhe dirigia o olhar. Um olhar estranho, confuso... Sinistro. Ela então sentiu o ar ficar mais gélido ao ponto de ficar com pele de galinha. Ela olhou para o braço da sua gémea e este estava normal. Melody até suspirou murmurando que tinha calor. Um raio de sol atravessou as janelas e Violet deixou de ver Troy passando a ver um ser opaco negro. Mais um vez, foi apenas por uma fracção de segundo. Até que ela realmente percebeu o que se passava.
- Mel... - Violet agarrou no antebraço da sua gémea com tanta força que ela ficou com a marca.
- Vi, o que foi? - murmurou a irmã.
- Troy, preciso de falar contigo! - Violet gritou.
     O trio virou-se para ela surpreendido. Melody ainda tentava largar-se da mão da sua irmã. Catarina e Troy avançaram até às gémeas e Ryan ficou junto ao lavatório.
- Olá - disse, sorrindo. O seu tom de voz soava tão normal.
- Olá - disse Violet numa espécie de suspiro. -  Vocês não querem ir lanchar em nossa casa?
- Hoje? - Melody perguntou-lhe, mais alto do que devia.
- Sim, Mel, hoje. Então, o que acham?
- Por mim tudo bem - respondeu Catarina. Ela olhou para o seu namorado à espera que ele respondesse sim também. Ele concordou.
- Vamos lá então.
      Violet acabou por convidar Ryan mas ele respondeu que tinha de tratar de assuntos em Crystal Riders. «Fica para a próxima» disse ele, a sorrir.
     Melody ficou a par dos pensamentos da sua irmã quando o trio saiu da sala de artes e as deixou sozinhas por alguns minutos. Por um lado, ela achou que Violet estava a perder a cabeça e que se calhar estava a exagerar um pouco mas talvez fosse isso. Talvez ele era realmente um esquisito. Um monstro.
     Saeva tinha aberto a janela para Troy. Por muito que achasse estranho ver a Violet tão certa de que tinha visto um monstro e não se ter assustado como ele pensava, a esperança em Troy crescia a cada segundo e Saeva nem conseguiu prever o que lhe ia acontecer. 

bright petals.