Underneath #5

     O relógio acabara de marcar as seis e todo o pessoal de Crystal Riders parecia já estar despachado para ir a caminho de casa. Melody viu-se encurralada entre a espada e a parede e tentava o mais possível fazer tempo. Ela encarregou-se de tratar de Ace e fez questão de demorar o processo. Benjamin de vez em quando apercebia-se que ela estava stressada e até lhe perguntou se havia algum problema. Além disso, ele insistiu bastante em ser ele a tratar do cavalo. Melody, desajeitadamente, recusou sempre. No entanto, quando pensava que a situação não podia ser pior, ela foi presenciada pela pessoa que menos queria ver em qualquer momento e em qualquer circunstância. 
- O que estás a aqui a fazer? 
     Melody levantou o olhar do chão para os seus olhos frios.
- Podia perguntar-te o mesmo. 
- É Melody, certo? - ela assentiu, irritada. -  Ouve lá, Melody - ele apontou-lhe o dedo - eu espero que não me estejas a seguir.
- O quê!? 
- Foi isso que ouviste. 
- Quem julgas que és? Pensas que não devo ter mais nada que fazer que seguir-te, não? - Melody aproximara-se dele e agora estavam a uns centímetros um do outro. A diferença de alturas agora era muito visível. Melody adicionou a sua altura à lista de coisas que odeia no rapaz parado à sua frente. - Deves achar-te muito importante, não? - adicionou. 
     Ele sorriu. Um sorriso sem humor. Ele abriu a boca para dizer-lhe algo, porém, Benjamin interrompeu-os.  
- Está tudo bem? 
     Sem desviar o olhar da rapariga, Ryan respondeu: 
- Sim, Ben. Está tudo - Melody tirou o olhar do dele. - Hum, podes dizer-me o que ela faz aqui? - perguntou ao colocar dois dedos na cana do nariz como que cansado de a ver.
- Não te lembras? Eu disse ao teu pai que vinha uma nova cavaleira para cá - Benjamin relembrou-lhe. 
- Porque é que contaste ao pai dele tal coisa?  
- O meu pai - Ryan fitou-a de novo - é o dono disto.  
     O quê?!, Melody pensou. Ela não conseguia acreditar que o pai dele fosse dono deste lugar. A associação era completamente impossível. Não podia ser... E isto significava que ele iria estar aqui, para irritá-la, chateá-la. Não. Este é o lugar de paz dela. Não é suposto ele estar aqui a estragar-lhe as únicas horas dedicadas a si mesma. Rapidamente a sua irritação foi substituída por amargura e um pouco de tristeza. 
- Não... - ela murmurou baixinho. 
     Nenhum dos dois pareceu ouvi-la porque Benjamin continuou a conversa e o assunto que ele trouxe a chateou ainda mais. 
- Então, Ryan, pensas em continuar a montar? 
- Sim, espero que o Danger ainda se lembre de mim - Ryan sorriu.
     Melody não podia ter ficado mais irritada. Como podia ele estar a sorrir quando planeava estragar-lhe a vida por andar também a cavalo? Ela respirou fundo e ignorou a conversa entre os dois. Deixou cair a forquilha que estava encostada à boxe e esta tombou mesmo no meio entre Benjamin e Ryan, interrompendo-lhes a conversa.
- Desculpem, distrai-me - disse a sorrir timidamente a Benjamin e a lançar um olhar irritado para Ryan. 


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     Quando Troy saiu do consultório, após ouvir um outra lição de vida do médico e da mãe à saída, o sol sorriu-lhe como se fosse meio dia. Ele perdera uma hora a mais no consultório e o médico não lhe soube dar resposta nenhuma sobre o que se passava com ele. O seu telemóvel vibrava com a chegada de mensagens de Catarina. Troy suspirou. Já ia ouvir outro sermão. Catarina detesta quando ele chega atrasado.
     Troy, assim que Charlotte estacionou em frente ao bar, despediu-se dando-lhe um beijo na bochecha e saiu do carro a caminho do local de encontro. Ele estava tão habituado ao caminho que pelo escuro se conseguiria guiar. O final da tarde estava a raiar por entre nuvens brancas, o mar estava liso, e o cheiro a fresco e a sal reinava no ar. Depois de percorrer o caminho arenoso, Troy deu com a entrada a uma pequena gruta que se encontrava escondida, pelas árvores e plantas e os grandes arbustos, do final da praia. O ambiente negro da gruta já não o assustava desde que era um miúdo de 7 anos e o cheiro a água na rocha sabia-lhe muito bem. Depois de passar pelo curto corredor escuro, uma imensidão de luz quase o cegou. Troy seguiu em frente pisando a areia molhada de encontro a Catarina. Ela estava sentada em cima da toalha lilás, que ficava sempre escondida num canto, por baixo duma grande rocha curva que dava sombra.
- Troy - chamou assim que o viu.
     Ele interrompeu-a.
- Eu sei, eu sei. Fiquei retido no médico. Levei mais lições de vida hoje do que em toda a minha vida - explicou-lhe, colocando a mala no fundo da toalha e a por o braço por cima dos seus ombros. - Mas já estou aqui.
- Pois, mas vou ter ir embora daqui a pouco.
- Então vamos aproveitar ao máximo - ele inclinou-se um pouco mais e beijou-a.
     A principio, Catarina beijou-o de volta e colocou a sua mão não apoiante por baixo do seu queixo. Mas então ela sorriu e começou a chamá-lo:
 - Troy...
- Hum?
- Acho que temos companhia - sussurrou.
     Automaticamente, Troy virou a sua atenção para onde o olhar de Catarina estava dirigido. Ele estava à espera que fosse o Ryan ou até um dos seus pais. Só a ideia de um dos seus pais saber o esconderijo deles aterrorizava-o. Mas felizmente era só o Jasper, o cattle dog australiano que passeava as ruas de Crystal Waters e adorava seguir as pessoas.
- Só sabes estragar os momentos, não é, Jasper? - perguntou-lhe Troy ao que foi respondido por um latido.
- É um sinal a dizer que devia ir embora - Catarina colocou a mala no ombro e levantou-se com cuidado por causa da saia.
- Não vás - Troy agarrou-lhe na mão.
- Hoje tem de ser.
     Ele fitou os olhos castanhos dela, agora cor de avelã por causa do sol.
- Se tem de ser - murmurou.
     Troy levantou-se e deu-lhe um beijo rápido antes de arrumar a toalha.
     Ao chegarem ao bar, Catarina seguiu o caminho para casa de bicicleta e Troy ficou a segui-la com o olhar até a sua silhueta desaparecer na esquina. Jasper ficara ao seu lado, acompanhado-o até à entrada do bar. O dia ainda estava bom e apesar das preocupações da mãe, Troy deixou a mala no bar e fez uma sandes para comer durante o passeio de bicicleta. Jasper correu atrás dele como se fosse a última coisa que fazia na vida. O rapaz começou a ir por caminhos conhecidos só por ele e agora por Jasper, e decidiu parar para recuperar o fôlego. Ele estava a sentir-se demasiado tonto para uma corrida de bicicleta e no fundo da sua mente, ele sabia o que realmente se passava. Troy estava prestes a desmaiar. O cão começou a ladrar imenso, mas como eles estavam em caminhos desconhecidos, ninguém os ouvia. Jasper não quis sair do lado de Troy. E este estava tão tonto. Não conseguia ver bem. Nem respirar.
- Jas... Jasper, pára - murmurou muito baixinho levantando a mão para acariciar o cão, em vão. - Jasper... Vai... - pausou e engoliu em seco - Procurar... Catarina - as palavras saíram da sua boca com dificuldade e depois de pronunciadas, Troy desmaiou.


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     A sua mente parecia um computador a iniciar e ele sentia cada ficheiro a ser encontrado e colocado no devido lugar. Abriu os olhos. O sol estava a pôr-se. Antes de processar a paisagem à sua frente, ele só via tons de laranja a atravessarem as folhas como setas. Jasper ao ver Troy acordado levantou a cabeça do seu peito e lambeu-lhe o rosto. Troy deu-lhe umas festas e sentou-se. As costas doíam-lhe por ter caído no chão arenoso com pequeninas pedras. A princípio, sentiu-se bem. Não lhe doía nada de extraordinário. Mas isso não durou. O coração de Troy começou a ser atingido por flechas invisíveis que traziam com elas Escuridão. A dor era excruciante. Ele gritou. Jasper mais uma vez começou a ladrar. Com a mão no peito, Troy ficou de joelhos a gritar. Ele conseguia sentir o veneno podre e espesso a espalhar-se pelas suas veias. O veneno apoderou-se dele tão facilmente que ele perguntou-se se seria realmente tão bom quanto pensava. Uma vez no domínio da Escuridão, a sua alma fora colocada num vazio dentro da sua própria mente, agora mente do habitante do seu corpo, a Escuridão. Negra, suja e repugnante escuridão.
     Troy, preso na sua própria cabeça, gritou. 

bright petals.