Underneath #16

     Troy parou em casa para guardar as compras. Pedalou em seguida, com os raios de Sol a desaparecerem à medida que avançava, para a casa das gémeas. Não se importou com o facto de poder encontrar-se com Mercúrio. Era um risco que tinha de correr. Precisava de vê-las. Bateu à porta. As luzes do quarto delas estava desligada. Viu o hall iluminar-se pelo vitral da porta. Reconheceu a figura pequena que lhe abriu a porta - Violet. 
- O que estás aqui a fazer? 
- Preciso mesmo de falar com vocês. Podes sair? 
- Posso, mas não por muito. O que se passa? - disse serenamente, numa tentativa de acalmá-lo. 
- Urano veio ter comigo. 
- O quê!? - disse num guincho. Clareou a garganta e recostou a porta devagar. Os corpos deles ficaram quase colados um no outro. Violet reteve a respiração e fitou-o. Ambos coraram e Troy afastou-se colocando a mão no pescoço e desviando o olhar. 
- Podes ir chamar a Melody? - perguntou, a fitar a Lua baixa. 
- Claro. Já volto. 
     Violet entrou em casa. Troy respirou fundo e passou as mãos pela cara subindo para a cabeça. Porque é que corou e ficou tão nervoso de repente? Deu leves palmadinhas na cara e começou a andar pelo alpendre da frente. Por fim, recostou-se a uma das colunas de madeira junto dos degraus da entrada. A Lua começava a fazer o seu caminho até ao cimo do céu, iluminando tudo de prateado. Aquela luz calma conseguiu pacificar os seus pensamentos. E por momentos esqueceu-se de que a sua vida se tinha tornado num livro de fantasia.
     Ele sentiu alguém puxar-lhe a camisola por trás e virou-se. Era Melody. Tinha o cabelo solto, que lhe caia até ao final das costas como ondas, e um ar sonolento. 
- Espero que tenhas um bom motivo para me acordares. 
- Olá para ti também. Como estás? - Ela encolheu os ombros. Os olhos dela fitaram-no. 
- Vamos não falar de mim, está bem? 
- Está bem. 
- Então, o que se passa, afinal? - inquiriu Violet, olhando para ele desajeitadamente.
- Urano veio ter comigo. 
- Como assim Urano foi ter contigo? Urano, o Planeta? - Troy assentiu. - E ele disse-te o quê? 
- Que os Planetas querem-me morto. 
- Isso nós já sabíamos. E que mais? 
- "Já sabíamos"? - ele repetiu as palavras, confuso. 
- Sim. Tu és a reencarnação do principal inimigo da galáxia. Óbvio que vão querer-te morto, génio - respondeu, Melody. 
- Passando à frente, Urano disse-me que eles ainda não sabem que o Tema reencarnou e que devia, o mais depressa possível, voltar para a minha galáxia. 
- Estás a ponderar ir? - inquiriu Violet, saindo das sombras. 
- Não sei. Sinceramente, tenho algum medo de lá ir. 
- Porquê? 
- Por causa do Saeva. Ele pode ficar mais forte na galáxia do Tema do que aqui e, se formos ver a data, os meus anos estão cada vez mais perto. Mais, eu não sei o que pode acontecer se vir os Planetas do Tema. Ou se sequer consigo lá entrar. 
- Espera, o que tem o teu aniversário? - perguntou Melody.
- No meu décimo aniversário, Noir, um dos Planetas da galáxia do Tema apareceu e disse aos meus pais que deviam entregar-me a ele. Como eles não o fizeram, Noir disse que na altura do meu décimo sétimo aniversário a Escuridão iria apoderar-se de mim e que eu nada poderia fazer contra isso. 
- E tu fazes anos quando? - disse Violet. 
- Sete de junho - Troy aguentou a respiração enquanto via os olhares da gémeas passarem de expectantes para completamente chocadas. 
- Nem um mês até lá - murmurou Violet. - O que vamos fazer? 
- Temos que ir à tua galáxia. 
- Melody, não digas disparates - disse ele. 
- Não é disparate nenhum! É lá, e apenas lá, que vamos encontrar uma maneira de parar isto tudo. 
- E como lá chegamos? 
- Não sei. Pensa. Procura os teus poderes. Faz meditação se for preciso. 
- Nós não podemos simplesmente deixar tudo e ir, Mel - replicou a irmã. 
- Talvez devêssemos falar com os teus pais... Talvez eles... 
- Não - interrompeu-lhe Melody. - Eles não seriam de grande ajuda. 
- A mãe sabe algo. Vi-a a ter uma visão e depois ficou de rastos. 
- Ótimo, mais caos - Troy ironizou. - Ouçam, ir à minha galáxia agora é impossível - disse. Ele viu pelo canto do olho o hall da sala iluminar-se. Endireitou-se. - Temos companhia. 
     Sol abriu a porta de entrada. Colocou a mão nos bolsos e lançou-lhe um olhar. A t-shirt preta fazia-o parecer uma enorme sombra com brilhantes olhos cor de âmbar. 
- Troy. Tudo bem? 
- Sempre. 
- Nós vamos, agora. Amanhã falamos - disse-lhe Melody. 
- As melhoras - replicou-lhe Troy. Ela sorriu de fininho. 
- Até amanhã. 
- Até amanhã, Violet - desceu os breves degraus e acenou-lhes.
   
     
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     Luna sentou-se no parapeito da janela do quarto a observar a Lua depois de jantar. Quando se sentou na mesa e viu a sua família afastada por causa de Tema deu-lhe um aperto no coração. As suas filhas estavam lentamente a nadar para junto da reencarnação dele, afastando-se dela. Ela escondia-lhes demasiado, mas é para o bem delas. Só pensava nisso: no bem das suas meninas. Uma vez pensou que não podia amar tanto alguém como amava Sol, mas quando olhou pela primeira vez para os rostos das suas filhas, o amor por elas transbordava. E agora, mesmo que não quisessem, elas estavam a escolher o lado dele e isso magoava-a imenso. 
- Pára, Luna - sussurrou-lhe Sol, beijando-lhe a cabeça. - Não penses assim. - Pegou-lhe a mão e sentou-se à frente dela no parapeito. 
- Como? É a verdade. 
- Não é, não, e tu sabes. Elas podem estar a ajudar o rapaz, mas não o vão escolher. Nunca. 
- Como podes ter tanta a certeza? Tudo o que fazemos é esconder-lhes a verdade. Elas nem sequer sabem o que aconteceu ao meu pai, Sol. 
- Elas vão saber de tudo. 
- Pode ser tarde de mais - fitou-o. 
- Não será. Eu prometo-te - Sol beijou-lhe a mão. 
- O que vamos fazer? 
- Eu não sei. Não sei - respondeu-lhe enquanto encostava o corpo dela contra o seu. Deitou a cabeça na dela. - Nós vamos arranjar uma maneira. 
- Ajuda-me, eu... Eu não quero perdê-las para ele... 
     Sol puxou o rosto dela para o seu e beijou-a.
- Não voltes a dizer isso, por favor. Tu não as vais perder, está bem? Nunca o irei permitir - abraçou-a. Ela tinha os pensamentos numa confusão e os sentimentos ao rubro - Luna, o que se passa? 
- Eu vi-as a entrar na galáxia dele. Fugiram de nós. 
- Luna - murmurou. Ela deixou-se cair nos braços dele. 
- Não me largues. Fica, por hoje - pediu-lhe.  
- Anda - puxou-lhe a mão, levando-a para a cama. 
     Luna deitou-se e aninhou-se a Sol. O seu calor fazia-a sentir protegida e segura. Porém, a sua mente continuava uma confusão e era impossível não pensar que ia perder as suas filhas. Por muito que tentasse, acabava sempre por vê-las na mercê daquele homem, agora rapaz. Ela levantou-se. 
- Onde vais? 
- Já volto. 
     Bateu à porta do quarto delas. 
- Estão acordadas?
- Sim, mãe, entra. 
- Vão dormir já? 
- Sim, porquê? 
- Nesse caso, podiam vir dormir comigo e com o vosso pai? - Elas entre-olharam-se. - Andem lá. 
- Está bem, mas... 
- Tens a certeza que ainda cabemos os quatro na cama? 


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     Violet e Melody adormeceram entre os pais. Luna passou quase a noite toda a dar mimos às meninas e ia adormecendo sentada se não fosse por Sol, que a acordou com um beijo e a fez deitar-se. Naquele momento, não houve pensamentos como os dantes. Só conseguia ver o seu marido ao lado dela e as suas filhas a dormirem pacificamente junto dela. Na sua segurança. Agora dorme, sussurrou-lhe ele na sua cabeça. Amo-te, disse Sol. Amo-te mais. E assim ela adormeceu.  


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     Benjamin estava a falar com Bianca quando Melody entrou na coudelaria. Ele sorriu-lhe, iluminando os seus olhos negros. Melody sorriu-lhe de volta. 
- Andaste desaparecida - disse ele. 
- Sim, desculpa. Não ando a dormir bem e ontem decidi fazer uma sesta bem grande. 
- Está tudo bem? - perguntou-lhe, preocupado. 
- Sim, hoje já estou melhor. Obrigada. Olá Bianca - disse. 
- Oi - replicou secamente.
     Surgiu um curto silêncio constrangedor.
- Vamos ver o Ace? - sugeriu Benjamin a cortar o mau ambiente causado por Bianca. 
- Claro. 
     Quando eles já estavam fora do alcance da Bianca, Melody não evitou a sua curiosidade.
- Qual é o problema dela? 
- De quem? Da Bianca? 
- Sim. 
- Não sei. Acho que embirrou contigo porque o Ryan embirra contigo. 
- O quê? Como assim? 
- Ela sempre teve qualquer coisa pelo Ryan. Está escrito na sua testa para todos verem e sempre procurou a atenção dele. Na altura eles os dois eram miúdos, e ele não queria saber de mais ninguém sem ser os seus amigos. Sabes que ele e o Troy são muito amigos, não sabes? - Melody assentiu. - Ele mal passava os dias aqui. Estava sempre com ele e com a Catarina. Eram o trio inseparável. E a Bianca sempre teve inveja da Catarina - Benjamin encolheu os ombros. - E de repente tu chegas, e mesmo que seja uma má atenção, ela tem ciúmes. 
- Isso é doentio. Quem me dera ser a Bianca e não receber nenhuma atenção dele. 
- O que há entre vocês os dois? 
- Bem, na verdade, a culpa é minha. Já deves ter percebido que eu falo de mais - ele sorriu -, e quando nos conhecemos, eu perguntei-lhe o porquê dele ter-se afastado durante seis anos. Ele não gostou, achou-me intrometida, e até fui mas eu estava curiosa; O que pode acontecer para alguém desaparecer durante 6 anos? E desde então que embirramos. Mas ele é mesmo estúpido. Porque é que ele não larga o osso? Eu já percebi que agi mal, pronto, desculpa, mas podes afastar-te do meu pescoço se faz favor? Tipo, qual é o problema dele afinal? - Melody calou-se e olhou para Benjamin. - Desculpa - sorriu. 
     Ele riu-se. 
- Estás a rir do quê, Benjamin? 
- És engraçada. E podes tratar-me por Ben. 
- Benjamin fica-te muito melhor. 
     Melody e Benjamin ficaram a conversar enquanto tratavam de Ace e em seguida, a sua égua selvagem, Sierra. Quando iam tirar os seus cavalos das boxes para os irem montar, Ryan os apanhou aos risos. Melody calou-se e Benjamin só percebeu porquê quando o viu. 
- Ryan, tudo bem? 
- Sim, e contigo, Ben? - respondeu, a fitar somente Melody.
- Sempre. Chegaste agora? 
- Sim. Vou tratar do Danger, já vos acompanho - encarou Benjamin e sorriu. - Até já. 
- Viste o olhar que ele me deu? - disse, quando ele se afastou. 
- Vi. Realmente, é um pouco estranho. Ignora - curvou os lábios num sorriso. - Vamos montar.
      Eles levaram os cavalos para o picadeiro ao ar livre. Ben ajudou-a a montar Ace, que ficou um pouco atordoado de início devido a não estar habituado a ela, mas recompôs-se muito rapidamente. Ao contrário dele, Melody conseguiu a obediência dele e não caiu da primeira vez que o montou, na semana passada - no mesmo dia em que fora ao seu Planeta. Benjamin montou Sierra e lado a lado percorreu o picadeiro com ela. O picadeiro era grande, mas nada de excêntrico.
     Demorou pouco até Ryan aparecer com Danger, o seu frísio negro. O capacete preto e o pólo azul escuro faziam os seus olhos sobressaírem-se. Sorria sem mostrar os dentes inclinando os lábios para o seu canto esquerdo. Parecia ter saído dum catálogo. Melody engoliu em seco ao vê-lo aproximar-se. Os três andaram pelo picadeiro durante um pouco. Benjamin esforçava-se para uni-los numa conversa mas eles só falavam um com um outro para se picarem. Melody saiu então do picadeiro decidida a falar com ele depois de colocar Ace na sua boxe. Aquela parvoíce tinha de acabar.
     Melody esperou por Ryan junto do pátio ao lado da secretaria. Sentou numa das mesas de estilo piquenique. Ela sabia que ele havia de aparecer aqui. Sempre que se ia embora via-o sentado numa das mesas mais ao fundo a observar qualquer coisa que ela nunca percebeu o que era. Por fim, ele apareceu.
- O que estás aqui a fazer?
- Quero falar contigo.
- Sobre? - tirou o capacete e ajeitou o cabelo com a mão.
- Sobre nós - respondeu seriamente. Ryan sorriu de soslaio.
- Nós? - falou em tom de gozo.
- Sim. É disso mesmo que me refiro. Qual é o teu problema comigo?
- Eu não tenho problema nenhum contigo.
- Oh certo. Porque a  "conversa" - fez sinal de aspas com os dedos - que tivemos à meia hora atrás merece um prémio de a mais amigável. Não concordas? - ele não respondeu. - Só te quero longe de mim. Tu e os teus olhares.
- Se te incomodo assim tanto, muda-te.
- Não sou eu que tenho de mudar - pegou no casaco. - Para a próxima não contes com a minha paciência.
- Não haverá próxima - replicou. Melody já ia a entrar na secretaria.
- Espero bem que não - abriu a porta e entrou, deixando-o sozinho no pátio. 

bright petals.