The Anger #39



Tema 



     O ar à sua volta parecia ficar cada vez mais gelado. O tal calor no coração de Tema parecia ir-se apagando e cada sombra flutuante no espaço fazia o seu coração bater mais depressa na esperança de poder ser a sua amada. 
     Tema não dormira desde que Vénus partira para a casa de Mondy e caminhava agora pelo quarto vazio sem ela. Sentia o vazio deixado pela Vénus mas sobretudo uma raiva, raiva dele mesmo. Essa raiva concentrou-se e Tema atirou tudo o que estava na mesa perto dele e pousou as mãos em punhos nela, a pensar - Porque raio tive de a atacar... Porquê?
     Aquela casa conseguia acalmá-lo mas também colocá-lo stressado. Cada canto, cada divisão, faziam-no lembrar de Vénus e do mês que eles se passaram a conhecer. Tema fora tão diferente do que é, ou era. Ele não imaginava ser capaz de amar mas a verdade é que amava Vénus. Muito. E apesar deste sentimento ser completamente diferente de todos os que sentira - raiva, tristeza, vingança, angústia, poder - Tema sentia-se completo. Se ele tivesse realmente mudado teria sido para melhor. Vénus era o melhor dele. E agora ela foi-se. 
- Tenho de ir ter com ela. - Pensou alto. No entanto, as palavras de Vénus ecoaram no espaço.
      E se tiveres a lata de aparecer por lá, as coisas não vão acabar bem.  
     Tema obrigou-se a esquecer que ela disse tal coisa. Como é suposto eles resolverem as coisas se Vénus ficar em casa da Mondy? E neste caso, ele não pode ser visto por mais ninguém sem ser Vénus. Ele sabe que Mercúrio não hesitaria em atacá-lo e usar os seus poderes contra ele seria um erro. Já bastava ter magoado a Mondy, agora magoar o seu Tal e Irmão de Vénus não era nada inteligente.
      Apesar das infinitas coisas que poderiam dar errado nesta visita passarem em frente dos seus olhos azuis esverdeados, Tema ignorou tudo e foi atrás do que realmente o faz feliz: Vénus. 





Luna 



- ALMOÇO! - Ouviu-se Mercúrio gritar da porta da cozinha. 
     O seu grito fez Persifal acordar e arranhar as minhas calças de ganga. O meu pai, lá com o seu jeito extraordinário para gatos, acalmou-o e ele logo adormeceu nos braços dele. Dei-lhe uma festinha antes de me encontrar com os braços de Sol à minha volta. Vénus ajudou a avó a levantar-se e ir para a mesa. Sugeri que ela ficasse sentada no sofá e comesse num tabuleiro mas ela recusou logo e disse que não estava inválida, apenas cansada. Suspirei. Nem sei porque ainda tento convencer a teimosia da avó a fazer o que digo. 
     Sentámos-nos todos à mesa e reparei na tensão entre Vénus e Mercúrio. Não disse nada para não matar o bom ambiente que havia graças ao despertar da avó.
     Mas de repente tudo o que via ficou turvo e incerto. Uma luz branca apoderou-se da sala e mostrou um quarto iluminado por uma janela enorme com um cortinado branco ao vento. A cama de dossel era enorme com lençóis azuis escuros, coberta de almofadas escuras de tom acinzentado, azul e branco com um bonito tecido a cortinar a cama.
     Depois de ter reparado nisto tudo, finalmente dei-me conta da pessoa que estava no quarto. Era Tema e parecia tão preocupado e triste que até senti-me mal por ele. Rapidamente o sentimento de pena foi substituído por uma raiva que cresceu dentro de mim. Só queria atacá-lo e fazê-lo sofrer como ele fez com a avó, porém, eu não podia, eu não estava realmente lá. Obriguei-me a concentrar-me. Não estava ali para atacar ninguém. Eu estava  testemunhar um momento importante.
     Quando finalmente coloquei a minha atenção nele, Tema disse: 
- Tenho de ir ter com ela. 
     Bem, o ela era óbvio: Vénus. 
     Finalmente o que ele disse atingiu-me e apercebi-me que Tema vinha à minha casa. Não consegui evitar o pensamento de ele ser um homem com tendências suicidas. Ele acabou de atacar a minha avó e está espera de chegar em minha casa com um comité de boas vindas? Mercúrio matava-o se o visse, é que nem há dúvidas nisso. Para além do mais, Sol e Plutão de certeza que aproveitariam a chance de atacá-lo. Eu tentaria atacá-lo. 
      E com este pensamento, a minha visão desvaneceu-se lentamente e a sala de estar foi recuperando a sua forma. 
- Luna, está tudo bem? - Sol perguntou, stressado e preocupado.
     Nem tive tempo de assimilar o que me tinha acontecido e fui logo bombardeada com perguntas dele. 
- Eu estou bem, não te preocupes. 
- Por momentos não te senti. - Sussurrou-me, um pouco assustado e preocupado. 
- Hum? Como assim? 
- Como se tu não existisses.
O olhar dele estava a matar-me. Ele estava realmente assustado.
- Não te preocupes. Eu estou aqui, irei estar sempre. - Coloquei a minha mão no seu rosto e beijei-o seguido de um sorriso.
     Ele sorriu-me de volta mas o olhar preocupado manteve-se.
     O facto de estar a esconder as minhas visões de Sol estava realmente a afectar-me agora. Mas se lhe contasse o que tinha acabado de ver, ele iria atacar o Tema e no que acabei de presenciar, Tema só quer estar com Vénus e pedir desculpa. Atacar agora é uma boa oportunidade, ele vai estar distraído, mas não acho nada que seja o momento para iniciar uma guerra. Portanto vou ficar de olho em Vénus e quando Tema aparecer vou espiá-los. Bem, pelo menos tentar e rezar  que ninguém os veja.


     Depois do almoço deixei-me cair no sofá com Persifal na barriga até ouvir a agitação de alguém na sala. Pensei para mim que seria Sol, mas enganei-me. O perfume de flores apoderou-se da sala e percebi logo que era Vénus. Ela já deveria saber que Tema viria cá.
- Está tudo bem, Vénus?
     Ela demorou a responder, e quando o fez, a sua voz soava completamente segura.
- Sim, está tudo, Luna.
     Ela começou a caminhar para o jardim e fiquei na sala mais um pouco para Vénus não desconfiar que a iria vigiar. Apenas agradeci por todos estarem nos seus quartos.
     Caminhei até à porta que dá entrada ao alpendre do jardim e encostei-me junto a três grandes vasos de flores e consegui manter-me escondida. Vénus encostou-se na sombra mais funda da grande árvore do jardim e Tema apareceu numa luz azul-gelo. O olhar dela era ameaçador. O seu semblante mostrava raiva e Tema sussurrava a tentar explicar-se. Eles estavam mais a discutir do que a resolver qualquer briga de casais e sinceramente estava a ficar farta daquilo mas se saísse do meu esconderijo eles iriam ver-me e isso não seria bom. Portanto teria de esperar que eles acabassem a discussão.
      A discussão acabou mais cedo do que pensava.



Mercúrio 



     Mercúrio percorria cada canto da sua mente para tentar encontrar palavras para dizer, mas nada lhe surgia. Mondy deitara-se na sua cama e dormia profundamente. Os raios de Sol iluminavam o seu rosto e tudo o que ele via era beleza. Só de pensar que quase a perdera... Mas não. Ele não a perdera, ela continuava ali, com ele, viva. 
     Mercúrio queria ter as palavras certas para dizer a Mondy quando ela acordar. Queria dizer-lhe que depois deste incidente, eles deveriam ficar juntos de novo e que ele a ama muito, mas tudo o que ele pensava soava-lhe foleiro e demasiado lamechas. 
      Levantou-se do canto da cama em que estava sentado, deu um beijo na testa de Mondy e saiu do quarto. A casa estava num silencio profundo, nada se ouvia até Mercúrio chegar à sala. Apercebeu-se de que estava alguém no jardim. Devia ser Vénus. Num instante, ele tomou uma decisão: iria pedir desculpas a Vénus. Ela tratou Mondy tão bem e nem teve culpa do que lhe aconteceu, e aliás, pareceu-lhe bem arrependida com o que aconteceu anos atrás. Decidido, Mercúrio foi até ao jardim e encontrou Vénus... Mas também encontrou Tema. 
- O que é que estás aqui a fazer?
     Vénus encarou-o mas Mercúrio só conseguia ver Tema. 
     Instantaneamente, Mercúrio sentiu os seus olhos ficarem dum vermelho possesso de raiva e dentro de si ele conseguia sentir o fogo a alastrar-se até às suas mãos. 
- Não, não, não, Mercúrio, por favor! - Vénus gritava até ele, com as mãos abertas.
      Mercúrio, cego pela raiva, afastou Vénus com o braço esquerdo e ela tombou no chão. 
- Vénus! - Tema tentou mexer-se, caminhar até Vénus, mas Mercúrio não o deixou dar um passo. - Mercúrio, não quero lutar contigo. 
- Agora não queres lutar? - O seu riso não tinha qualquer humor. - Engraçado que há umas horas tinhas uma disposição diferente. 
- Ouve, desculpa por isso, está bem? Agi sem pensar. Mas não estou aqui para lutar contigo. 
- Bem, tarde mais, amigo. 
     Mercúrio criou chamas enormes com as mãos e lançou-as na direção de Tema, sem se preocupar com Vénus ou até consigo próprio, ele lançou mais chamas contra o seu oponente. Tema não atacou desta vez. Em vez disso, criou um escudo protetor de gelo à volta deles, mas não ficou por ali.  Em seguida, levantou-se e enfrentou Mercúrio. 
- Já vi que não me dás escolha - disse Tema. 
      Os olhos azuis esverdeados de Tema tornaram-se brancos e uma brisa de gelo voou à sua volta. Isto só fez Mercúrio querer derrotá-lo ainda mais. 
      O Tal de Mondy criou labaredas de fogo e lançou-as contra Tema, porém, este contra-atacou-o com flechas de gelo. Mercúrio sabia que iria ser difícil derrotá-lo por terem poderes opostos, no entanto, não desistiu. Continuou a formar labaredas e chamas de fogo e a lançá-las contra Tema e este continuava a contra-atacá-lo com flechas e esferas de gelo. 
     Quando Mercúrio já não aguentava mais aquele vai e vem, correu até Tema e lançou-lhe mais chamas até estar tão próximo dele que começaram a lutar. Tema sentiu as chamas dele na sua pele, tão quentes que mais um segundo expostos a elas teria sofrido queimaduras terríveis. Mercúrio possuído por raiva, agarrou no decote da t-shirt de Tema e começou a bater na cara dele. Tema sangrava do nariz e da boca e Mercúrio não iria parar até conseguir a sua vingança. Os seus punhos, ligeiramente iluminados por chamas, esmurravam o rosto da Estrela que continuava a sangrar, a abrir feridas, completamente à mercê do Planeta. Tema estava a ficar cada vez mais fraco e não conseguia encontrar força em lado algum para se defender. Os seus olhos tinham voltado ao normal azul esverdeado. O nariz sangrava, tinha a boca vermelha de sangue, um corte na sobrancelha, as faces encarnadas de tantos golpes sofrerem. Mercúrio arfava, com os punhos doridos, sem querer parar. Pelo que o que ele fez com a Mondy, pelo terror que ele implementou na galáxia, pelo sofrimento que Tema lhe trouxe, Mercúrio não via motivos para parar. Ele estava prestes dar o último ataque que iria acabar com a vida de Tema quando Vénus impediu-o. 
- Não! Tu não vais matá-lo! - Vénus empurrou-o com tanta força que ele saiu de cima de Tema e cambaleou para o lado. Mercúrio sentia-se atordoado, mas isso não iria impedi-lo de acabar o que tinha começado. Ele iria acabar com Tema.



Vénus 



     O seu maior pesadelo acontecia naquele preciso momento: um dos seus Irmãos estava a matar o seu Tal. Ela não conseguia ver aquilo e decerto que não iria deixar aquilo continuar.  
     Após afastar Mercúrio de Tema, Vénus colocou o seu Tal numa pose mais confortável e deixou-o descansar perto da árvore grande. Tema cuspiu sangue, com os olhos mal abertos. Desesperada, Vénus gritou: 
- Sol! Plutão! Luna! Por favor! Ajudem-me!
     Mesmo sabendo que eles poderiam não ajudá-la, eles iriam parar Mercúrio. Ele estava possuído duma maneira que ela nunca antes vira e ela tinha medo, muito medo. 
- Vénus, tu não me vais conseguir impedir. - Mercúrio avançava, completamente cego pela raiva e pelo ódio. 
- Não faças isto, por favor! - Vénus chorava. 
- O que se passa aqui? - Plutão perguntou. 
- Plutão, ajuda-me! O Mercúrio está... - Vénus mal conseguia falar. 
- Esse é... Esse é o Tema? 
- Sim, é. E vai ficar muito pior depois de eu acabar com ele. - Mercúrio criou chamas de fogo nas suas mãos e iria lançá-las se não fosse Luna a apagá-las com água.
     Vénus fitou-a surpresa mas estava mais que agradecida. Sol logo apareceu e ele, juntamente com Plutão, foram tentar acalmar Mercúrio, mas em vão. Ele abriu os braços e uma onda de calor fez Sol e Plutão caírem. Luna ficou desesperada ao ver o seu pai e o seu Tal caídos. 
- Mercúrio, por favor pára! Isto está a ir longe de mais! - pediu Vénus.
- Estás a magoar os teus amigos a que custo? Mercúrio, por favor... 
- Estou tão perto, Luna. Não vou parar agora. - Mercúrio caminhou até Tema mas Vénus colocou-se no seu caminho. 
- Maninha, por favor, sai do meu caminho. 
     Vénus passou o antebraço pela cara a limpar as lágrimas e olhou-o firme.
- Obriga-me. 
- Se o desejas.  
      Mercúrio ia derrubá-la com o braço, mas ela parou o seu movimento e fez-lo cair de joelhos. Vénus colocou dois dedos na testa dele e criou uma luz amarelada e finalmente, Mercúrio caiu desmaiado. 
Sem energia alguma, Vénus iria cair no chão manchado de cinzas e um pouco queimado de gelo e fogo, se não fosse o seu Tal a agarrá-la. Após ver o sorriso tímido do seu Tema, Vénus permitiu-se a fechar os olhos em paz. 

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