Underneath #18

- Repete lá, por favor. Acho que não estou a perceber bem - dizia ele enquanto Troy lhe explicava acerca do Tema e das gémeas. - Como assim és a "energia vital duma galáxia"? - Fez aspas com os dedos. 
- O que tu viste à bocado é prova disso - respondeu-lhe o melhor amigo. 
- E vocês são... Planetas? - dirigiu o olhar para as gémeas que assentiram. 
- Somos - Violet respondeu. 
     Ryan não estava a acreditar na palavra delas. Melody já estava farta do olhar que ele lhes lançava - como se fossem loucas. E depois para o melhor amigo, Troy, fitava-o compreensivo. Violet, com o olhar, dizia-lhe para não fazer nada de irracional, mas aquele rapaz alterava-a de uma maneira inexplicável. Algo também lhe dizia que o seu humor não ajudava mas logo calou a voz da sua consciência. 
     O silêncio pareceu consumir os quatro, só podendo ouvir o som dos passarinhos a cantar e se escutassem atentamente, o som da vila em movimento. Troy encarou as irmãs a pedir ajuda, como um cachorrinho perdido. Melody que não suportava mais o olhar de coitado do Troy e o olhar agressivo de Ryan decidiu a sua ação. Ela avançou o suficiente para estar perto dos dois rapazes e levantou a saia do vestido cuidadosamente para não revelar demasiado e disse: 
- A minha marca está aqui. Gravada na minha pele para sempre e se quiser, pode brilhar. 
     Violet colocou a mão na cara, mais aborrecida que chocada. Troy ficou surpreendido e Ryan simplesmente aparvalhado. No entanto, os últimos dois olharam para a marca. Parecia ter sido feita com tinta que, com o tom de pele dela, estava gravado num pedaço de pergaminho. 
- Mel, acho que eles já perceberam - disse-lhe a irmã. Melody baixou a saia e sentou-se num tronco cortado. 
- A minha tu já  viste - disse Troy, a desviar a atenção de Melody. - Tenho-a desde que nasci. 
- É aquela marca que tens no peito? 
- Sim. E como a Melody disse, a minha já brilhou. Duas vezes, penso eu - Ryan parecia à deriva sem possibilidade de alcance. - Ouve - começou Troy, - eu não sei que mais te contar. Já te disse tudo o que sei sobre ele. Agora cabe-te a ti acreditar em mim, ou não. 
- Eu acho que acredito. Mas é muito para absorver, não achas?
- Acho. Eu próprio penso que ainda não o fiz. Mas há mais - acrescentou.
- Como assim?
- Eu disse-te que o Tema não foi uma pessoa de paz - Ryan assentiu em concordância -, e isso levou-o a criar inimigos e neste caso, inimigos-aliados - disse. - Um desses inimigos-aliados é a Escuridão, com E maiúsculo. E para adicionar há minha brilhante sorte, um dos planetas da galáxia do Tema, amaldiçoou-me. Quando fizer dezassete anos, a Escuridão vai apoderar-se de mim para usufruir do poder da sua antiga Estrela da maneira que bem entender - Ryan tapou o rosto com as mãos. - Ryan. Ryan?
     Ele fitou Troy. Transmitiu-lhe pelo olhar a confusão que ia na cabeça dele. Haveria realmente algo como a Escuridão com um E maiúsculo? A Lua e o Sol eram realmente amantes com duas filhas gémeas que se dizem ser Marte e Vénus? Troy seria mesmo uma Estrela principal? O que raio era isso, afinal? Que realidade era esta? E magia? Isso realmente existia?
- Ryan, senta-te - pediu-lhe Violet. - Deixa-me contar-te tudo. Pode ser? - Ela pegou-o pelo braço e fê-lo sentar-se. Olhou para Troy de soslaio que fitava o seu amigo com algum desespero.
- Vou-te contar o que sei pela minha bisavó, pela minha mãe, pelos diários deixados por elas... Posso não te contar a história toda mas eu também não a sei. Nenhum de nós sabe e agora, só precisamos que oiças e compreendas. Está bem?
- Sim - disse ele, receoso mas determinado em ouvir tudo.
- O Tema é a Estrela Vital duma galáxia não muito distante da nossa. Assim como o nosso pai, o Sol, ele dá vida e luz a uma galáxia. Mas, talvez por domínio da Escuridão, talvez por ser realmente um monstro, ele queria matar o nosso pai para ficar com todos os Planetas do Sistema Solar porque isso o faria mais forte. Teria mais luz, mais energia, mais tudo. Seria ainda melhor que o nosso pai. Quando a batalha foi travada, ele perdeu. Morreu e reencarnou no Troy que acontece ser igual a ele fisicamente. E com a alma do Tema dentro dele isso o faz a Estrela Vital de uma galáxia. Ele pode não ter o poder que o Tema teve originalmente, mas tem o suficiente para saciar a Escuridão e a vida de Planetas durante séculos ou muito mais. O que sabemos a cem por cento, é que Noir, um dos Planetas da galáxia do Tema, amaldiçoou o teu melhor amigo a um destino de sombras e Escuridão sem qualquer retorno. Ele já foi consumido pelo Saeva, um espírito negro, uma vez - Ryan arregalou os olhos levemente. Violet levantou a voz de maneira a que ele não desviasse a sua atenção. - E apesar de não termos o tempo que gostaríamos, ainda conseguimos salvá-lo e possivelmente, a nossa galáxia - disse. - O teu melhor amigo e a tua galáxia.
- No que te foste meter, Evans - disse ao passar as mãos do rosto ao cabelo.
     Respirou fundo, como se estivesse a absorver tudo o que a Violet disse. Pousou as mãos nas coxas e foi alcançado por um turbilhão de pensamentos. Se o seu melhor amigo consegue criar gelo e luz com as mãos, como não podia existir algo que queira destruir isso? Aliás, como é suposto ver esse algo destruir o seu melhor amigo sem tentar, pelo menos, evitá-lo? Ele e Troy tinham uma jura de amizade incompreensível. Era algo tão forte que lhe dava paz naqueles noites de agonia no hospital e Ryan não ia desistir disso. Nunca mais. Foram seis anos que merecem ser recompensados e este era o momento para tal acontecer.
- Eu não vou deixar-te encarar isto sem mim - disse. - Nem penses nisso - fitou os olhos azuis esverdeados do amigo. - Não vou dizer que acredito nisto tanto quanto tu, mas eu não quero deixar-te sozinho nisto. Se vais combater esse... Qual o nome dele mesmo? - Violet sussurrou-lhe a resposta - Sim, este Saeva, eu vou ajudar-te no melhor que puder.
     Ryan era o único que podia esquecer-se de algo tão crucial como o nome do seu principal inimigo e fazê-lo parecer engraçado. Troy aproximou-se dele e perguntou-lhe seriamente:
- Estás comigo nisto?
- Acabei de declarar-me a ti à frente delas e tu ainda perguntas isso? - Sorriu presunçosamente. - Sempre, Evans. Estou sempre contigo.
- Temos um mar para...
- Cala-te - e encurralou a cabeça dele com o braço e fez-lhe pressão no cabelo com a mão. Ele não conseguia ver mas Troy apresentava um sorriso de orelha a orelha.


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- O que te deu na cabeça para levantares a saia, Mel? 
- O que queres? Ele não estava a acreditar numa palavra que saía das nossas bocas. E para que conste, tinha calções próprios para usar debaixo dos vestidos. E que diferença isso faz agora? - Acrescentou. - Não é como se tivesse pousado nua para eles. No final correu tudo bem. 
- Disso já não tenho tanta certeza.
- O que queres dizer com isso? - Elas pararam de andar. 
- Confias no Ryan como o Troy confia? - Melody não lhe respondeu. - Pois. Mas, colocando isso de lado, o que fazemos com ele? Como é que ele nos pode ajudar? 
- Não sei. Sinceramente, acho que isto é uma coisa que o Troy tem de lidar. Se as ideias dele forem demasiado estúpidas podemos sempre acordá-lo para a vida - encolheu os ombros. Começou a andar de novo mas Violet não a acompanhava. - O que se passa? 
- Se o Troy não teve problemas em contar ao Ryan, o que irá ele fazer se a Catarina tiver um relance do que nós somos? E se ela também nos apanha a praticar? Ou pior: e se o Ryan lhe conta? Mel, não podemos estar a contar a nossa vida a todo o ser vivo. 
- Não penses nisso. Até eu sei que o Troy não é assim tão burro para ir contar à Catarina sobre isto sem ela o descobrir. 
- Porque não quer colocá-la em perigo? 
- Sim. Eles namoram e acho que se conhecem desde crianças. Quase como eu e tu, pondo de parte o namoro. Ele a protegeria com a vida, como eu a ti - respondeu.
      Melody virou-se contra ela. 
- Pois. Com a vida - Violet murmurou baixinho. 
- Disseste algo? - Voltou-se ligeiramente para fitá-la. 
- Temos de ir andado - suspirou. - A luz está a desaparecer. O pai deve estar a chegar. 
- Vamos - disse Melody e as duas caminharam para casa lado a lado. 


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     A luz não tinha completamente desaparecido quando uma chama dançante surgiu no quarto. Sol chegara a casa como um pai normal chega ao final de um dia de trabalho - cansado e com problemas nas suas costas. Luna não estava em casa, ainda. Voltara ao trabalho finalmente depois de ter passado vários dias em casa após a morte da Mondy. As suas filhas não estavam presentes. A casa estava num absoluto silêncio até que ele ouviu um tilintar familiar percorrer o corredor até ao quarto principal. Cosmo, filho de Persifal - gato da Luna desde os seus 21 anos - entrara pelo quarto como que a pedir festinhas. Sol, conhecendo bem os seus gatos, sabia que Leslie não podia estar muito longe visto que Cosmo e ela eram inseparáveis. Uns segundos mais tarde, a gata branca com largas manchas escuras apareceu e aninhou-se à perna do dono e roçou a cabeça no pescoço do gato cinzento escuro, Cosmo. Ele baixou-se para lhes mimar um pouco e encaminhou-os para a cozinha onde reencheu as tigelas dos gatos. Persifal podia ficar dias sem vir a casa. No entanto, as suas crias já não. Leslie e Cosmo eram apenas dois da família de seis. A progenitora já morrera e só restavam as crias e Persifal que já era demasiado velho para viver mas com muita energia ainda para gastar. Mondy e Violet de certeza que tinham colocado as mãos nele para lhe curar qualquer doença que o possa levar à morte e por isso o gato aprecia a boa vida de ser um animal doméstico sem ter filhos pequenos para lidar. 
     Sol foi para o jardim e assobiou. A brisa leve de maio levou o som até ao ouvido dos bichos que um pouco mais logo apareceram. Malmequer, Apolo e Nyx entraram pela porta das traseiras e encaminharam-se para as tigelas com comida e água. Em seguida, Sol colocou o seu disco preferido a dar enquanto cozinhava o jantar para a sua esposa e as suas filhas. Os legumes saltearam-se, a carne cozinhou-se e o relógio marcava as oito horas e nem sinal das três. Sol estava cansado, sentia uma dor no pescoço estranha e uma vozinha no fundo da cabeça dizia-lhe para ir descansar um pouco. Deitou-se no sofá aquecido por Nyx e Cosmo e Leslie e esperou por elas até adormecer... 
     
   
     Ouviu-a não pelos sons que emitia mas pelos sentimentos que sentia. Uma agonia, desespero e alarme assolaram-no e Sol levantou-se. Ele nem precisou de focar a visão para ver a sua mulher ajoelhada no chão, com olhos brancos e uma expressão aterrorizada. A luz da Lua pintava a sala em tons de prateado e ao ajoelhar-se junto a Luna, Sol conseguiu ver o que ela via. Algo que eles aperfeiçoaram ao longo dos anos foi partilhar as visões. E então, ao concentrar-se e ao agarrar nas mãos dela, Sol presenciou a visão com ela.
     Melody e Violet estavam em perigo. A primeira estava a ser atacada por demónios e de relance viu Troy com os seus amigos a protegê-la das criaturas negras. Antes que a visão terminasse, Sol conseguiu distinguir a familiaridade daqueles demónios aos verdadeiros negros e sombrios demónios que se levantam das profundezas do Submundo e subitamente tudo clareou na sua cabeça.
     Luna acordou e respirou aceleradamente. Focou-se em Sol que agarrava nas mãos dela e a fitava. Bastou um olhar para eles perceberem o que cada um pensava.
- Elas já teletransportaram-se - murmurou Luna. - E a Melody não superou o teste. Sol, sabes o que isto significa? - perguntou já sabendo a resposta, com a respiração a não querer voltar ao normal.
- Nós temos de falar com elas, Luna. Senão vamos perdê-las para sempre.
     Luna baixou levemente a cabeça e colocou as mãos na cara. Começou a chorar baixinho. Sol abraçou-a sob aquela luz prateada. Eles perceberam que talvez tenham feito tudo errado e por isso as suas filhas pagavam agora o preço. 

Underneath #17

     Primeiro, sentiu o chão duro e áspero. Depois, veio o cheiro a pedra molhada e fumo. Os seus olhos abriram-se lentamente, piscou-os várias vezes para focar a visão e viu-se deitado na gruta, mas esta não se apresentava igual à gruta que ele tão habituado estava. Ele não via nenhum vestígio de areia. Era só rocha. Levantou-se. Conseguia ouvir água a correr algures. Passou a mão pelas calças escuras e viu-se sem t-shirt. No interior do seu braço esquerdo tinha uma marca estranha tatuada. Uns metros mais à frente encontrou um vulto duma rapariga. Tinha o cabelo atado e vestia-se como se estivesse prestes a encontrar o fóssil mais procurado dos últimos séculos. 
- Quem és? - perguntou ela. A voz ameaçava-o, no entanto, ele só se sentia mais atraído a ela. 
- Calma, não pretendo fazer mal - respondeu. 
     Ela revistou-o com os olhos e posou-os na marca do seu braço. Ele sorria sem o conseguir evitar. Como se o seu corpo não fosse dele. Como se alguém o comandasse. Ela avançou para ele, com o olhar curioso. Tirou a mochila das costas e na palma da sua mão surgiu uma luz brilhante e quente. Ele surpreendeu-se com a familiaridade que aquela luz lhe trazia. Os olhos dela, castanhos avermelhados com um brilho azul, fitaram-no. 
- O que estás aqui a fazer? Vieste à procura do meu pai? 
- Sim e não. 
- Explica-te. Estás a seguir-me? 
- Se estiver, há algum problema? - O semblante dela ficou mais carregado. Como se bastasse respirar para a irritar. - Ajudas-me a sair daqui, Marte? 
     Ela virou-lhe as costas e colocou a mochila nas costas. Com a luz ainda a pairar na palma da mão, avançou em frente e disse: 
- O meu nome não é esse, Plutão - respondeu-lhe. - Vens ou preferes o escuro? - Virou-se para fitá-lo. 
     Ryan acordou antes de poder dar-lhe uma resposta. Os lençóis estavam molhados de suor e tinha o cabelo colado à testa. Relaxou as mãos que estavam em punho e sentou-se. Desta vez o sonho pareceu tão real que o fez questionar se estaria mesmo a viver na realidade. Encaminhou-se para a casa de banho, onde despiu as roupas e sentou-se no chão do chuveiro a levar com a água morna. Sentia-se tão cansado que podia adormecer ali mesmo. O cancro podia ter desaparecido mas os sintomas ainda estavam lá. Cansaço. Dores de cabeça. Medo constante. Ele não conseguia sair de casa sem ter medo de sofrer um episódio de alucinações no meio da rua. Onde estava o seu milagre? O que aconteceu para deixar de estar pleno e são?
     Alguém bateu à porta. A mãe, Blair. 
- Ryan? Está tudo bem? 
- Sim. - Levantou-se e desligou a água. Colocou uma toalha à volta das ancas e abriu-lhe a porta. 
- Ficaste lá dentro durante meia-hora. Passa-se algo? 
- Não. Estava só a relaxar, não te preocupes - pegou na cabeça dela com a mão e beijou-a. Ryan sorriu levemente. 
- Se precisares de descansar podes faltar hoje. Não te quero ver doente de novo. 
- Mãe, é quase verão. Não vou adoecer - acariciou-lhe o braço. - E o que estás a fazer em casa a estas horas? 
- É o meu dia de folga - Ryan aumentou os olhos em surpresa. - O que foi? - Um sorriso brotava nos lábios dela.
- Tu nunca tiras um dia de folga - observou ele.
     A mãe encolheu os ombros. 
- Culpa o teu pai - disse e dirigiu-se para o quarto. 
- E a que horas chegam? - perguntou, antes que a porta do quarto se fechasse. 
- Tarde. Mas não fiques na rua muito tempo, ouviste? - Ryan correu para ela e beijou-lhe a bochecha assim que se lembrou. 
- Diz ao pai que desejo-vos um bom aniversário de casamento. 
- Eu digo. Agora vai vestir-te antes que te constipes. 

     Trinta minutos mais tarde, Ryan estava a ligar a Troy. 
- Espero que não tenhas planos para hoje, Evans, porque os meus pais não vão estar em casa e isso, obrigatoriamente, significa que podemos fazer o que quisermos na minha pequena mansão. - Quando ele acabou de falar, não ouviu a imediata resposta que queria. - Troy? Estás aí? 
- Sim. Estou. Hum, não sei se vai dar. 
- Como assim "não sei se vai dar"? - Troy calara-se mais uma vez, deixando-o impaciente. - Troy? 
- Olha, fazemos assim, eu passo aí daqui a umas horas, está bem? 
- Tudo bem. Fico à espera - respondeu. 
- Até já - e desligou. 


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     Quanto mais escuro ficava, menos conseguia concentrar-se. Melody estava no mesmo sonho em que era perseguida numa rua por um monstro. Desta vez, no entanto, parecia que a criatura conseguia magoá-la tão profundamente que lhe deixava uma cicatriz para contar a história. As sombras já não pareciam tão inocentes como antes e os olhos tenebrosos eram capazes de retirar-lhe tudo o que tinha de bom. Assim que as garras da criatura tentavam possui-la, Violet conseguia despertá-la daquele pesadelo. 
- Adormeces-te outra vez? Tens a certeza de que estás bem? 
- Estou só cansada - murmurou. 
- Queres ficar a descansar? Posso ir ter com o Troy sozinha. Levo os teus apontamentos para ele ve...
- Não - interrompeu-a. - Dá-me um minuto. 
- Estou na sala se precisares de alguma coisa - Violet encostou a porta do quarto ao sair. 
     Melody levantou-se e ao despir o top reparou no fino espaço entre a porta e a ombreira. Estava estranhamente escuro para aquela hora da manhã e algo naquela escuridão a intrigava. Semicerrou os olhos, encarou bem aquele espaço e somente por uma fracção de segundo ela viu um fio negro ondular para fora da porta como um tentáculo. Dois olhos vermelhos rodopiaram no escuro e Melody correu para abrir a porta. Num movimento rápido, ela puxou a porta que se abriu e mostrou, apenas e só, o corredor vazio e calmo. A respiração dela ficou agitada. O seu coração batia rapidamente. Estaria a alucinar? Ela fechou a porta cuidadosamente e quando se voltou viu uma sombra erguer-se do chão. O monstro era tão negro que nenhuma luz se deixava transparecer. Dois olhos cor de chamas deram forma à sombra e fios pretos ondulavam pelo seu corpo. Tinha o mesmo sorriso sinistro que o reflexo oriundo do seu Planeta e Melody conseguia sentir que aquilo já não era um sonho. A sombra subiu e subiu, aumentando o seu corpo até ao tecto e inclinou-se para atacá-la. Melody agachou-se, colocou os braços na cabeça e ficou com um grito entalado no peito. A porta abriu-se de rompante e Violet entrou no quarto fazendo a criatura dissipar-se na presença dela. Melody levantou-se e olhou em redor. Não havia sinais de Escuridão. 
- Melody? O que se passa? 
- Hum? Nada - respondeu-lhe. Despiu o top e os calções rapidamente e colocou um vestido. - Emprestas-me o teu batom? 
- Claro... - Melody começou a aplicar o batom. Seguiu para a casa de banho e penteou-se. Violet viu que ela estava agitada - Está tudo bem? 
- Sim - disse sem a fitar. Ela atou o cabelo pelo cimo da cabeça. Pegou na mala e disse - Vamos? 
- Sim, vamos - respondeu-lhe a irmã.


◄◊►



- O que estás a fazer, génio? - resmungou Melody, com dois dedos na cana do nariz. 
- Estou a tentar! Eu não sei como fazer isto! 
- Vocês os dois. Parem com isso. Ele não vai chegar a lado nenhum assim - observou Violet. 
- Pois, está bem. Mas seria óptimo se ele conseguisse accionar os poderes ainda neste século. 
- Desculpa se não tive pais que me ensinaram a fazer o Wingardium Leviosa desde que nasci - refilou, Troy. 
- Já chega! O que se passa com vocês? Que mau humor, meu Deus. 
- A culpa é dela!
- A culpa é dele! 
- Pronto. Melody, por favor guarda os teus comentários senão ele não acciona os poderes nunca. Troy, olha para mim. Concentra-te. Fecha os olhos, se precisares. Respira fundo - disse-lhe. Ele assim o fez depois de lançar um olhar à Melody. Concentrou-se na voz da Violet a sussurrar-lhe as palavras... - Agora, procura a tua força, a tua ligação com o Tema. Procura a sensação que ele te traz quando recuperas as suas memórias. Lembra-te da mulher...
     Troy ouviu aquela última frase ser dita num sussurro e depois tudo ficou negro durante uma fracção de segundos. Sentiu uma energia súbita a percorrer cada veia do seu corpo mas foi uma sensação super breve. Ele abriu os olhos pronto para refilar outra vez mas viu o rosto da Violet com traços de azul. Ela sorria-lhe calorosamente e Troy olhou para as suas mãos. Elas detinham um brilho tão forte, poderoso e mágico que ele quase não acreditava.
- Consegui! - e a luz dissipou-se.
- Pronto, lá se foi a nossa sorte - disse Melody.
- Não a oiças. Se conseguiste desta vez, consegues outra - assegurou-lhe Violet.
- O que se passa contigo hoje?
- Nada. Agora treina, se faz favor - respondeu a Troy.
- Vamos lá. Concentra-te de novo - começou Violet.
     Parecia que as conversas deles eram sussurros. Melody desligou-se completamente e deixou-se ser invadida pelo acontecimento da manhã. Se os seus pesadelos começavam a ganhar forma, como seria capaz de fugir deles? Era suposto voltar ao seu Planeta e deixar ser-se atacada? O que teria ela de fazer? Uma dor de cabeça começava a formar-se. Estava tão cansada. Só queria dormir e esquecer o mundo durante vinte e quatro horas. Depois, e só depois, se dedicaria completamente a salvar toda a gente, inclusive a si própria. Mas não podia. Não era assim que funcionava e ela tinha medo de não conseguir salvar ninguém neste estado e pelo caminho perder-se completamente. Troy era o único que poderia percebê-la, mas ele já tinha o mundo nos seus ombros e aquelas olheiras não enganavam ninguém. Ela sabia o que ele sentia. Mas ele, e Violet, não podiam saber que era assim que ela se sentia. Nunca a deixariam em paz e era só mais um problema para a longa lista deles. Ela soltou um suspiro. Fitou a irmã e Troy - que conseguira formar gelo com as mãos - e sorriu ao vê-los sorrir. Eles fitaram-na e Troy gritou um "Andá cá!" para ela. Melody juntou-se aos dois. Ela perguntou-se como é que Troy se tinha infiltrado nas suas vidas de uma forma tão natural. O trio ficou perdido em magia e amizade, fazendo Melody esquecer por umas horas a caótica festa na sua cabeça.


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     Com as horas a passarem, Ryan ficava cada vez mais chateado e impaciente. O que poderia estar Troy a fazer para não se encontrarem? Não tinham aulas. A Catarina a esta hora devia estar a acordar e ele sabia o horário em que ele ia para o bar ajudar os pais. Supondo que Troy não estava na escola, no bar ou na casa da Catarina, onde raio estaria ele? Sempre que Ryan tinha a casa só para ele, Troy era o primeiro a sugerir algo divertido para fazer. E depois Ryan convencia-o a fazer algo ainda pior e era por isso que as noites em casa sem os pais eram espectaculares, independentemente do que acabassem por fazer. Pelo menos era assim que ele se lembrava das noites de à seis anos atrás. A hipótese de ele estar com as gémeas, ou melhor, com a Melody, fazia-o querer partir algo. Portanto, para acalmar um pouco, ele pegou no telemóvel e na Marley e foi para o mar. Surfar iria acalmá-lo. 
     Ryan pegou nas chaves da carrinha "pão de forma" antiga do pai e colocou lá a sua prancha. Foi para a praia e ficou algum tempo a observar a água do carro. O mar estava calmo mas ainda se podiam aproveitar algumas ondas e antes que ele ficasse totalmente flat, Ryan vestiu o fato de surf e seguiu para a água. Ele apenas conseguiu apanhar umas seis ondas até ao mar ficar sereno. Foi para o chuveiro, onde tirou a parte de cima do fato e molhou-se com a água fria. Calçou os chinelos e foi para a carrinha onde vestiu a roupa normal. Pôs os óculos de sol e decidiu ver se Troy estava no bar. 
- Ryan! 
- Olá, Sr. E - disse antes de abraçá-lo. 
- Foste ao mar? 
- Fui. Mas não estava lá grande coisa. Sabe do Troy? 
- Não. Pensava que estava contigo mas se não está então tenta ir à Catarina - respondeu. 
- Pois, talvez mais logo. Agora acho que vou almoçar. 
- Fazes tu muito bem. O que vai ser? 
     
     Depois de almoçar, Ryan decidiu ir procurá-lo. A bicicleta dele não estava em lado nenhum. Seguiu por um dos caminhos que ele sabia que Troy tomava. Pensou que estava num labirinto de areia e vegetação, até que encontrou três bicicletas. Uma era do Troy e as outras duass, presumiu ele, que só podiam ser das gémeas. 
- Não acredito que ele me deixou pendurado por causa delas - murmurou a desviar um ramo da frente. 
     Ele seguiu para a frente e encontrou um pequeno campo de flores selvagens onde Troy e as gémeas estavam. Primeiramente, só os viu a sorrir e a rir e até aí tudo bem. Mas em seguida, Ryan não queria acreditar nos seus olhos: Troy emanava luz e gelo das suas mãos como magia. Fazia movimentos de onde saíam flocos de gelo, fios de neve e luzes. Ryan deu um passo atrás, a tentar rebobinar tudo o que vira para conseguir encarar a realidade. Aquilo podia muito bem ser uma alucinação. Ele já não sabia nada. Sentiu por momentos um abanão e, ao recuar, Ryan pisou num galho que o revelou. Melody foi a primeira a olhar para ele, seguido de Troy e só depois Violet que estava de costas para ele.
- Ryan - chamou o seu melhor amigo. 
- Diz-me que estou a ter a maior alucinação da minha vida - disse-lhe.
     Troy levantou-se e aproximou-se de Ryan. As gémeas ficaram de pé atrás dele. 
- O que viste? 
- Tudo! - Troy fitou as gémeas e voltou a por o olhar em Ryan. - O que acabei de ver? 
- Deixa-me explicar-te, por favor - pediu-lhe. 
     Então Ryan raciocinou. Aquele dia em que Troy lhe queria contar algo... Era isto. Ryan não estava a alucinar e ele não conseguia perceber se era feliz ou infelizmente. De qualquer das formas, a maneira como Troy o fitava era tão culpado e transparente que ele conseguia lê-lo perfeitamente. E independentemente de estar zangado por ele lhe ter mentido, nada podia comparar ao olhar sincero e pesado com que ele lhe fitava e então percebeu que se sentira assim uma vez. Quando lhe contou o porquê de ter desaparecido durante seis anos. Troy não ficara chateado. Ficara-lhe grato por ter contado. Apesar dos sentimentos contraditórios que sentia, Ryan aproximou-se do seu melhor amigo. 
-  Acho que estou a enlouquecer - soltou um riso seco. Colocou as mãos nos olhos e tirou-as antes de dizer - Conta-me. Não me escondas nada, Evans.
- Obrigado - disse-lhe Troy a sorrir. 

bright petals.