The Attack #27



Sol 


     O olhar de felicidade de Luna trazia conforto a Sol, mesmo magoado e desiludido. 
     Quando acordou, a sua decisão estava tomada, iria contar o seu motivo de partida. Devia essa explicação a todos. Sabia também que Luna iria ficar radiante por ter encontrado Plutão. Iria distraí-la um pouco do problema que causou, mas que por isso mesmo, a obrigaria a pensar mais nele. Luna iria sentir a culpa dentro de si até Sol a desculpar de verdade e quando o fizesse, ele estaria a entregá-la o seu coração por inteiro, de novo, mas, desta vez, com um escudo protetor.
     Ao encarar os olhos de Luna, cheios de felicidade, enquanto contava-lhe, a Mercúrio e a Mondy o porquê de ter ido, trouxeram um pouquinho de paz para si, mas não era suficiente para apagar a dor. 
     O resto do dia, para ele, passou lentamente. A discussão que teve com a Luna continuava a passar-lhe à frente dos olhos e em seguida, os momentos de felicidade dos dois, e por fim, o momento em que viu Luna com outro. O porquê de ela ter feito o que fez ainda era desconhecido para Sol. Mas todos esses problemas eram esquecidos quando o sorriso da sua amada reluzia. A felicidade genuína de Luna fazia Sol soltar um sorriso, ainda que breve, era o seu único motivo para tal. Porém, não podia sorrir. Não podia vacilar. Não podia mostrar o lado piedoso. O lado que estava apaixonado por Luna e não ligava ao seu erro. 
      Quando a noite chegou e a Lua se ergueu, Sol deitou-se na sua cama, por fazer, na companhia de Persifal. Começou a fazer festinhas no bichano e divagou. Os seus pensamentos voaram distantes, para longe daqui, até que um poder, que não era dele, o consumir lentamente. Luna. Só podia ser ela. Mas como? Sol, uns dias antes de voltar, sentiu o mesmo. Um poder esvoaçante, calmo e quente a tomar posse do seu corpo. Luna tinha encontrado o seu primeiro poder. A afinidade com o Ar. Sol estava feliz por ela, mas não queria demonstrá-lo. Mais que ninguém, ele sabia da frustração de Luna por não ter poderes. Ela desejara tanto isto, e finalmente tem. Ao que parece quem espera sempre alcança. 
     Então espera mais um pouco Sol, e terás a tua Luna de volta.
     As palavras pairaram no ar e a voz de Lua ficaram presentes no ouvido e na mente de Sol.  Porque teria de ser ele a esperar? Ele não fez disparate nenhum, ele não cometeu erros que custassem o coração de Luna, ele no final do dia, fez o correcto.
      Só desejava que não fosse eu a ter de esperar, Lua, respondeu-lhe.
     Persifal aninhou-se mais a Sol, fazendo proveito do calor que emanava de si. Assim Sol e Persifal adormeceram e caíram num sono duradouro.  
     Sol acordara com a luz a entrar pela sua janela. 
     Dormira mais do que queria. Já passava do meio dia. Levantou da cama, foi direto à casa de banho e tomou um duche. Deixou a água lavar-lhe a alma, e num segundo, já se encontrava a caminho da cozinha. Eram uma da tarde e quarenta e cinco. Luna provavelmente estaria a arranjar-se para o treino. Era da maneira que a não iria ver por duas horas. 
     A cozinha, ainda com o cheiro ao almoço, estava arrumada e na mesa estava um prato com o favorito de Sol, preparado por Mondy de certo. Pegou num tabuleiro e colocou o prato nele, juntamente com um copo de sumo e duas sobremesas. Com a fome que Sol estava podia comer muito mais do que realmente iria. Levou o tabuleiro para a sala e ligou a televisão. Sol via qualquer coisa: comédia, romance, terror, ação, ficção, tudo. Agradava-lhe a imaginação dos mortais e traziam-lhe uma animação diferente. Entretinham-no. 
      O perfume de Luna encheu a sala quando desceu as escadas e Sol não conseguiu evitar olhar para ela. Estava de cabelo atado, trazia o seu colar à volta do seu agora fino pescoço. Ela estava sempre com ele, sempre. Isso agradava-lhe. Luna soltou um sorriso tímido e depressa desviou o seu olhar para longe de Sol. Fez o mesmo. Não ia ficar especado a olhar para ela.  
      Sol nem deu 5 garfadas no seu almoço quando Mercúrio o chamou. 
- Mas o que queres? - perguntou stressado. 
- Vem cá ao jardim, duma vez - refilou Mercúrio. 
     Ele suspirou e levantou-se do sofá. Fez o curto caminho até à porta que dava ao jardim e ficou parado no alpendre à espera que Mondy, Mercúrio ou até Luna ou Plutão lhe explicassem o porquê de estar ali. Impaciente, Sol falou:
- Vão dizer porque estou aqui ou tenho de adivinhar?
- Vamos treinar - disse Mondy. 
- Eu ainda nem comi - retorquiu sem ligar ao facto de que ia realmente treinar. 
- Comes mais tarde, vá - Mondy fez sinal para Sol se aproximar. 
     Apesar da birrinha, Sol sentia saudades de treinar. Sentia saudades da agitação, dos reflexos, da ação. Caminhou até Mondy, lado a lado com ela e de frente para Luna. A todo o custa, evitava o contacto visual com Luna, mas era difícil com ela a concentrar-se nele.
- Luna, tu vais projetar forças do Ar contra Sol, em forma de ataque. 
- Mas eu não sei fazer isso avó - falou, insegura, ainda com os olhos postos no seu Tal.
- Sabes sim, basta concentrares-te - virou-se para Sol -, e tu vais proteger-te ou contra atacar.
     Sol sentia-se nervoso, um nervoso vindo dele e Luna. Não queria atacá-la, porém poderia ser uma boa forma de descarregar a raiva, não totalmente, mas uma parte dela. Não queria proteger-se, era mais forte que isso. 
     Com uma incerteza e um nervosismo dentro de si, Sol decidiu proteger-se. Porém, se Luna o irritar, ele não se vai obrigar a controlar-se. É um treino afinal de contas. Ela precisa de se preparar, então eu dou-lhe a preparação, assim pensou.



Luna 



      A noite arrepiante de ontem tinha restaurado vários bocados do meu coração. Sentia-me melhor, muito melhor. As brisas que se fundiram, a minha e de avó, refrescaram o meu interior e renovaram-me. Fiz o meu caminho até à cozinha, pronta para receber um olhar desiludido de Sol e o pequeno-almoço perfeito de avó.
Sol é um madrugador, e assim que cheguei à cozinha esta manhã, ele não estava lá. Admirei-me, mas não liguei muito. 
- Hoje vamos treinar o teu poder Luna - falou avó enquanto me passava o doce. 
      Animei-me - Mal posso esperar! - sorri.
- Bom dia meninas - disse enquanto nos brindava com um sorriso. 
     A voz do meu pai de manhã, o seu beijo e o seu toque eram algo totalmente novo. O meu pai chegou à cozinha com uma t-shirt verde e as calças de ganga pretas.  Cumprimentou avó. Surpreendi-me porque ele estava de t-shirt. Nunca na minha vida vi um imortal vindo do Universo de t-shirt, que milagre. Pode ser que Mercúrio e Sol aprendam com o meu pai.
      Mercúrio, logo atrás do meu pai, apareceu na cozinha, com o tronco nu. Bem, parece que ele não aprende facilmente as coisas.
- Sabes, podias muito bem seguir o exemplo do meu pai - comentei. Mercúrio olhou para mim, intrigado - Podias aprender a vestir uma t-shirt.
- Sou demasiado velho para essas tretas de t-shirt. Para que é a inventaram também? Antigamente não era assim.
- Eu cá acho que o Mercúrio não precisa de t-shirt - falou avó, baixinho, mas todos ouvimos.        
     Começou a corar quando eu e o meu pai nos rimos. Mercúrio que estava perto da porta da cozinha, avançou para perto da avó e deu-lhe um beijinho na bochecha e ajudou-a com o que faltava do pequeno almoço. O meu pai sentou-se ao meu lado, a comer torradas com doce e leite com café.
A cadeira que antes era ocupada por Sol estava vazia. Parecia que ele nem tinha voltado. A sua presença cá em casa era como a de um fantasma. Mas eu sabia que ele estava cá, sabia e sentia. A sua dor não desaparecera, não espero que desapareça assim tão rápido. Tinha-me conformado com isso. Mas gostava de vê-lo, gostava de poder ver um sorriso vindo dele, mesmo que seja falso ou para outra pessoa, outra mulher. Só o quero ver bem.
     A seguir ao almoço, Sol acordou. Ouvi o seu estrondoso andar pelo corredor até às escadas. De certo que estaria a morrer de fome. Antes de descer, fui preparar-me para o treino. Estava animada, ia treinar os meus poderes e finalmente tinha algo com que treinar!
     Desci as escadas e o meu olhar automaticamente parou em Sol. Sorri timidamente.
     Mercúrio e avó estavam no jardim, perto ao muro que o limitava, e o meu pai estava sentado à sombra da grande árvore. Mercúrio teve a necessidade de berrar com Sol. Chamou-o e este veio cá para fora mal humorado. Avó começou a dizer que íamos treinar, mas de repente, proferiu estas palavras:
- Luna, tu vais projetar forças do Ar contra Sol, em forma de ataque.
      O meu choque de surpresa e nervosismo era evidente. Atacar Sol? Ele é que iria atacar-me ou pior!
- Mas eu não sei fazer isso avó - falei com os olhos postos em Sol, tentando descodificar a sua expressão.
- Sabes sim, basta concentrares-te. - respondeu-me calma e virou-se para Sol - E tu vais proteger-te ou contra atacar.
      Engoli em seco. Senti o nervosismo de Sol na minha barriga e soube que ele iria proteger-se. Porém, algo nele queria atacar-me e fazer-me perceber o quão magoado ele realmente está. Ele não está a mostrar tudo o que sente e iria mostrá-lo neste e nos próximos treinos. Eu merecia. E até preferia assim. Significa que ele está aqui comigo, e não me vai abandonar outra vez. Mais vale tê-lo chateado do que longe. Pelo menos tenho-o aqui, a poucos metros de distância.
     Avó começou a dar-me instruções. Mandou Sol afastar-se um pouco mais e disse-lhe que quando atacasse, escolhesse o que seria melhor: proteger-se ou atacar-me. Ela levantou os braços, fechou os olhos e colocou as mãos juntas, baixando-as até ao nível do peito, lentamente. Disse-me para imitá-la e concentrar-me no Ar, no seu poder, na sua energia. E que quando o poder estiver todo canalizado no meu alvo - Sol - que abrisse os olhos e projectasse essa força nele.
      Assim o fiz. Fechei os olhos, levantei os braços e uni as minhas mãos, e lentamente fui baixando-as ao nível do peito, concentrei-me Sol e em atingi-lo. Tinha de conseguir isto, tinha de ver a reação dele. Quando o meu poder ficou todo concentrado no meu alvo, abri os olhos como avó dissera e estendi as mãos em direção a Sol e uma rajada de vento surgiu a partir dos meus dedos. Sol desviou-se do meu ataque como se fosse apenas um inseto a perturbá-lo. E soube, por ele, que ele iria contra atacar.
     Ele estendeu as mãos em direção a mim e num piscar de olhos, bolas de fogo surgiram na minha direção. Tinha de fazer algo. Não ia deixar-me cair por umas bolas de fogo completamente poderosas e mortíferas. Raios, estava completamente assustada! O meu nervosismo estava a interferir e eu bloqueei. Vindo do nada, avó gritou:
- Protege-te Luna!
      E tentei. Concentrei-me em Sol, concentrei-me no meu poder e lancei-lhe um tornado cheio de força que apagou as bolas de fogo. Sol riu-se. Riu-se. Mas que raio? Só me apetecia chegar-me a ele e perguntar o que estaria ele a fazer. Mas controlei-me, deixei-me estar. Ignorei.
     Avó veio em direção a mim e foi nesse momento que surgiu a mais brilhante luz que conseguia cegar-me. Mas para Sol, Mercúrio e meu pai era como se fosse uma simples luz de um pirilampo. A luz lentamente ia enfraquecendo dando forma a uma elegante mulher.
- Vénus? - perguntou Sol.
- Olá, meu querido. 

Now I Have You #26



Luna 


     O meu corpo queria permanecer imóvel até desaparecer totalmente. Tudo na minha vida estava um caos. E só o tempo, e talvez nem mesmo isso, iria sarar as feridas que causei.  
     Levantei-me e obriguei-me a tomar um banho demorado. Mergulhei o meu corpo na água quente e deixei o seu calor purificar-me. Estava em total repouso. A minha mente adormeceu e acalmou-se até que bateram à porta. 
- Entra - gritei - estou a tomar banho. 
- Luna, despacha-te. Sol quer falar connosco - disse avó. 
      O meu coração saltitou ao ouvir o nome Sol, e saltitou ainda mais por ele querer falar. 
- Já vou avó. Obrigada. 
     Saí da banheira e vesti-me rapidamente. Não ia ter a lata de chegar atrasada. 
      Corri as escadas e antes de me virar para a sala, aprontei-me. Não ia parecer uma stressada e desarrumada. Os olhos de Sol nunca foram postos em mim e evitavam isso a todo o custo. Sentei-me na minha poltrona e Persifal roçou no meu pé, a tremer. Coloquei-o no meu colo. Avó já estava sentada no sofá com Mercúrio e Sol encontrava-se de frente para todos nós, sentado no sofá da frente. 
- Queria pedir desculpa por ter partido sem qualquer aviso - começou Sol. - E por isso, quero contar-vos o verdadeiro motivo de ter partido - os olhos tristes de Sol foram postos em mim.
      Corei. 
- Antes de ir embora eu e a Luna tínhamos discutido sobre o seu pai, e eu não suportava... - hesitou - Não suporto estar chateado com ela e queria, quero, vê-la bem. Por isso, decidi continuar com as buscas por Plutão. 
     O meu coração parou por momentos: Sol foi procurar o meu pai. Ele foi-se embora por um motivo maior e eu... E eu traí-o. Mas eu não sabia, não tinha como saber. Sol não me avisou, Sol não me contou nada... O nervosismo e a culpa de repente atacaram o corpo de novo. Sol estava com os olhos postos em mim e eu senti que ele tentara acalmar-me. De certeza que ele não quer sentir o que eu sinto, de certeza que ele não quer ter mais nada a ver comigo. 
- Foste procurar o meu pai, Sol? - perguntei sem estar à espera duma resposta. 
- Fui Luna e encontrei-o. 
      Os meus ouvidos não queriam acreditar no que tinham acabado de presenciar. Sorri. Queria abraçar Sol, dar-lhe um beijo de agradecimento, mas eu não podia. Portanto não me movi.
- Obrigada Sol, obrigada mesmo.
      Encolheu os ombros - Fiz o que me pareceu correto - e deixou de me encarar.
     Tentei ignorar mas as palavras dele feriram-me. Porém, a ideia do meu pai começou a pairar sobre mim. A avó não ligou à nossa estupidez e perguntou: 
- Se o encontras-te, onde está ele? 
- Lá fora - as suas palavras saíram naturalmente, como se não significassem a mudança da minha vida. 
- Estás a falar a sério? - perguntei, perplexa. 
- Sim. 
      Tirei Persifal do meu colo, fui em direção à porta e quando estava prestes a abri-la, parei. Deveria mesmo conhecê-lo? Não sei. Queria mesmo conhecê-lo? Sim... Sim, sim!
     Abri a porta que me separava do meu pai e vi-o. Um homem alto, com uma aparência perfeita e intemporal, e como os outros, trazia só umas calças de ganga vestidas. Reparei no seu nervosismo, mexia as mãos tentando controlá-lo e de repente colocou os seus olhos azuis acinzentados em mim. 
- Luna - proferiu o meu nome com nervosismo e ansiedade. 
       As lágrimas vieram automaticamente e corri para ele. Abracei-o fortemente. 
- Pai - sorri por entre as lágrimas.
- Desculpa-me Luna, nunca devia ter-te deixado - disse enquanto me abraçava. Tentava conter as lágrimas. 
- Estás aqui agora, é o mais importante - assegurei-lhe enquanto sentia o seu perfume fresco e novo. 
     Senti os olhos de avó, Mercúrio e Sol postos em nós os dois. 
     Não queria deixar o abraço do meu pai, tão seguro, tão protetor. Tudo o que eu alguma vez imaginei. Fomos para dentro, a avó falou com ele um pouco, assim como Mercúrio. O meu pai agradeceu a Sol por o ter trazido até mim e eu e ele fomos para o alpendre do jardim conversar. 
- Eu sei que tens muitas perguntas para mim - começou - e eu estou disposto a responder a tudo. 
      Fitei-o - A Lua disse-me que a mãe morreu porque tinha o coração partido. O que aconteceu pai? - fiz uma pausa e logo acrescentei - Porque não estavas lá? 
      Respirou fundo meio que revivendo as memórias e respondeu finalmente: 
- Estava tudo bem entre nós, Luna, estava mesmo. Podias nascer a qualquer momento e isso era a alegria dos meus dias. Mas eu não podia ficar muito tempo cá, tu sabes disso. Plutão não pode simplesmente desaparecer. Eu queria ficar, tratar de ti e da Mel, mas eu não podia. E isso foi daquelas coisas que mais me custou fazer. Quando voltei, era tarde de mais. A vida na Mel tinha desaparecido, os seus olhos já não brilhavam... E lá estavas tu. Pronta para receber todo o carinho que eu não conseguia dar. 
- E foi por isso que deixaste-me com a avó. 
- Foi - encarou-me - Eu sabia que ela iria tomar conta de ti melhor que eu. Na altura, no começo - corrigiu -  eu só via a Mel nos teus olhos e apercebia-me que nunca mais iria estar com ela. 
- Mas eu não tenho culpa disso.
- Tenho eu.  A Mel morreu por minha causa. 
- Não penses assim - aproximei-me dele e abracei-o por baixo do seu braço, ele abraçou-me com ele - A mãe ama-nos muito, e ela agora está em paz. 
- Eu acho que já não posso estar em paz comigo próprio se tenho esta culpa em cima de mim. - suspirou e abraçou-me forte - Por isso nunca retornei. Nunca achei capaz de te dar aquilo que tu precisavas, especialmente ao notar que crescias tão bem sem mim - pausou. - Apercebi-me que és o meu melhor e maior feito, Luna, a minha filha. Agora tenho-te a ti.
- Para sempre - garanti-lhe e abracei-o de volta.
      Agora tenho a ti. Estas palavras marcaram o meu coração. Apesar de não ter ultrapassado o facto dele me ter abandonado, eu tinha-o. Eu o meu pai estávamos finalmente juntos e eu não ia abdicar dele, nunca. E sabia, sabia mesmo, que o meu pai nunca mais iria abdicar de mim. A parte dentro de nós que estava vazia agora está completa e juro que consegui sentir a minha mãe perto de nós, e a nossa família estava finalmente unida e forte. Para sempre.
      Eu não tinha tempo nem vontade para pensar em Sol neste momento. Se pensasse nele era o quão agradecida estava por ele ter trazido o meu pai para mim.
      Depois de jantarmos, depois de muitos risos, muitas conversas e muitos abraços, Mercúrio, avó, o meu pai e eu fomos para o alpendre do jardim contemplar a Lua maravilhosa que brilhava no longo e infinito céu. Nesse momento decidi falar com avó e com o meu pai sobre a minha afinidade com o ar, visto que Mercúrio já sabia. Decidi não lhes contar sobre as minhas visões. Eles rapidamente iriam adivinhar quando tivesse alguma e eu não os queria no meu pé.
- Avó, pai, tenho algo para vos mostrar - Mercúrio leu o olhar no meu rosto e percebeu.
- Mostra querida - disse avó.
     Senti o carinho da Lua na minha pele. O Ar rapidamente tomou o meu corpo e fechei os olhos a sentir o seu poder. Assim que a sua força chegou às palmas das minhas mãos, sussurrei Ar.
     À nossa volta, uma brisa quente e azul esvoaçou. O brilho era impressionante e acolhia-nos como se pertencêssemos ao seu domínio como aves. Os olhos de avó, Plutão e mais uma vez, os de Mercúrio, ficaram impressionados a olhar para a magia à nossa volta e para mim.
     Avó sorriu para mim e sussurrou algo. Abriu as suas palmas e uma aragem calma e quente flutuou entre nós. Os nossos poderes combinaram e os ares uniu-se. Numa canção mágica a brisa à nossa volta voava por entre os cabelos soltos meus e da avó, as flores, e os olhos de Mercúrio e do meu pai estavam deslumbrados. Eu estava deslumbrada. Tudo isto, vindo de mim, vindo da avó, vindo de nós.
      O pesadelo deu lugar ao sonho, a tristeza por momentos desapareceu e a magia e a alegria cavalgaram o espaço entre nós como se não houvesse amanhã. E eu sentia-me fantástica, sentia-me livre. 

bright petals.