Underneath: Silver #23

     Troy, durante o resto da tarde, focou-se em treinar o Ar e em domá-lo. Ryan e Catarina trabalharam com armas como adagas, facas, arco e flecha, e havia uma espada que apenas Ryan atreveu-se em mexer. As gémeas praticaram alguns ataques com os poderes, mas elas já os conheciam a todos. Não havia nada de novo em que trabalhar. Portanto, elas esgueiraram-se para a zona de treino de Ryan e Catarina. Ele estava a escolher uma adaga para acertar num alvo mais distante quando Melody se aproximou da mesa com as armas. 
- Precisas de ajuda? 
- Estou bem - disse, sem fitá-lo.
     Ela ia escolher uma adaga fina que servia somente para lutas corpo a corpo. Se ela quisesse uma para atirar, aquela não era a melhor opção. 
- Se queres atirar aos alvos, essa não é a melhor escolha - explicou. Melody nada lhe disse. Ryan escolheu uma faca mais grossa de dois gumes. A pega tinha relevos gravados. - Esta, toma - e estendeu-lha. 
- Porque estás a ser assim comigo? 
- Assim como? - perguntou, surpreendido. 
- Simpático - fitou-o e cruzou os braços. A altura dele obrigava-a a olhar ligeiramente para cima. 
- Não queres a minha ajuda? Se quiseres posso voltar a ser um idiota para ti outra vez. 
- Pelo menos admites - pegou na arma e avançou para um alvo. 
- Eu tive as minhas razões - disse-lhe ao ouvido, mas quando Melody se virou, ele não estava por perto.


◄◊►



- Silver, isto não vai resultar - disse Troy. 
- Claro que vai! 
     Violet segurava no arco com uma flecha direccionada à Estrela. 
- Só tens de mudar a direcção da seta e certificares-te que ninguém morre no processo - acrescentou o Planeta. 
- Estou mais descansado agora, obrigado. 
- Tu consegues, Evans. Mas espera até eu estar num local seguro - gozou Ryan. 
- Não sei se quero fazer isto - falou Violet. 
- Não te vai custar nada - Silver aproximou-se dela. - Confia no Tema, Vénus - murmurou. Os seus olhos pareciam conter uma tempestade.
     Violet não gostou do que ela disse mas ignorou.
- Tudo bem.
     Melody, Catarina e Ryan estavam sentados no banco de pedra. Ryan estava super entusiasmado que nem pensava nas consequências. Já as raparigas - Catarina principalmente - temiam que algo corresse mal. Violet tinha os nervos à flor da pele. Não queria lançar mas Silver não lhe dava outra hipótese. Troy tinha os braços estendidos ao nível do rosto e não transparecia o quão nervoso realmente estava. Treinou umas boas horas, mas não estava seguro dos seus poderes. Silver, por outro lado, estava mais que convencida.
- Vamos! Ao um - disse Silver.
     Violet recolocou a seta no arco, ajustou a posição das ancas e dos pés e fez pontaria, agarrando no fio com dois dedos.
- Três... Dois...
     Ela fechou os olhos e respirou fundo.
- Um!
     Violet abriu-os e a flecha percorreu o seu caminho até à Estrela.
     Troy viu a flecha a ir na sua direcção com tanta velocidade que num momento tudo ficou em câmara lenta. Já não sentia os braços bambos e os pensamentos tinham acalmado muito. Fechou os olhos e estendeu mais os braços. Concentrou-se no que aprendeu: o Ar é o elemento da liberdade. Portanto, ele libertou-se do medo e deixou o Ar encher aquele receio até desaparecer por completo. Por fim, quando finalmente abriu os olhos, uma onda de ar saiu-lhe das palmas das mãos e a seta foi parar ao tecto, caindo no chão. A seta já não parecia assim tão assustadora quando aterrou junto aos seus pés.
- Muito bem - disse Silver. - Tens de começar a confiar no que te digo e em ti.
     Violet apertou o arco e sorriu ao ver a seta no chão, aos pés de Troy. Ryan, Catarina e Melody aproximaram-se da Estrela.
- Conseguiste, Evans - disse Ryan, a por uma mão no ombro dele.
     O olhar de Troy encontrou o de Violet. Ela sorriu e o olhar dela apanhou-o como uma armadilha. Violet foi de encontro a ele.
- Quase me mataste, Violet - sorriu.
- Ainda bem que não o fiz.
- Troy - chamou Catarina.
     Troy fitou-a, tirando a sua atenção de Violet.
- Vamos lanchar? - perguntou ela.
- Vamos - respondeu.
         Troy pegou num prato e serviu-se das várias coisas à sua disposição. Enquanto pegava numa sandes de frango, pelo canto do olho, viu Violet esgueirar-se para o pátio. Julgou que Melody ia atrás dela mas a gémea permaneceu na sala. Troy pousou o prato na mesa e foi atrás dela. Violet estava sentada na sombra do carvalho no jardim.
- Isto é um bom esconderijo - disse ele, agarrando-se ao tronco. Violet saltou de surpresa. Ele sorriu. - Desculpa. Não queria assustar-te.
- Não faz mal - abanou a cabeça.
     Ele sentou-se ao lado dela. Violet estendeu-lhe o prato e ele tirou uma bolacha.
- Está tudo bem contigo?
- Sim - ela não mentiu, mas não tinha dito completamente a verdade -, e contigo, Estrela Vital?
     Troy sorriu. Passou a mão pela nuca.
- Isso é um grande nome. Ainda não sei bem o que significa - admitiu.
- Vais descobrir ou morrer a tentar - disse ela, a fitar Anora, com um tom dramático.
- Isso foi... Terrível - eles riram-se. Violet fitou-o. - Posso? - e apontou para as bolachas.
- São boas não são?
- As melhores! Onde será que ela foi buscar isto?
- Prefiro não saber, sinceramente - sorriu.
     Troy encostou-se ao tronco da árvore. Na galáxia dele não havia nada que se comparasse com os raios quentes do Sol, mas Anora iluminava Sebraryan com tanta intensidade que aquecia. Violet olhava para o astro e a sua luz incidia mesmo no seu rosto, iluminando o rosto levemente bronzeado, os olhos cor de âmbar e céu e o cabelo agora com reflexos avermelhados. Ela parecia uma imagem saída do quadro com aquela paisagem mágica como fundo. Ele foi, de súbito, invadido por sentimentos que o assolaram quando a conheceu. A atracção, a intriga, a curiosidade. Troy apercebeu-se que não conhecia assim tão bem a pessoa ao seu lado e queria, decididamente, saber mais.
- Treinas comigo amanhã? - ele perguntou.
- Não sei se devia.
- Porque não?
- A Silver quer-te só para ela e a Ca...
- Disparates - disse, interrompendo-a. - Treinas comigo. Combinado?
      Troy colocou um sorriso que a obrigou a aceitar a proposta dele. Ela aceitou a proposta e disse a si mesma que era só um treino. Um treino tão inofensivo quanto o tempo que eles acabaram por passar debaixo daquele carvalho a comer tudo o que havia no prato dela. Como amigos. Simplesmente amigos. Violet e Troy não estavam certos do que se passava entre eles. Sabiam que eram amigos. Sabiam que se apoiavam mutuamente e que iriam sempre proteger-se um ao outro mesmo conhecendo-se há tão pouco tempo. O porquê de terem sempre a retaguarda um do outro ainda era um mistério para um deles, sendo que um se limitava a perguntar se aquilo era real ou não. E se não fosse, sempre era uma calorosa ilusão. 


◄◊►




     Assim que a noite se envolveu com o céu, Melody teve o mesmo sonho que a perseguia. A criatura rastejava atrás dela numa rua pintada de laranja e medo, terror e vermelho. As garras do monstro subiram e no instante que ele estava prestes a pregá-las no seu rosto, ela acordou sobressaltada. Aquilo iria persegui-la para sempre se não voltasse para o seu planeta. Não queria voltar. Não sabia como iria derrotar este medo. Ela já viu como isto afecta todos à sua volta e não podia continuar a ignorar. Ela levantou-se e acordou a irmã. As duas foram para a casa de banho.
- Vi... Acho que chamei a criatura - disse Melody, a abraçar-se a si própria.
- Como assim?
- Sonhei com ela. E quando sonho, ela volta - respondeu, a olhar envolta.
- Está tudo bem - Violet abraçou a irmã. - Não há razão para teres medo. Estamos todos aqui contigo.
- Tens a certeza?
- Absoluta - pegou-lhe na mão. - Vamos para o quarto. A minha cama tem espaço suficiente para as duas.
- Da maneira que tu dormes devo acabar no chão, independentemente do tamanho da cama.
- Verdade. Mas sempre é mais quentinho - observou.

     Por mais fácil que fosse, ela não conseguia agitar a sensação de alarme que tinha. Ela não conseguia ignorar a sensação. Parecia que subia do seu estômago até à garganta e ficava lá presa causando uma sensação terrível de medo. Violet estava ao seu lado e embora a sua presença lhe causasse uma certa calma, Melody não conseguia dar-se ao luxo de respirar normalmente e simplesmente dormir. Ela saiu do quarto de fininho e percorreu o corredor, abrindo portas e fechando-as. Acabou por ir ao pátio onde ficou de frente para a mesa de armas e pegou na faca que Ryan lhe tinha indicado. Era tão bonita que parecia absurdo ter sido feita para lutar e matar até. Ela agarrou na arma e foi para a zona de alvos montados pela Silver. Posicionou os pés e visualizou a cara do monstro que a assombrava há demasiado tempo. Era agora. O seu medo não ia ser mais um obstáculo para ninguém, inclusive para ela. Melody era melhor que isso. Eu sou melhor que isso. Eu consigo. Porque não haveria de conseguir? Tem os meios para tal, só tinha de atingir o fim. 
     Ela agarrou na faca com o polegar bem assente na pega decorada e ao ver os olhos vermelhos da criatura brilhar naquele alvo, lançou a faca que acertou em cheio no meio daqueles olhos. A criatura explodiu e um zumbido impossível de ignorar rodeou o palácio inteiro. 
     O ar estava impregnado com nevoeiro, Escuridão e fragmentos vermelhos. Melody tinha caído no chão e levantou-se logo a seguir. Não conseguia ver nada. O ar era só fumo e pigmentos vermelhos incandescentes. Ela sentiu os braços de alguém à sua volta. Violet. Viu Troy e Ryan perto da entrada para o pátio com Catarina logo atrás. A Estrela começou a fazer gestos com os braços e as mãos como uma dança e surgiu um vento que limpou o espaço à volta deles. Silver materializou-se perto do carvalho e os olhos dela arregalaram-se. Melody olhava envolta à procura e ao ver um brilho vermelho reflectir-se no gume da faca, ela soube que a criatura não tinha ido. 
- Troy! - gritou Melody. 
     O monstro surgiu do nada com os tentáculos em movimento e Violet abriu a palma da mão donde saiu uma luz tão forte que nem Silver conseguiu manter os olhos abertos. Melody não podia acreditar que estava tudo a acontecer de novo. Como podia estar a acontecer tudo de novo? Não era possível... Não podia ser... 
      Troy correu para as gémeas e os cinco ficara reunidos de novo. Silver ao abrir os olhos viu uma luz circular entre o grupo e ela soube que eles se iam embora. 
- Tema! Não te atrevas - gritou. 
      Silver começou a correr para eles mas já não havia maneira de o impedir. A luz ficou mais forte e houve a sensação de flutuar. Os cinco começaram a subir e a Estrela impulsionou a luz dando mais energia e eles desapareceram de Sebraryan. 


◄◊► 



     Independentemente de onde eles tenham ido parar, o monstro seguiu-os. O monstro seguiu Melody. Apesar de todas as tentativas, Troy não conseguia abatê-lo. Melody ordenou que todos fossem para trás dela e com a ajuda da irmã criou um vendaval que engoliu a criatura. Ela iluminou os ventos e a criatura foi-se misturando com o Ar e a Luz, desaparecendo apenas por algum tempo. 
- Melody, o que aconteceu para isto te seguir? - perguntou Troy. 
- Conto-te mais tarde, pode ser? Temos de descobrir onde estamos. 
- Acho que é um pouco óbvio - comentou Troy.
- Ai sim? Então, diz lá, onde estamos, génio? 
- Em Qaya - respondeu. 

Underneath: Silver #22

     Ele acordou pensando que o dia de ontem tinha sido um sonho louco. Contudo, assim que pôs os olhos em Anora, deu-se conta da realidade. Levantou-se bruscamente e foi atingindo por uma dor terrível que o colocou tonto por alguns momentos. O corte que tinha nas costas ainda lhe doía muito, apesar de ter tratado dela depois do banquete e depois do banho. Não sentiu dores enquanto dormia, talvez por estar demasiado cansado ou pela maravilha que era a pomada dada por Silver. Talvez as duas. 
     Ryan levantou-se com cuidado e viu o melhor amigo de pijama. Assumiu que ele devia ter ido dormir tarde depois de ter adormecido cedo de mais. Não quisera acordá-lo no momento. Troy merecia algum descanso depois da loucura no jardim das gémeas. Todos eles mereciam um descanso depois da loucura no jardim das gémeas. Mas, afinal, o que tinha realmente acontecido lá? Como é que aquela criatura surgiu? Porque é que Melody ficou tão assustada?
     Ryan dirigiu-se para a casa de banho. Estava tão distraído a tentar unir os acontecimentos no jardim que não viu Melody a ir contra ele. Ela parecia muito cansada. 
- Bom dia - disse ele. Melody não lhe respondeu e encaminhou-se para o quarto dela. - Tão simpática logo de manhã - murmurou depois de ver a porta do quarto fechar-se. 
     Entrou na casa de banho e lavou o rosto. Queria muito tomar um banho mas não tinha roupa lavada. A sua t-shirt tinha um rasgão na parte das costas, os calções estavam molhados. A única coisa usável que tinha era os calções de pijama que tinha vestido e a t-shirt a condizer que acabou por não dar uso devido à ferida nas costas. Ryan só esperava que não desse uma cicatriz porque se desse tinha muito que explicar aos seus pais...
     Os pais. O que lhes iria dizer sobre ter desaparecido da Terra? Literalmente. Passou quase um dia desde a última vez que eles o viram. Os pais eram capazes de pedir ao FBI uma equipa especial se pensassem que ele tinha sido raptado ou algo de mal lhe tivesse acontecido. Só de pensar nisso sentia-se mal. Não queria causar mais complicações e tristezas aos pais. Eles não mereciam.  
     Não queria acordar Troy mas tinha de o fazer. Ele tinha de voltar pelo menos para avisar os pais que estava tudo bem. 
- Troy - chamou baixinho. - Evans - murmurou. - Troy nem se mexia. Ryan decidiu berrar. - EVANS. 
- Que bicho te mordeu, Bennett? É de madrugada, vai dormir - disse, e puxou os lençóis para cima. 
- É importante. O que fazemos em relação aos nossos pais? Não podemos simplesmente desaparecer. 
     Troy não lhe respondeu de imediato e ficou parado no lugar. Depois bocejou e ficou com um olhar muito sério. Finalmente sentou-se.
- Eu falei com a Silver sobre isso e...
- Quando é que falaste com a Silver? Tu adormeceste assim que chegaste ao quarto. 
- Acordei a meio da noite e fui tomar banho. Quando voltei ela estava à minha espera para falarmos. Eu disse-lhe que não podíamos ficar e ela - Troy pausou e corou ligeiramente.  
- Evans? 
- Ela disse que íamos falar sobre isso hoje - concluiu. 
- Está tudo bem? 
- Claro - disse. Aclarou a garganta. - A tua ferida melhorou? 
- Sim. Depois de dormires a Silver mexeu uns cordelinhos e melhorou um pouco a ferida. Mas ainda dói um pouco. Talvez peça à Violet para fazer aqui uma magia qualquer de maneira a não ficar com uma cicatriz. 
- Se ficasses com uma cicatriz estavas tão morto - Troy riu-se. 
- Mais valia nem aparecer em casa, sinceramente. 
- Meninos - disse Silver da porta. Nenhum dos dois a ouviu entrar. - O pequeno-almoço está pronto. Desçam quando quiserem. 
- Estou esfomeado - disse Ryan. - Vens, Evans? 
- Vou atrás de ti - disse Troy, a temer o comportamento da Silver.

     Eles desceram uma pequena escadaria e viraram à esquerda, abrindo umas portas altas e esbeltas que davam para a sala onde eles iam tomar o pequeno-almoço. As gémeas e Catarina já estavam na mesa. Troy sentou-se ao lado de Catarina e Ryan ao lado de Violet, à frente de Troy. Começaram a comer e Silver apareceu. Parecia deslizar no vestido prateado. O cabelo liso estava preso atrás caindo-lhe pelas costas. Tinha um sorriso que não mostrava os dentes no rosto e Ryan não podia deixar de pensar que ela era uma verdadeira deusa.
- Está tudo do vosso agrado?
- Sim, obrigada - disse Violet.
- Ótimo. Quando acabarem de comer, espero-vos no pátio.
- Silver, preciso de - começou Ryan.
     Ela interrompeu-o.
- Já tratei de tudo, Ryan Bennett. Deixei roupas novas nos vossos quartos. Até já - disse e saiu.
- O que se passa? - perguntou Melody. Ela, como da última vez, nem pensou nas palavras que disse e quando deu conta da intromissão percebeu o erro que cometera. Melody estava à espera do olhar chateado do Ryan. No entanto, não foi isso que recebeu apesar do tom na voz dele soar ainda desconfortável com a curiosidade dela.
- Eu e a Catarina, principalmente, não podemos ficar.
- Porque não? - perguntaram as três raparigas.
- Por causa dos nossos pais. Eles já devem estar alarmados o suficiente de nenhum de nós estar em casa - disse Ryan, apontando para os melhores amigos.
- Podes teletransportá-los?
- Não sei. Não faço ideia como consegui por-nos aqui sequer.
- Precisamos de arranjar uma maneira então. Não posso causar mais aflições aos meus pais - admitiu ele.
- Nós vamos arranjar uma maneira. Só espero que a Silver não tente fazer-nos ficar demasiado tempo.
     Depois de comerem e antes de irem vestir-se, Violet ofereceu a Ryan uma sessão de Cura que lhe eliminou o corte das costas sem deixar rasto. Em seguida, cada um foi para o respectivo quarto e descobriram, enfim, as roupas oferecidas por Silver. Os rapazes tinham uma camisola, sem mangas nem botões, com colarinho mandarim, ornamentada por símbolos alusivos à água nas aberturas da camisola. As calças era pretas e ficavam entre o justas e o confortável. Os sapatos eram botas de cano que ia a meio da canela.
- Como estou? - Troy perguntou, a fazer uma pose.
- Parece que saímos dum filme medieval combinado com Game Of Thrones e cabedal - admitiu Ryan. - Será que as miúdas vão estar todas de vestido? Oh, elas vestidas à Margaery! - Troy lançou-lhe um olhar. - Excepto a Cat, claro.
- Pois, sim - sorriu-lhe.

     Quando eles se encontraram no pátio coberto, Ryan ficou aborrecido pelas raparigas estarem vestidas tão normalmente. Melody tinha uma camisola de mangas até ao cotovelo e uma saia. Violet tinha uma camisola do mesmo género, apenas diferenciava no tamanho mais curto da manga e no decote, e tinha calções de cintura alta. Ambas tinham botas calçadas. Catarina tinha uma camisola saída dum filme de piratas, ao ver de Ryan, e calças de cintura alta. Das três era a que mais se parecia com eles, se não fosse as botas de combate de cabedal falso.
- Porque é que vocês estão vestidos assim? - perguntou Violet.
- Foi a roupa que ela nos deu - Troy respondeu.
- Porque não temos roupas normais também? - Ryan resmungou.
- Eu até que gosto de ver esses braços de fora - comentou Catarina, a avaliar Troy.
- Concordo plenamente, Catarina - disse Silver, a entrar graciosamente pelo pátio. - Hoje quero explorar os teus poderes, Tema.
- Trata-me por Troy. O meu nome não é Tema. E, primeiro, Silver, quero falar contigo sobre teletransporte. Nós não podemos ficar aqui mais tempo.
- Tema, tem calma - disse-lhe. - Se eu disser que o tempo aqui é diferente, tu acreditarias? E se eu te dissesse que na Terra só passou quinze minutos desde que desapareceram?
- Eu diria para o provares.
- Gémeas, tentem contactar os vossos pais. Mais especificamente o vosso pai. Ele é a Estrela da vossa galáxia, logo partilham uma outra ligação sem ser de parentesco. Se vocês forem capazes, conseguirão ver pelos olhos dele o seu presente.
- Tudo bem. Queres tentar? - murmurou Melody. Violet assentiu.
     As gémeas deram aos mãos e fecharam os olhos. Violet apertou a mão da irmã e a primeira tentativa foi uma autêntico falhanço.
-  Não conseguimos.
- Tentem outra vez. Encontrem a ligação entre vocês e a vossa Estrela.
     Elas assentiram e tornaram a fechar os olhos. As gémeas ficaram muito quietas até tudo ficar negro debaixo das suas pálpebras e através do escuro encontraram uma faísca dourada que as levaram directamente para a mente do pai. Violet estava a ceder e Melody apertou-lhe a mão de modo a não se render. Não sentiam dores, mas estavam a perder força. Os olhos do pai mostraram o quarto dos pais e a mãe a andar em círculos. Pela luz, devia ser ainda horas de almoço. A mãe ainda vestia a roupa daquele dia e tinha uma ferida fresca no ombro de um ataque da criatura. O cabelo negro dela estava despenteado e os olhos vermelhos. As gémeas sentiram uma sensação estranha e como se o pai se tivesse apercebido, expulsando-as da sua mente. Elas abriram os olhos.
- Ela tem razão.
- Passou muito pouco tempo desde que teletransportá-mo-nos.
- Acreditas em mim agora, Tema?
- Troy. E, sim, acredito.


◄◊► 



     Melody, Ryan, Violet e Catarina sentaram-se num comprido banco de pedra e observaram o que Silver obrigava Troy a fazer. A Estrela começou por invocar os poderes que já conhecia: gelo e luz. Depois, quando finalmente passaram para o seu elemento principal - Ar -, foi uma complicação.
- Tema, basta concentrares-te - dizia Silver num tom manso.
- É Troy. E não consigo.
- Claro que consegues. Está em ti. Concentra-te.
     Troy colocou as palmas das mãos ao nível da cara e fechou os olhos. Concentrou-se em fazer apenas uma brisa leve, um sopro somente, e mesmo assim não conseguia. Apesar da força e concentração toda que aplicava, o Ar não se manifestava.
- Tema - começou Silver.
     Troy estava farto de ouvi-la a chamá-lo de Tema. Aquele não é, nem nunca será, o nome dele.
- Silver, o meu nome é Troy!
- Concentra-te - Silver colocou um olhar furioso que não combinava com a serenidade do seu rosto. - Respira fundo. Abre a mente, concentra-te. Deixa o teu elemento libertar-te.
     Pela milésima vez, ele lá tentou outra vez. Fez o que ela disse. Respirou fundo, fechou os olhos, concentrou-se na brisa que queria fazer. Sentia uma arrepio a percorrer os braços e como se tivesse levantado voo, sentia-se livre. Ele abriu os olhos e deu impulso para uma rajada de ar sair-lhe das mãos mas nada aconteceu. Nem uma brisa de verão ou um sopro. Apenas o riso de Ryan se ouvia. Troy lançou-lhe um olhar irritado. Como se não bastasse não conseguir manifestar o seu elemento ainda tinha de ouvir risos. Silver aproximou-se dele gentilmente e colocou as mãos de dedos finos nos ombros dele.
- Tema - sussurrou.
     E foi a gota de água. Troy virou-se bruscamente, completamente furioso. O nome dele não era Tema, raios. Qual era o problema dela?
- O meu nome é Troy  - disse e uma enorme rajada de vento saiu-lhe das mãos. Silver foi levada pela rajada até ao fundo do pátio mas aterrou como se nada tivesse acontecido. Ele conseguiu ver o sorriso triunfal dela. - Ar - Troy murmurou, satisfeito e sem fôlego. 


◄◊► 



     Na Via Láctea, o sistema solar virou um frenesim. A energia que Troy soltou ao teletransportar-se acordou a ira dos Planetas e não demorou muito até eles se reunirem todos. Júpiter convocou uma reunião no seu planeta e logo apareceram os restantes. A reunião decorreu-se na Estrela, numa sala escura onde as paredes refletiam as luzes do Universo. Havia uma mesa dourada e cadeiras de costas altas do mesmo tom. Eram a única coisa na sala.
     Saturno e Mercúrio foram os primeiros. Seguido de Terra e Neptuno.
     Cada um dos Planetas vinha com roupas formais, excepto Mercúrio que já não dava uso a tais códigos. Saturno não aprovava deste desleixo. 
- Vocês sentiram? - perguntava Jade, a Terra, num sotaque acentuado. 
- Quem não sentiu? Mas será mesmo ele? - perguntou Saturno. 
- É mesmo ele - assegurou Mercúrio. 
- Tens a certeza? Mercúrio... - começou Neptuno, com a voz calma. 
- Tenho, Neptuno. Eu sei da existência dele desde que morreu - disse. - A Lua uniu a alma da Vénus à do Tema e por isso, eles vão sempre encontrar-se. Se ele morre, ele renasce e reencontra mais uma vez a Vénus. E neste contexto, a Vénus é a minha bisneta. 
- A filha do Sol e da Lua - disse Saturno. 
- Sim - Mercúrio respondeu. 
- Então se é mesmo ele, quer dizer que já encontrou os seus poderes - observou Neptuno.
- Temos de fazer alguma coisa. Não vou deixar a Violet nas mãos daquele rapaz. 
- Vocês não vão fazer nada - disse Sol, a irradiar luz. A luz dissipou-se. - Ele está fora do nosso controlo, agora. 
- Vais deixar a tua filha nas mãos do principal inimigo da galáxia? - Jade chegou-se à frente. 
- Não vou - respondeu, irritado. 
- O que fazemos, Sol? - Neptuno aproximou-se dele. Os olhos dele eram tão azuis quanto o planeta. 
- Esperamos. O rapaz vai ter de voltar, mais cedo ou mais tarde. Levou dois humanos com ele e de certeza que não quer os pais da sua namorada e do seu melhor amigo preocupados. 
- Estás a confiar a nossa galáxia em miúdos? - inquiriu Júpiter, claramente chateado. 
- Estou. Confiem em mim. Eles vão aparecer, mais tarde ou mais cedo. Quando o fizeram, aí vemos o que fazemos. Tenho a vossa palavra? 
- Tens a minha - disse Neptuno. 
- Sim - afirmou Saturno. 
- Tens a minha palavra, Sol - disse-lhe Terra. 
- Mercúrio? Júpiter? - Os olhos de Mercúrio estavam a ficar cada vez mais vermelhos. 
- Tudo bem. Tens a minha palavra - cedeu Júpiter. Mercúrio respirou fundo. 
- Já vi que estou sozinho nisto. Não, não tens a minha palavra, Sol - e Mercúrio desapareceu. 
     Nesse momento, uma claridade roxa surgiu - Úrano. 
- Perdi a festa? 
- Mesmo a tempo, Úrano. Dás-me a tua palavra em como ficas quieto até Tema retornar? 
- Claro, meu amo - fez uma vénia. Colocou um sorriso trocista no rosto. - Onde está o raivoso? 
- Perdeste a festa - disse-lhe Neptuno. 

bright petals.