The Broken Trust #25

     Obriguei-me a sair dos braços da avó. Não podia ficar ali para sempre, precisava de falar com Sol. 
     Saí do jardim. O caminho para o quarto de Sol pareceu mais longo do que realmente era. Quando finalmente dei de caras com a sua porta, parei. Estava paralisada. Não sei com que coragem era suposto abrir aquela porta. Não sei com que cara havia de olhá-lo, que palavras dizer. Tudo o que me ocorria não era bom o suficiente. Eu já não era suficiente para ele, pelo menos eu achava isso. Não sou merecedora do seu amor, mas raios, ele também magoou-me muito. Ele abandonou-me. Contudo, eu nunca deixei de sentir o seu amor por mim, nunca. E acho que ele nunca deixou de sentir o meu amor por ele, eu nunca deixei de o sentir. Apesar de tudo. 
      Num ato de impulso, bati à porta. Não esperava resposta e foi isso que aconteceu. O seu absoluto desprezo magoava-me, mas eu tinha de suportar. Respirei fundo, limpei as lágrimas e entrei. 
      Pesado. O ar à nossa volta estava pesado, cheio de tristeza e desilusão. Sol estava sentado na cama, com rastos de lágrimas nas suas faces. Controlei o meu enorme desejo de chorar, e fiquei à beira da porta. Não consegui andar mais. Sol já deve ter dado conta da minha presença, no entanto não proferiu nenhuma palavra. Abri a boca para lhe dizer que não queria que nada disto tivesse acontecido, que o amo muito, mais que tudo, mas antes de conseguir dizer uma sílaba, Sol falou primeiro. 
- Não basta teres coragem de estar com outro homem, ainda tens a lata de vir ter comigo, ao meu quarto? - As suas palavras era afiadas e cortavam cada pedaço que restava do meu coração.
     Engoli em seco. - Não foi bem assim - tentei, em vão, fazê-lo compreender.
- Não foi bem assim? - Sol levantou-se, ficou de pé, a poucos metros de mim, frente a frente - Luna, eu vi. Eu senti o teu desejo! Vais negar? - Gritou. 
     Tremi com a sua voz, mas sabia o que tinha de dizer. 
 - Não vou. Mas sabes porque isto aconteceu? - Fiz uma pausa à espera que ele fosse contra atacar com uma resposta dura e malvada, porém, esperou que falasse de novo - Porque tu abandonaste-me Sol. Tu deixaste-me aqui, sozinha! - Na minha voz cresceu a raiva que ardia dentro de mim. - Tu nem te despediste, tu... Tu apenas foste. 
 - Isso é motivo para me traíres? - A sua tristeza revelou-se na sua voz. 
 - Não é. Tens razão - Limpei as lágrimas. Encarei-o. O seu olhar completamente destroçado fitou-me e eu soube que, naquele momento, parte dele queria deixar-me ir e fazer de conta que nunca existi. Mas a outra... A outra parte dele, queria abraçar-me, pedir-me desculpa e perdoar-me. Essa parte dele era aquela que iria perder contra o seu orgulho. E eu não podia fazer nada quanto a isso. 
- Eu não te mereço - falei - mas tu sabes que, o meu amor por ti nunca morrerá. - Aproximei-me dele, sem medo. Olhei aqueles tristes mas únicos, olhos ambarinos que eu tanto amava. Esqueci o mundo, esqueci este problema que pairava sobre nós. Só não esqueci o meu amor por ele. Não consegui evitar sorrir quando olhei para o seu rosto, toquei-lhe na face e a sua pele quente. Beijei-o. Os lábios quentes dele acolheram os meus, a tristeza desapareceu por segundos. Sol não me tocou. Deixou os seus lábios à minha mercê enquanto que o resto do seu corpo evitava qualquer contacto. O nosso beijo recheado de saudade, desilusão e muito amor trouxe-me um pouco de felicidade, no entanto a tristeza nunca desapareceu. 
      Afastei-me dele. O suficiente para os nossos lábios não se tocarem mais.  
- Espero que consigas desculpar-me, ou pelo menos - hesitei à procura das palavras certas - espero que voltes a olhar para mim com alegria, e não com desilusão.
     Caminhei para fora do quarto, abandonando o calor do seu corpo que tanto me faz falta. Ao fechar a porta do seu quarto, encostei-me a ela e comecei a chorar de novo, lentamente fiquei sentada no chão, encostada à sua porta.



Sol 


     Ouvi alguém a bater à porta e abrir-se, senti um nervosismo dentro de mim que não era meu; era Luna. 
     Não acredito que teve coragem de me vir ver. Não acredito que teve coragem de estar com outro homem. Eu parti, deixa-a, mas ela nem me deixou explicar-lhe. Teve logo de arranjar alguém para me substituir. 
      Luna entrou no meu quarto, sabia que ela iria pedir desculpas mas palavras vindo dela não me convenciam. Não acreditava nela. Será que iria acreditar nela, outra vez? Será que a confiança entre nós foi para sempre quebrada? Antes que ela pudesse dizer algo que faria a minha cabeça ferver, disse: 
- Não basta teres coragem de estar com outro homem, ainda tens a lata de vir ter comigo, ao meu quarto? 
      Luna tentou, como previ, desculpar-se. Com um impulso, a responder ao que Luna tinha acabado de me dizer, gritei-lhe uma parte do que estava preso na minha garganta. Ela tremeu. Pelo menos sentiu as minhas palavras. Percebeu-as. Ela usou o facto de eu ter ido embora como outra desculpa. Será que ela não se ouve? Não vê quão ridícula ela parece? 
     Os seus olhos azuis pelos quais me apaixonei perdidamente, começaram a lacrimejar. Não gostava nada de vê-la assim, apesar de tudo. Parte de mim queria abraçá-la, dizer-lhe que a perdoo e que pedia desculpa por ter ido embora, mas a outra, a parte orgulhosa, não deixava. Ela traiu-me. Não consigo esquecer isso. O momento pairava sobre mim sem querer largar-me. Pergunto-me se algum dia irei conseguir esquecer... Então ela disse "O meu amor por ti nunca morrerá" e sorriu, e quando dei conta, os seus olhos dum azul claro e puro olhavam os meus. Num segundo, eu senti os seus lábios nos meus. O meu toque no dela era inexistente, porém conseguia sentir a maciez da sua pele. Por instantes, eu esqueci os problemas que estavam entre nós. Esqueci tudo. Quase tudo. Quando ia ceder, a realidade fez-se sentir. Luna largou os seus lábios dos meus e falou: 
- Espero que consigas desculpar-me, ou pelo menos.... Espero que voltes a olhar para mim com alegria, e não com desilusão.  
      As suas palavras pairavam no ar com uma força tremenda. Só queria poder esquecer tudo, tê-la de novo, nos meus braços e dizer-lhe porque fui embora e que a amo muito, muito. Mas não podia, ela errou. E o seu erro iria ficar marcado em mim, para sempre.  
     Deitei-me na cama e pus-me a pensar. Nela, em mim, em nós. Não sabia o que iria fazer em relação a isto, só sabia que estava realmente zangado. Acho que nunca estive tão triste e zangado com alguém. Talvez por ser a Luna, a minha Tal. Pois, que grande Tal fui eu arranjar. Trai-me logo quando vou-me embora por qualquer motivo que seja. Espero conseguir desculpá-la.
      E irás, se o teu amor por ela for maior que o erro que ela cometeu, irás desculpá-la. E Sol, ela precisa de ti agora, mais do que nunca - uma voz disse.
      Olhei à volta, à procura de alguém, de algo, mas nada. E apercebi-me, era Lua. Espero mesmo que ela tenha razão, mas a Luna a precisar de mim agora, mais do que nunca? Eu precisava, preciso dela, mais do que nunca, porém aconteceu isto. Os meus olhos queriam fechar-se, entrar num mundo desconhecido nem que fosse por poucas horas, mas não conseguia. O sono faltava-me, a felicidade faltava-me, a confiança em Luna faltava-me. 
      Fecha os olhos - Lua sussurrou.  
     Fiz o que ela mandou e logo adormeci. Entrei num mundo branco e lilás, onde as nuvens pareciam suaves almofadas, e as flores eram graciosas e únicas.  
- Sol - chamou.
      Virei-me e contemplei o seu rosto - Lua - e soltei um leve sorriso. 
- É bom ver-te, pena não ser pelos melhores motivos - aproximou-se. 
- Infelizmente. 
- Precisamos de falar sobre...
- A Luna - dissemos em uníssono. Lua assentiu. 
- Ela corre grande perigo Sol. Ela, tu, e todos nós
- Nós? 
- Sim, nós - e percebi que ela se referia aos Planetas, ao Universo. 
- O Tema voltou? Não senti nada.
- Irás descobrir mais rápido do que tu pensas. E quando o fizeres, não vai ser bom. - Fez uma pausa e acrescentou - Tens de esquecer tudo o que se passa entre ti e ela, e ver mais além. O perigo está mais próximo do que julgas e Luna tem de acreditar em ti quando o descobrires. 
- Porque é que ela não iria acreditar em mim? Foi ela quem quebrou a nossa confiança e não o contrário. 
- Tudo a seu tempo, Sol. Tens de aprender a ouvir mais e a perguntar menos. 
- Pronto, tudo bem.  
      Lua virou-se e foi em direção às grandes árvores de folhas cor de rosa que existiam não muito longe dali. Antes de desaparecer, chamei-a:
- Lua - virou-se e encarou-me - Sabes se... Hum, eu e a Luna vamos ficar bem? 
      Ela sorriu e perguntou - Queres ficar bem com ela? - Assenti - Então sim, vocês vão ficar bem - sempre soltando um sorriso compreensivo, continuou o seu caminho às enormes árvores e desapareceu. 

The Sorrow #24

     Tiago e avó entraram em casa e eu fiquei a pensar que isto era minha visão a concretizar-se. Tinha a certeza.  Porém, eu tinha como evitar. Bastava não estar sozinha com Tiago ou beijá-lo. Vai ser canja, pensei. A avó não o vai largar e espero ganhar mais segurança com isso, e se Sol aparecer, duma maneira ou de outra, vou ter de explicar-lhe o que se passou entre mim e Tiago, mas o mais importante vai ser vê-lo. Após, talvez mais de um mês, sem o ver, a felicidade de voltar a mirar os seus olhos âmbar dominavam o meu corpo. Sol, por favor, aparece. Volta, sussurrei ao ar que agora era-me era tão conhecido e reconfortante. 
     Entrei em casa, recebendo o cheiro e o calor no meu corpo, sentindo uma enorme ansiedade. Não quis entrar na cozinha, Tiago obviamente estaria lá a cozinhar o jantar com a avó. Mercúrio brindou-me com um sorriso e fez sinal para irmos conversar lá no jardim. O assunto? Tiago, aposto.
      Peguei em Persifal, que apareceu no caminho de repente, e levei-o comigo para o jardim. Ele ainda não tinha experimentado a relva curta e fresca do jardim. Mercúrio esperava-me no sofá do alpendre.
- Pronto, ralha lá comigo. 
- Luna... 
- Não sei que te diga. Eu não me consigo afastar dele. Ele é uma lufada de ar fresco para mim, uma nova porta que dá entrada a aventuras imagináveis e caminhos perigosos - falei depressa, sem ligar a Mercúrio - Como é suposto fugir deste novo mundo por descobrir quando o que conhecemos parece o local mais negro que alguma vimos? Diz-me. - Caí no sofá, abalada, depois de ter percebido o que tinha dito. Persifal saiu de perto de mim e brincar no relvado. 
      A voz de Mercúrio soou calma e confortante. 
- Luna, tu não podes ceder ao que apenas parece ser um mundo novo por descobrir. Há outras coisas que tens de pensar - apesar das suas palavras atacarem-me, eu percebia-o. 
- Mas agora é tarde de mais - disse baixinho. 
- Tarde de mais? Como assim? 
- Beijámos-nos... - pelo canto do meu olho, consegui notar que a expressão de Mercúrio não era bom sinal - Foi sem intenção... Ele aproximou-se, eu não o afastei... Estou tão arrependida - coloquei o rosto nas mãos. 
- Já era de esperar. Tanto tempo juntos só podia dar nisto. 
- Desculpa. 
- Não tens de pedir desculpas Luna. Não fizeste nada de mal, por agora - colocou o seu braço à minha volta. 
- Ele tentou-me beijar de novo, mais tarde, e eu não deixei - abanei a cabeça garantindo a minha nula vontade de voltar a repetir os acontecimentos anteriores. - Usei o meu elemento. 
- O teu elemento? - perguntou Mercúrio sem ligar ao facto de ter lutado contra a minha vontade. 
      Encarei-o - Sim, tenho afinidade com o ar - soltei um sorriso. Mercúrio abriu os olhos, surpreso. 
- Luna! Isso é fantástico! Temos de contar à Mondy, ela vai ficar radiante!
- Não agora, não com ele aqui - disse.
- Está bem. Mas mostra-me o que sabes fazer com ele. Com o ar. 
      Surpreendi-me. O que sei fazer com o ar? Não sei. Só por alma da Lua é que consegui ter forças e poder suficiente para evocar aquela rajada de vento que separou-me de Tiago. Não custa nada tentar, Luna - Ouvi Lua sussurrar no meu ouvido. A sua voz acalmou-me, e alcançou um ponto em mim desconhecido até então. O ar em mim começou a ser cada vez mais intenso e poderoso, sentia-o percorrer cada parte de mim até ir directo para as palmas das minhas mãos. 
- Ar - sussurrei. 
      O Ar à nossa volta mudou. O seu poder era intocável e mágico. Com um desejo meu, uma leve brisa começou a voar entre mim e Mercúrio soltando os perfumes das flores e da grande árvore do nosso jardim. O espaço entre nós estava, literalmente, encantado e tudo parecia perfeito. Com pequenos gestos o ar movia-se entre os meus dedos, com vida, e acariciava a minha pele. Fazia o presente parecer tão distante, como se fosse o passado. Porém, eu sabia da realidade. E nesse instante sem concentração, fez perder a ligação com o meu elemento. A brisa cheia de perfumes desapareceu, as caricias se foram e só restou a minha estúpida e infeliz realidade. 
- Luna, isso foi fantástico - falou Mercúrio, a sorrir. 
- Obrigada - sorri. 
      Entretanto, avó chamou-nos para ir para a mesa. O cheiro que rondava a sala de jantar estava a dar água na boca. Fiz questão de comer muito. O lanche de à pouco não fora muito produtivo. As piadinhas sobre o meu apetite eram já de prever e não faltaram. Todos, incluindo Tiago, fizeram questão de soltar uma piada sobre a minha enorme boca. Não liguei. Continuei a apreciar a comida feita pela avó e, infelizmente, por Tiago. 
     Após a sobremesa, Mercúrio fez de tudo para não me afastar dele. Ele, embora não admitisse, não acreditava que eu fosse capaz de resistir ao rapaz. Na sua cabeça, eu iria cair nos braços dele num piscar de olhos e cairia sem volta a dar e isso não poderia ser. 
     Mercúrio foi ajudar a avó na cozinha e exigiu que eu fosse com ele, e eu fui. Que mais poderia fazer? Ele estava a ser possessivo e eu não queria brincar com um Planeta furioso. Apesar de estar a ficar um pouco fartinha e com pena de Tiago, era o melhor. 
- Luna, preciso de ti aqui - dizia Mercúrio enquanto me lançava o olhar. 
- Pronto, já vou - respondia. 
      Quando a oportunidade de ficar sozinha por 10 segundos apareceu, eu aproveitei. 
- Vou à casa de banho, não me demoro - disse. 
     O seu toque fez a minha pele arrepiar. Puxou-me pelo braço e levou-me para o jardim. Tiago sorria e eu só queria esconder-me dele. Esconder-me de todos. Porque é que ele me tem com tanta facilidade? Isso irritava-me mais do que qualquer outra coisa. 
      Tiago levou-me para a árvore no fundo do jardim. A mesma árvore em que Sol me ofereceu o colar que jamais tirarei. Estava a acontecer. A minha visão estava acontecer. As minhas mãos começaram a tremer.
- Estava a ver que nunca mais estavas sozinha - disse, a sorrir para mim, a prender-me contra ele e o tronco da árvore. 
- Estava ocupada - falei, a tentar respirar decentemente. 
- Mas agora já não - inclinou-se para me beijar. 
      Não queria dizer-lhe que não, não queria dar-lhe uma tampa. Mas eu também não poderia dizer que sim. Movi a minha cabeça para o lado, de maneira a poder desviar o trajetório de Tiago do meu, e abracei-o. Sempre é melhor que um beijo - Pensei. E era. Mas não mudava o facto da porcaria da minha visão estar a acontecer. 
- Não fujas de mim Luna - disse, muito carinhosamente, por surpresa.
     A minha pele sentiu a dele, o seu dedo tocou o meu queixo. Levantou a minha cabeça, suavemente para encará-lo. Vi aqueles magníficos olhos azuis esverdeados à luz da Lua. Lua, ajuda-me, implorei. Os seus lábios se encontravam tão perto dos meus, o desejo começava a apoderar-se de mim. Coloquei a minha mão no seu pescoço. E de repente ocorreu-me. Sol já estaria na porta de entrada a ver-me. Obriguei-me a afastar mais um pouco de Tiago para poder chamar Sol pela minha Ligação. Sol, Sol... e sentiu-o. 
- Sol! - exclamei. 
- Luna? - Tiago perguntou confuso. 
- Luna... - ouvi a voz de Sol, acabada, triste e desiludida comigo.  
- Sol... - disse, largando-me do muro que era Tiago. 
     Tiago olhou-me, sem perceber o que estava a acontecer. Ignorei-o totalmente. Finalmente consegui ver o meu precioso outra vez e não aguentei, comecei a chorar desalmadamente. Corri para ele. Queria abraçá-lo, já não o via há tanto tempo... Mas eu não merecia. Sol viu-me com outro. Mas ele abandonou-me. Podíamos estar quites não? Que estupidez Luna, o que tu fizeste não tem perdão.  
     Sol não se movia, mas uma e outra e mais outra lágrima corriam pela face dele. Fazia força com o punho, de certo que era para não atacar Tiago, ou até talvez a mim. Parei a meio caminho. Não consegui ir até ao fim. Não sabia a reação que ele iria ter e isso matava-me por dentro. Dei um passo em frente e outro. Sol limpou os olhos com o braço e foi-se embora. Foi para dentro de casa e fez rumo até ao seu quarto. A sua tristeza consumia cada pedaço de mim, e como se a minha não bastasse, a dele era bem mais profunda. Caí de joelhos, a chorar. Tiago, sem perceber o que se estava a passar, foi ter comigo, na esperança de que lhe explicasse o que tinha acabado de acontecer. Senti os seus passos cada vez mais próximos de mim. Não o queria perto. Quando me apercebi que ele estava prestes a tocar-me, afastei-me com desdém.
- Por favor Tiago, vai-te embora - disse, gaguejando.
- Luna... Explica-me o que se está a passar. 
- Agora não, está bem? Por favor, vai - falei. 
     Tiago veio para perto de mim, tentou abraçar-me e dar-me um beijo em vão. Não o deixei tocar-me outra vez. Saiu da minha casa num espaço de segundos. Avó veio ter comigo, e envolveu-me nos seus braços. O conforto do seu abraço ajudava  um pouco, mas não mudava o meu erro. 
      O coração de Sol partiu-se em mil bocadinhos, eu sentia isso, a sua dor, e tudo por minha causa. E essa culpa corroía-me. Mais do que eu alguma vez imaginara. Sol, desculpa-me, por favor.

The Forbidden Kiss #23

      Tiago deixou a minha casa assim que Mercúrio e avó regressaram de um passeio. Nessa noite, ouvi a voz de Lua na minha cabeça, durante o meu sono. "Tem cuidado Luna. Protege-te. Segue o teu instinto e tudo correrá bem."  Isto era sobre a minha visão, sobre Tiago e Sol, tenho a certeza. Após ouvir a voz de Lua acordei ofegante e não consegui dormir mais. Só pensava. Mas eu tinha de acreditar em mim. Tenho de acreditar que vou sair desta trapalhada, tenho de seguir o meu instinto e não o coração. 
      Ainda não contei a avó sobre os meus poderes, a afinidade com o ar e as visões. Preciso mesmo de lhe dizer, pelo menos a afinidade.
     Com o passar dos dias, a minha relação com Tiago crescia, sem me aperceber. Ele aparecia e eu não tinha coragem de mandá-lo embora. Por muito errado que fosse, não parecia. Ele fazia lembrava-me de Sol, e eu não queria livrar-me disso, nunca irei querer. No entanto, parte dele, a parte misteriosa e totalmente sua, atraía-me. Não queria livrar-me disso também. 
     O sol brilhava pouco. Talvez pelas nuvens acinzentadas que percorrem o céu, talvez por Sol estar sem forças. 
      Tiago trouxe uma cesta castanha cheia de coisas boas para um piquenique combinado por nós, no parque perto da minha casa. Apesar do tempo não estar do melhor, o vento era pouco e estava agradável. 
     No caminho para lá, não houve constrangimento, apenas risos e uma boa conversa. 
     O parque totalmente vazio surpreendeu-me. Tiago indicou-me o caminho para o local do nosso lanche e preparámos tudo. Começámos a comer e continuámos a conversar. O seu riso era contagiante.  
- Foste tu que preparaste isto tudo? 
- Claro. Só te podia servir comida do melhor - soltou um sorriso de convencido. 
     Ri-me. Dei uma olhadela na cesta cheia de comida e peguei numa tosta de frango e num sumo. Tiago fez o mesmo e começámos a comer. Continuámos a conversar, por alguma razão existia sempre assunto entre nós. Ainda bem. Acho eu.
- Luna tens aí - apontou para o canto do meu lábio - uma coisinha - disse baixinho a apontar novamente.
- Hum?
      Tiago avançou na minha direção e ficámos muito, muito próximos. Olhámos-nos. O ar em mim desaparecera numa questão de segundos e tinha a certeza absoluta que estava mais vermelha que um tomate. Tiago desviou o seu olhar para o canto do meu lábio, que pelos vistos estava sujo de maionese, e limpou-o com o dedo. Depressa colocou o seu olhar no meu.
      Tinha de me afastar porém não queria. Queria ficar a olhar para aqueles brilhantes olhos azuis esverdeados para sempre. O olhar de Tiago prendia-me e eu não lutava para poder escapar, eu gostava de estar presa por ele.
      Suavemente, as suas mãos tocaram na minha cara. Tiago acariciou-a com o polegar e inclinou-se para me beijar. Não o impedi, mas também não o encarei de boa vontade. No entanto, quando os seus lábios tocaram nos meus senti-me viva de novo. Tiago dava-me a possibilidade de esquecer Sol. Por momentos, eu realmente pensei que Tiago e eu podíamos resultar; E depois a realidade atingiu-me com uma força sobrenatural. Eu estava ali, a beijar o rapaz que irá dar cabo de mim e de Sol e mesmo ao saber isso, continuava num mundo cego e apaixonado. Apaixonada? Por Tiago? Impossível. Não podia ser.
      Tiago soltou os seus lábios dos meus e sorriu. O meu sorriso, em retorno, saiu automaticamente, ignorando cada pensamento meu de isto ser um erro, apesar de o saber melhor que a tabuada. Ele voltou para o seu lugar, a sorrir e com os olhos postos em mim. Começou a falar de algo, mas eu não prestei muita atenção. Estava demasiado ocupada a pensar nas consequências da minha enorme burrice e o quão bom era o seu beijo. Estas contradições na minha cabeça formavam tornados que misturavam sentimentos, e o resultado não era bom. Nada bom.
- Terra chama Luna - Tiago disse.
- Sim? - tentei responder normalmente.
- Estás a ouvir o que estou a dizer?
- Hum, não... Desculpa. Distraí-me - curvei os lábios um pouco envergonhada.
- Não faz mal - soltou um sorriso carinhoso.
- Mas o que estavas a dizer, já agora?
- Oh, não era nada. Esquece - encolheu os ombros. Parecia perturbado.
- Diz-me - aproximei-me dele automaticamente e coloquei a minha mãe no seu braço.
     Olhou-me, hesitou e finalmente respondeu-me - Estava a perguntar-te se querias ir dar um passeio por aqui. Já que o parque está vazio.
     Não hesitei - Claro, vamos - e respondi esta estupidez.
     O que teria eu na cabeça?
     Tiago pegou na minha mão, sempre com o seu sorriso brilhante e perfeito, levantou-se e ajudou-me a levantar. Sem largar a minha mão, conduzia-me o caminho, sem pressa, aproveitando cada instante. Não falámos muito. Deixámos o silêncio acolher-nos e enquanto isso, pensávamos em potenciais assuntos. Um deles obviamente que seria o maior erro da minha vida, que acabou de acontecer há um minuto: o nosso beijo.
- Não te importaste, pois não? - Tiago lançou.
- Com o quê?
- Oh, tu sabes, - encolheu os ombros, encarei-o - o beijo - olhou-me.
     A sua pergunta apanhou-me de surpresa. O que era suposto responder? Sim? Não? Estaria a mentir se respondesse qualquer uma delas.
- Não. Não me importei - disse, desviando o olhar dele.
- Passa-se algo?
- Não, porque haveria? - continuei com o meu olhar longe do dele.
- Nada - largou a minha mão, lentamente.
     Confusa com o ato dele, parei-o. Coloquei-me à sua frente, e fiz-lhe má cara. Trata-me bem e de repente amua?
- Tiago, o que se passa?  - olhava para cima ou para os lados, nunca nos meus olhos. - Diz-me.
     Hesitou. E quando já estava farta de esperar e pronta para voltar para o lugar do piquenique, Tiago agarra-me no braço e puxa-me para perto dele, mesmo muito perto.
- Vais dizer-me o que se passa agora? - perguntei, baixinho, quase sem ar nos meus pulmões.
- Às vezes falas de mais, sabias? - olhou-me sério.
      Assenti em resposta. Riu-se.
- Estás a rir do quê? - fiz má cara e afastei-me dele toda teimosa.
- Desculpa - sorriu. Puxou-me para si de novo, colocou as suas mãos a minhas bochechas e inclinou-se para me beijar.
     Não podia deixar isto acontecer de novo, não podia. Lua, ajuda-me, por favor - Implorei.
Quando os seus lábios se encontravam a milímetro do meu, uma rajada de vento veio de encontro a nós. Afastou Tiago de mim numa força brutal, mas sem magoá-lo ou a mim. Obrigada, Lua - agradeci. Depois de Tiago recuperar do choque, comecei a andar para o lugar do piquenique. Seguiu-me sem questionar.
- Podemos ir embora? - perguntei com receio da sua resposta.
- Claro - brindou-me com um sorriso amável.
- Obrigada.
     Arrumámos tudo, e ele levou-me a casa. Estava pronta para me despedir dele quando a avó intervém.
- Tiago! Olá - e cumprimenta-o.
- Olá Mondy, como está? - sorriu-lhe.
- Bem, e tu?
- Também - respondeu avó.
- Hum, avó, o Tiago estava de saída.
- Não sejas antipática, Luna - retorquiu avó.
     Tiago soltou um riso - Por acaso, estava de saída, sim.
 - Oh, mas que pena... - disse avó - Hum.. Não queres ficar para jantar?
     Eu e ele trocámos olhares. Só queria que ele respondesse não.
 - Vá lá querido, janta connosco - insistiu.
 - Já que insiste - encolheu e sorriu ansioso para mim.
      Oh bolas. Vai ser uma noite linda. 

bright petals.