O cheiro da chuva era adorado por Jay. Ele simplesmente gostava. O casaco preto que tinha vestido estava a pesar nos seus ombros. A areia à sua volta agarrava à sua roupa, as gotas que caíam uniam-se às suas lágrimas e as nuvens, essas escondiam o sol que a levaram. O mar parecia chamá-lo. As ondas esforçavam-se para ir até ele. Levantou-se e a sensação foi como se estivesse bêbado. O equilíbrio faltava-lhe, a visão não era clara e a mente não estava nos seus melhores dias. Com a pouca força que lhe restava despiu o casaco preto, comprido e espesso, e deixou-o caído no chão. Caminhou até ao mar, nadou até não ter pé, e deixou-se cair. Fechou os olhos enquanto a água o envolvia, mas logo os abriu. Queria ver o mundo dela, de Anita. Apercebeu-se que o ar faltava-lhe. «Que idiota, achas mesmo que irias respirar aqui em baixo génio?» pensou ele, mais ou menos. O seu corpo só reagia meio em pânico, e a certo momento achou que a melhor opção era mesmo adormecer. Lá em baixo ele nem sentia o frio que em cima se fazia. E tudo parecia mais colorido, de olhos fechados e mente livre. Tentou abrir os olhos, nadar até cá em cima, e de facto conseguiu, mas as ondas o engoliam. Queriam-no no fundo do imenso azul, e não na superfície. Respirou. «O que estou a fazer? Não quero morrer» pensou ele. Começou a nadar, mas os seus braços estavam fracos, assim como as suas pernas. Engolia água, aquela água salgada que estraga a boca. A corrente estava forte, devido à tempestade. Mas Jay era capaz. Afinal, se Anita mudar de ideias, ele tem que estar vivo para o ver. Nadou com forças desconhecidas e chegou à praia. Respirou, fechou os olhos e riu-se. Riu-se da sua estupidez, riu-se da sua doidice, riu-se porque rir faz bem, ou então... Ou então riu-se de nada. Despachou-se a levantar pois tinha que  tirar aquele sabor a sal da sua boca. A sua língua estava a detestar e a protestar por água limpa. Sentia-se gelado, sabia que ia apanhar a maior constipação da sua vida, mas conseguia encontrar calor no seu coração. Algo quente no peito, algo inesquecível na mente, algo insubstituível na sua vida. Todos os seus sentidos gritavam o seu nome, imploravam uma última vez um olhar, um toque, um som, um cheiro e o gosto dos seus lábios. Porque, depois de tudo o que Jay lhe oferecera, ela ainda assim foi embora? Se Jay era o príncipe perfeito, como ela o dizia, porquê esta loucura? Será que ele merece sofrer assim? Será que temos que trocar as posições, inverter os sentidos, alterar a situação, para que percebamos o que é estar no lugar um do outro? Mas Jay nunca foi assim tão livre. Tão aberto para o mundo como ela de certeza, é agora. «Pensar mais no assunto para quê?» concluiu Jay. Como se o seu dia já não estivesse completo, John aparece. John é o típico rapaz brincalhão, gozão e o divertido do grupo. Só sabe, na maior parte das vezes, incomodar pessoas e com o Jay não era exceção. Gozou com ele pelo facto de estar um farrapo. O seu cabelo estava despenteado, tinha a roupa toda molhada, e a camisa branca que trazia agora parecia transparente. Jay sem paciência, entrou no bar da praia, e assim John seguiu-o e continuou no seu divertimento. «Então Jay, agora que estás triste vais escrever poesia e chorar para a mãezinha é? Ahah». Ao ouvir aquilo, Jay não se conteve e puxou o colarinho de John como se lhe fosse dar um murro, mas depressa cai em si e solta-o. Ele não é violento, nunca foi, e não é um palhaço que o vai fazer mudar. «Se eu fosse a ti, não voltava a meter-se comigo» disse Jay, um quanto sério. «Se não o quê?» ameaçou John, achando-se o maior, mas logo o olhar de Jay o fez calar de medo ou como ele disse "estava na brincadeira, calma". Bebeu água no bar, e foi para casa, trocar de roupa e enfiar-se na cama. Quando chegou, olhou à sua volta e surpreso, estava tudo arrumado. Tudo, exceto o seu habitual copo que se encontrava na pequena mesa perto da televisão. Ele não bebia. Nem sabia o cheiro de uma simples cerveja. Ou que existia vários tipos de Vodka. Ele não significava problemas, ele significava segurança. Pegou no copo, cheirou-o e ainda tinha um pouco de café da manhã anterior. Foi à cozinha, lavou-o. E com lavar, passou apenas por água e encheu-o de novo com a bebida. Sentou-se no sofá, ligou a televisão para não se sentir tão só naquela sala tranquila e bebeu um gole do café.  Colocou outra vez o copo na mesa, e foi para a casa de banho. Ligou o duche, e sem se despir entrou dentro da água. Sentou-se na banheira, e deixou a água escorrer pelo seu corpo. Aqueceu-se, a água a cair fazia-lhe bem. Fazia-lhe lembrar da chuva que corria lá fora. Acho que ele perdeu a noção das horas enquanto lá esteve. Levantou-se, desligou a água e despiu a roupa molhada. Vestiu uns boxers e o longo robe branco. Ele respirou fundo e sentiu-se limpo. Deitou-se na cama, ficou a olhar para o tecto e viu que as imagens que lá tinha colocado ainda estavam lá. Estavam lá 3 fotos, uma dele com a Anita, outra somente dela, e outra com o seu grupo de amigos. Ficou a olhar para essa foto, e relembrou-se de como a tiraram. Estavam num acampamento, o Ben tinha acabado de acordar e ainda não tinha reparado que tinha a cara cheia de mostarda, o Matt estava a esboçar o maior sorriso de mundo, Jay estava-se a rir de Ben e o nariz de Chris aparecia num canto da foto. «Bons tempos» pensou ele. Reparou que já não estava assim com o seu grupo há algum tempo. Anita virara prioridade e teve que se afastar. «Já perdi a minha pequena, não vou perder os meus irmãos» disse Jay, num tom decidido. Adormeceu, e por seu espanto, teve sonhos bonitos e felizes. 

Leva-me Contigo - VI


- Que barulho é este? Que irritante.. - disse eu acabada de acordar.
 O Tim disse qualquer coisa mas nem percebi o quê. Olhei para o telemóvel e já passava quase 20 minutos do meio-dia o que significa que estávamos mais que atrasados!
- Oh my god Tim, estamos atrasados! Acorda já!
- Estamos o quê?
- Atrasados, estamos muito atrasados. Despacha-te. Temos tudo para fazer em menos de 10 minutos.
- Unf - resmungou ele.

 Ele levantou-se e foi fazer o pequeno almoço enquanto eu vestia-me e arranjava-me.

- Queres geleia, manteiga, misto ou nuttela? - gritou ele super descontraído.
- Humm, pode ser misto !
- Esta bem.
- Amor, visto o quê?
- Roupa !
- Estava a pensar em vestir macarrão! Obrigada pela sugestão amor! - disse ironicamente.
- Ahahahah

 Vesti qualquer coisa e fui ter com ele à cozinha. Ele ainda estava com os boxers e a t-shirt.

- Oh Deus, MARTIM ! Vai te vestir ok?
- Relax, eu despacho-me. Agora come.
- Então vai.
- Já vou boss - deu-me um beijo na bochecha e foi vestir-se para o quarto.

 Chegámos atrasados. Nenhum de nós ia a tempo de apanhar a aula, faltava pouquíssimo tempo para acabar e de certeza que os professores não nos deixariam entrar. Aproveitámos para estar mais um pouco juntos já que os professores fizeram questão de criar um horário que não coincidisse com nenhuma hora do meu. Para não falar que estamos em diferentes áreas, as nossas salas são opostas uma à outra e saiu das aulas mais tarde que ele. Fixe han?
  Ok, há sempre aquela hora ou minuto que coincide com o horário dele, mas até chegar à sala dele demora o intervalo todo! A escola não é propriamente pequena, 2500 alunos não é pouca gente. E os minutos que temos em comum são 10. Sim, sempre que posso vou lá ter com ele, mas no final do dia é quando podemos estar a sós e conversar e outras coisas.

 Eu nem estava a acreditar no que me estava a acontecer. O meu odiado stor, decidiu meter-me a fazer trabalhos depois das aulas. Deixou-me na biblioteca e disse para fazer 3 páginas de exercícios de gramática. Urgh, que nervos que me deu. Fui para a biblioteca, e ele foi ver se lá estava.

- Então Margarida, está com dúvidas? - perguntou.
- Sim por acaso, quando posso ir embora mesmo?
- Quando acabar todas estas páginas.
- E posso saber o porquê de estar aqui?
- Acho que está com dificuldades e penso que isto será uma mais valia para si.
- Ah esta bem. Então, quando o stor perguntar se quero essa mais valia eu estarei à disposição para dizer que não - ele ainda tentou mandar-me calar, mas já estava em pé- tenha uma boa tarde - e saí.

 Que lata. Até parece que sou a única que não se entende com gramática. Já passei definitivamente para a lista negra dele e os meus pais já devem estar com os lugares guardados na sala para falar da minha falta de educação. Que se lixe, tenho mais que fazer do que ir para a biblioteca estudar e fazer exercícios. Tenho uma relação para cuidar, o que é muito mais interessante.

- Então amor, vieste tarde...aconteceu alguma coisa? - perguntou Martim preocupado.
- Oh nada príncipe, o meu stor de Português estava a gostar de me ver fazer exercícios a mais. E eu bazei, não ia ficar ali...
- Ainda arranjas problemas com os teus pais - disse preocupado, e agarrou-me pela cintura de maneira a ficarmos mais próximos.
- Os meus pais sabem que estou com as minhas notas em ordem, e não é por isto que me metem de castigo.
- Pois, esperemos que sim bebé - e deu-me um beijo.
- Já te disse que gosto milhões de ti? - sorri-lhe.
- Hum... Não.
- Então pronto, gosto milhõões de ti!
- Han? Não percebi...
- Ahah, gosto milhões e milhões de ti - disse-lhe ao ouvido.
- Assim está melhor - beijou a minha bochecha e sorriu-me.

 Fomos ao café, que era a coisa mais linda de sempre. Acho-o lindo. Não é daqueles novos, é daqueles meio antigos, mas super amável.  Tem cadeiras brancas, com traços delicados, e tem também, há entrada, vasos com flores. Todas elas diferentes, com diferentes cores e tamanhos. Mas lindas. As mesas eram pequeninas e com pernas fininhas, mas nelas podia caber o mundo. Adorava. Era lindo.
 O habitual empregado veio à nossa mesa e fizemos os nossos pedidos. E no final ainda pedi um cupcake só para gulodice. Como era típico, o habitual cometário do Martim, surgiu.

- Vais ficar obesa, depois não te queixes que eu me vá embora.
- Oh Ti, não digas essas coisas... Queres um pouco? - e estiquei-lhe a mão onde segurava a pequena delícia.
- Achas que ia embora? Se fosse já não podia abraçar-te, dar-te beijinhos e... - sorriu.
- E...?
- E gostar assim, um tanto enorme de ti.
- AWWWWWWWWWWWW que fofo! - sorri e abracei-o. Dei-lhe um beijo e dei-lhe o que restava da pequenina delícia de chocolate e morango.

 Ele levou-me a casa e seguiu rumo à dele.

Acordou. Respirou o ar, encarou a realidade. Decidiu abrir os olhos, e arrependeu-se. Não via cor, ou motivo de viver. Como se a vida já não tivesse a sua pica. Como se a felicidade tivesse sido levada com ela, para o sol. E com o sol, a cor fugiu por entre as ondas, a diversão o mar tinha sugado, e o amor Anita tinha levado, no seu olhar. «Um dia isto passa, passa sempre» pensou Jay, e no fundo do seu ser, implorava que isso um dia acontecesse. Ele sabia que ela não voltaria. Que loucura a faria mudar de ideias, se nem o amor dele a fez? 
A praia naquele dia estava vazia. Tal como ele gosta. O dia não estava muito bom, condizia com o espírito de Jay. Ele olhou o céu, e viu uma tempestade a caminho. «Pode ser que me limpe a alma», disse. Como era possível, alguém da sua idade sentir-se tão depressivo como ele sentia? Será genética? Algum feitiço ou veneno? Mil e uma perguntas e nenhuma resposta. Duma coisa ele tinha a certeza: amava-a acima de tudo. Nenhuma outra rapariga o cativou como ela, ele só tinha olhos para ela. O seu coração estava somente guardado para ela. Era ela, a tal para ele. Mesmo depois de tanto sofrimento, Jay, no fundo do seu coração, iria esperá-la, até que algo o mudasse, o fizesse sentir outra vez outro sentimento que não este de dor, coração partido e amor não correspondido. De repente, sente algo no seu ombro. O seu coração acelera. Mas depressa se apercebe de que se fosse realmente Anita, o seu toque seria diferente. «Olá Jay» disse Amanda na esperança de receber carinho da parte de Jay. «O que estás aqui a fazer? Está a chegar uma tempestade, devias estar em casa», disse. Amanda não se surpreendeu, mas não deixou isso afetar-lhe. «Bem, decidi falar um pouco contigo, pareces triste, vim animar-te» e esboçou o maior sorriso que conseguia, mas nem isso o convenceu. «Se precisasse de animação iria procurar uma discoteca, mas obrigada pela preocupação, já podes ir para casa», e com isto Amanda foi-se embora com uma raiva imensa. Jay soltou uma gargalhada pelo comportamento de Amanda e, de repente, começou a cair pequenos curativos do céu.

bright petals.