The Ring #12

- Espero que sim, não quero desiludir ninguém. 
- Não vais Luna, isso garanto-te - uma voz doce e reconfortante disse. Lua sorriu. 
- Mel, que bom ver-te - disse Lua.
- Mel? - raciocinei - Mãe? Mãe, és tu? - virei-me. 
- Luna, meu amor - abriu os braços prontos para me receber. 
     Corri para abraçá-la. O conforto dos seus braços acolheram-me como sempre sonhei, abraçou-me forte. Um abraço com saudade, amor e felicidade, um abraço de mãe e filha, um abraço finalmente dado. 
      Não queria largá-la, esperei tanto por vê-la e agora que finalmente a encontrei não a queria largar. A minha mãe, ela está aqui, comigo. 
- Luna, é tão bom abraçar-te finalmente - disse sorrindo. 
- Oh mãe... Sonhei tanto com este momento - disse eu, quase em lágrimas.
- Eu também querida, eu também - sorriu. 
      Os seus olhos eram ainda mais bonitos do que pensava. Um tom vermelho misturado com um suave toque de azul. O seu cabelo, que ia até ao cotovelo, era castanho claro com delicadas ondas. Elegante, trazia um vestido que realçava a cor da sua pele, que se encontrava no meio termo entre bronzeada e normal.   
      Os seus braços me acolheram como se fosse uma parte dela e a nossa ligação nasceu. 
- Luna - disse - olha para mim  - colocou as suas macias mãos na minha cara e falou - vais ter que ter muito cuidado com os tempos que se aproximam. A preparação para a luta não é fácil querida, e Sol precisa de tudo o que poderes oferecer e mais. Tens que dar duzentos por cento de ti, sempre. 
- Mas mãe...
- Eu vou ter sempre um orgulho enorme em ti, és a minha pequenina, o meu melhor feito - interrompeu-me. -  E aconteça o que acontecer eu vou estar sempre aqui - e colocou a sua mão no meu coração - sempre. 
- Obrigada, mãe - sorri.  
- Amo-te muito meu amor, mais que tudo. Sê forte - abraçou-me e o seu espírito desapareceu. 
      Caí de joelhos no chão e comecei a chorar. Lua veio ter comigo e abraçou-me. Não estava pronta para isto, não estava... Há tantas coisas por dizer ainda, tantas perguntas para serem feitas... 
      Reparei que havia algo nas minhas mãos fechadas, um anel. 
- O...O que é isto? 
- É um anel da tua mãe Luna - respondeu.
       Olhei para ele e consegui ver os olhos da minha mãe a brilharem. Era dourado, não muito fino nem muito grosso. Na parte de fora, tinha 3 tipos de pedras fundidas: uma de Marte, outra de Plutão e outra da Lua. Tinha "P & M & L" cravado na parte de dentro. Acho que chorei mais ainda, mas já estava tão emocional que nem consegui notar. 
- Obrigada Lua, por isto tudo - disse. 
- Estou aqui para ti, minha representante - sorriu e lentamente começou a afastar-se. 



O sonho acabou.



     Acordei com lágrimas nos olhos e ofegante. 
     Olhei agitada para os lados e apercebi-me que estava no meu quarto. O dia estava a começar. Espreguicei-me e reparei que havia algo na minha mão. 
- O anel - disse surpreendida - Foi tudo real, aconteceu tudo. Eu estive com a minha mãe...eu abracei-a! Eu abracei-a! - sorri.   
      Coloquei o anel, e levantei-me. Apesar das coisas que descobri sobre o meu pai durante o sonho, eu ainda estava bem disposta. Tinha visto a minha mãe, tinha-a abraçado, e vi tudo o que se tinha passado realmente no passado. A minha cabeça estava mais orientada e menos stressada. 
      Vesti um vestido leve, o dia estava bom e fui para a cozinha para preparar o pequeno-almoço para todos. 
      Fiz panquecas e waffles, coloquei os cereais na mesa, fiz café e sumo, preparei torradas e coloquei as geleias e os doces na mesa, fiz praticamente um banquete. 
      Sol foi o primeiro a acordar, mesmo sendo super cedo; Eram oito da manhã, ainda.  
- Bom dia Luna. Madrugaste hoje - disse enquanto me agarrava por trás e dava um beijo na minha bochecha.
- Acordei bem disposta - sorri. 
- De onde é esse anel? - perguntou desconfiado.
- É da minha mãe - virei-me para encará-lo.
- Da tua mãe? Da Mel? 
- Sim. Estive com ela - sorri.
- Como? - perguntou surpreendido. 
- A Lua visitou-me nos meus sonhos, e antes de acordar, a minha mãe apareceu também e deu-me isto! 
- Luna isso é fantástico! Deves ter adorado - sorriu. 
- Adorei mesmo, foi tão incrível poder ver a minha mãe Sol - confessei.
- Ainda bem que hoje estás mais feliz - sorriu. 
- Obrigada pelo apoio - disse tímida e baixei um pouco a cabeça. 
- Mereces isso e mais - e colocou o seu dedo no meu queixo de maneira a levantar a minha cara, olhou-me nos olhos e deu-me um beijo.  
      Sorri.  
- Vá, agora ajuda-me com o pequeno-almoço - pedi.
- É para já - sorriu. 
     Preparámos o que faltava e entretanto a avó e Mercúrio acordaram. 
    Ficaram surpreendidos com a minha boa disposição e eu contei-lhes o que aconteceu. A avó e Mercúrio ficaram aliviados por Lua ter-me visitado nos sonhos e me ter explicado melhor as coisas. Ficaram ainda mais contentes quando soube que tinha visto a minha mãe. Notava-se que ambos tinham saudades da filha.
- Ainda há mais - disse - a mãe deu-me isto - e mostrei-lhes o anel. 
- Luna, isso é incrível - disse Mercúrio. 
- Querida, estou tão contente por isto tudo! - disse a avó. 
- Eu também, foi a melhor coisa que me aconteceu até agora - disse a sorrir. 
       Sol fez uma tosse a fingir. 
- Oh, não sejas tonto Sol - refilei.
- Só estava a brincar contigo Luna, é ótimo que tenhas conseguido ver a tua mãe, eu compreendo, e não podia estar mais feliz por ti - sorriu-me e deu-me um beijo na testa. Sorri-lhe de volta.  
       Tomámos o pequeno-almoço e depois a avó e Sol ficaram a arrumar as coisas, enquanto que eu e Mercúrio fomos conversar para o alpendre.  
- Mercúrio...
- Sim Luna?
- Hum, é estranho eu não te ver como um avô? É que tu tens uma aparência de um homem de 24 anos no máximo - confessei. 
       Mercúrio riu-se - Luna é normal, eu não preciso que me chames de avô. Só preciso que me deixes ser teu amigo, isso basta-me. 
- Pronto, ainda bem - sorri. 

The Dream #11

      Fui-me deitar logo depois de termos a conversa. Não aguentava mais bombas em cima de mim, é demasiada informação. A minha vida mudou completamente, mesmo. Descobri coisas que agora me fazem pensar de maneira completamente diferente. A imagem que tinha dos meus pais, dos meus avós, mudou radicalmente. Já nada é o mesmo, e agora é que me apercebi disso.  
      Deitei-me e logo adormeci. O stresse era tanto, que a única coisa que se manteve a mesma, a minha confortável cama, me acalmou e me relaxou.


No Sonho Dessa Noite 


     O local estava iluminado e o céu era luz branca com suaves toques de lilás e azul; Dele caíam gotas de  luz que tornavam tudo mágico. Havia um pequeno lago de cor cristalina, reluzia de tanta beleza e trazia nenúfares com flores cor de rosa. À sua volta estavam pedras que completavam o cenário de conto de fadas. 
     Havia altas árvores com espaços generosos entre si e as flores eram, de longe, as mais bonitas que alguma vez vira. Combinavam com os tons do cenário, eram azuis, lilás, brancas e algumas tinham um pingo de amarelo. 
    Uma voz suave cantou o meu nome, Luna, e uma luz apareceu. Dessa luz apareceu a mulher que, apesar de nunca ter conhecido, sabia exatamente quem era. 
- Lua - sorri. 
- Sim Luna, sou eu - sorriu.
     A sua cara era ainda mais bonita do que sempre imaginara. Os seus olhos era tão claros que quase pareciam brancos, no entanto, tinham um toque de prateado que os tornavam prata pura. O tom do seu olhar era compreensivo, carinhoso e meigo. Trazia calma e sabedoria. Lábios bem desenhados e tinham uma cor natural linda. O seu belo cabelo liso e loiro claro cobria-a como um véu e trazia uma tiara prateada com uma lua prateada. 
      No seu corpo, assentava um vestido comprido com um corte, não muito profundo, da perna direita até ao chão, de cor azul-acinzentado que criava um degradê até em baixo, da cor mais clara para a mais escura.
      Estendeu-me a mão e eu sem hesitar deu-lhe a minha. Apesar de ser a sua representante, a Lua tem o seu próprio espírito, bem como todas as luas, e eu tinha de estar à altura desse mesmo espírito.
- Onde vamos? 
- Já vais ver, Luna - sorriu-me. 
      Assim que as nossas mãos se tocaram, criámos uma espécie de ligação. Ao toque fomos transportadas para um tipo de espaço completamente diferente. Nele flutuávamos, e nas paredes havia marcas do passado, presente e futuro. Todos os acontecimentos que se passaram, passam e passarão. Notei neles algo de familiar. 
- Espera... Isto é a minha vida - conclui. 
- Sim Luna, esta é a tua vida e tudo o que se relaciona com ela - explicou Lua - Como por exemplo, temos ali um espaço somente com acontecimentos sobre a tua avó - e apontou para uma parede do nosso lado esquerdo. 
- Vamos ver o meu passado? - perguntei receosa. 
- Vamos sim. Há coisas que precisas de saber antes de te prepares.
- Mas a avó já me contou Lua - insisti. 
- Contou-te o que lhe aconteceu, contou-te o que sabe - olhou para mim - e precisas de saber o que ela não te pode contar - sorriu-me. 
     Lua esticou a mão que não estava agarrada à minha e pegou num acontecimento do passado da avó. 
     Num instante já não estávamos no espaço de memórias, mas sim no momento em que aconteceu a cena que estávamos a ver. 
      A avó estava nova, tinha os seus longos cabelos loiros preso num rabo de cavalo alto e trazia roupa que não devia ser confortável para lutar mas era de alguma forma: calças justas de cintura alta e uma camisola de manga até ao cotovelo. Ajudava Sol a preparar-se para a sua primeira batalha contra Tema quando uma luz aparece no nosso jardim. Era Mercúrio. Mercúrio tinha aparecido pela primeira vez em nossa casa. Sabia disso pelo olhar confuso da avó. Sol fez as apresentações, avó e Mercúrio logo se conectaram. A ligação entre os dois foi instantânea, tão diferente de mim e de Sol, porém, muito encantadora. 
- Foi assim que os teus avós se conheceram - disse Lua. 
      Desse momento fomos para quando a avó soube que estava grávida da minha mãe. 
- Mercúrio - chamou avó. 
- Sim Mondy? - sorriu ao vê-la entrar pelo alpendre.
- Temos de falar.
- Está tudo bem? 
- Sim, bem... Não... Não sei. 
- Então? Conta-me - insistiu impaciente. 
- Estou grávida - confessou.
      Mercúrio sorriu de orelha a orelha quando ouviu a notícia. Agarrou em avó e levantou-a ao ar de alegria. Beijou-a e abraçou-a. A avó retribuiu-lhe a felicidade e o amor. Estavam os dois felizes e chocados. Não sabiam que isto era possível. 
      Com este momento acabado, fomos para o dia do parto. A avó estava em casa, no quarto de hóspedes com Mercúrio, Sol e outra mulher desconhecida. Sol entretanto saiu e a avó ficou somente com Mercúrio. 
- É uma enfermeira amiga da tua avó, Luna - já me tinha esquecido que ainda à quem me consiga ler.      Lua sorriu. 
     Quando a minha mãe finalmente nasceu, trazia o símbolo de Marte no ombro a brilhar. Foi assim que souberam que o bebé que tinha acabado de nascer era a nova forma humana de Marte. A minha mãe e Mercúrio tinham as marcas em ombros opostos; ela no seu direito, Mercúrio no seu esquerdo.
- Lua... Como é que a minha mãe nasceu um Planeta? 
- A tua mãe era uma mulher muito especial, Luna. Ela cumpriu o seu destino de grandes feitos, e nasceu com poderes enormes. Foi a consequência de ser filha de um planeta e de uma representante. Ou ela nascia humana ou representante e o seu destino era ser uma personificação. Ela foi escolhida por Marte, por alguma razão terá sido - explicou e sorriu-me. 
      Depois do momento do parto vimos pequenos fragmentos de alguns dos episódios do passado da minha mãe como a infância. Eu estava a ver a minha mãe a crescer, a sorrir, a viver e trouxe-me tantos sentimentos desconhecidos. Adorei ver a avó sorrir e Mercúrio a ser pai. A minha mãe tinha o sorriso mais bonito. 
      De todos estes flashes, paramos no momento em que a minha mãe conheceu o meu pai. Ela não devia ter mais de dezanove anos.
- Quem és? - perguntou desconfiada. 
- Calma, não pretendo fazer mal.
      E da sombra que o cobria, surgiu um homem alto, vestido apenas com calças de ganga pretas. O seu cabelo era preto que nem a noite, os seus olhos dum azul acinzentado claros e os lábios bem traçados. Trazia um sorriso de engatatão mas atraente e a sua marca estava na parte de dentro do seu braço esquerdo. Aproximei-me dele, afinal, isto já se tinha passado, não fazia mal. Do local onde o meu pai parou, eu parei também. Fiquei de frente a admirar cada pedaço do meu pai, a tentar descobrir as coisas em comum que eram praticamente todas. Infelizmente, herdei pouco da minha mãe, fisicamente.
       A minha mãe, como eu, teimosa que nem uma porta, não deu o braço a torcer facilmente. Parecia um dèja vú. 
- Fazem-me lembrei duas pessoas - disse Lua a meter-se comigo. 
     Corei e dei-lhe um sorriso tímido. Em seguida visitámos alguns fragmentos da relação dos dois, a maior parte eram cenas dos dois a conversarem ou a passearem por algum lugar. Hás vezes via vislumbres de discussões mas eram tão breves que pensava estar enganada. Momentos depois, Lua parou o tempo quando a minha mãe contou ao meu pai da gravidez. 
- Plutão, tenho de te contar uma coisa. 
- Está tudo bem, Mel? 
- Sim. 
- Podes contar-me - deu-lhe a mão. 
     Hesitante disse - Estou... Estou grávida.
     O meu pai ficou sem reação, limitou-se a soltar um sorriso antes de falar. 
- Mel, isto não é a brincar pois não?
- Sabes que não ia brincar com coisas assim. 
- Mel! - exclamou num suspiro. - Isto é fantástico, vamos ter um bebé!
      Sorriu ainda mais e agarrou na minha mãe, abraçou-a e beijaram-se. Notei que o meu pai não quis acreditar logo, porém, mostrou uma felicidade imensa depois.  
- Não te preocupes Luna, o teu pai amou-te desde do dia que soube que existias. 
- Pois, mas isso não o impediu de deixar-me. 
       Lua nada disse.
     Quando este momento chegou ao fim, assim como no da avó, fomos para o dia do parto. Estava a avó, uma enfermeira e Mercúrio no quarto onde se encontrava a minha mãe, prestes a dar à luz. Nasci, e nos últimos segundos de vida da minha mãe eu estava com ela, deitada junto da sua cabeça. Ela sorria e olhava para mim orgulhosa, apesar de não me poder ver crescer, eu via o seu amor por mim a cair por entre as lágrimas de felicidade que derramava por ser a última coisa que iria ver. Comecei a chorar tanto. Eu acabei de ver a vida da minha mãe, de ver o seu amor por mim e isso é algo que nunca vou poder esquecer. Eu tenho tantas saudades dela apesar de ela nunca ter estado comigo. Eu queria tanto que ela tivesse vivido, por mim.  
- Lua, porque é que ela morreu? - disse, a limpar as lágrimas.
- Apesar do seu amor por ti ser maior que todas as forças, o coração da tua mãe estava partido. O seu Tal não estava com ela. Plutão não esteve presente nos últimos dias de vida da tua mãe Luna, e esses foram os mais importantes. Para além do mais, ela perdeu muito sangue. Nem mesmo um Planeta consegue sobreviver assim.
- O meu pai deixou-a? 
- Não, mas eles não estavam bem e o teu pai decidiu Materializar-se.
- Mas então... Porque ele não ficou comigo? 
- Não posso responder por ele, Luna. Vais ter de perguntar-lhe.  
       Voltámos a dar atenção ao momento que decorria à nossa frente, o meu nascimento. A minha marca atrás do pescoço soltava um brilho azul e era em forma de lua cheia - um círculo. A minha marca mudava de sete em sete anos mostrando as quatro fases da lua. Aos vinte e um anos, a minha marca final era de Quarto Minguante. 
      Num segundo voltámos ao local onde encontrei Lua. Depressa encontrámos um banco e nos sentámos. 
- Sempre que precisares de mim, aparecerei nos teus sonhos Luna. 
- Foi por isso que apareceste hoje? 
- Sim. Estavas muito confusa e percebi que precisavas dum caminho melhor - explicou. 
      Lua era para mim uma figura maternal, carinhosa e sábia. Agora que a conheci finalmente, não queria deixar este lugar. Tenho mil e uma perguntas para lhe fazer. 
- Podes perguntar-me o que quiseres Luna - sorriu. 
- Lua, onde estão os meus poderes? 
- Hão de aparecer Luna, ainda não é tempo - respondeu. 
- Mas eu preciso de treinar, como é suposto ajudar Sol?
- Com o teu carisma. Há muito que possas ensinar ao Sol, tens é usar a cabeça. 
- E se não for capaz?
- Não duvides de ti Luna, és mais poderosa do que pensas - sorriu. 

november, be good.

o que outubro não me trouxe,
espero que me tragas.
o que a brisa gelada não conseguiu fazer voar,
espero que o teu vento galopante o faça.

The Truth #10

     Na hora do jantar foi tudo bem estranho. A avó ficava calada a cada tentativa de conversa. 
- Adoro a comida Mondy - disse Sol. 
- Está mesmo boa avó, adoro - continuei. 
- Obrigada - deu um sorriso falso e voltou para a sua cara de pensativa. 
      Fiquei na cozinha a ajudá-la a lavar os pratos e a arrumá-los. Cada vez que puxava um assunto ela fazia questão de apenas dizer "pois", "claro Luna", "hum", "sim". Fartei-me, fui logo direta ao assunto. 
- Avó, olha para mim - ralhei. 
- Que foi Luna? Queres outro pano? - perguntou ausente do mundo. 
- Não. Quero que me digas o que aconteceu entre ti e Mercúrio. Estás a esconder-me algo, eu sei - afirmei. 
      Logo voltou à terra e deu-me a sua atenção - Luna, de onde ouviste isso?
- Tu própria o disseste. 
- Andaste a ouvir por detrás das portas? - pareceu ofendida. 
- Não foi a minha intenção  mas sim, ouvi. E ainda bem que ouvi. Pensava que não tínhamos segredos e afinal... Parece que não sei tudo sobre ti ou sobre a nossa família - respondi chateada e fui-me embora da cozinha. 
- Luna! -chamou-me, mas não voltei. 
      Saí de lá a bater o pé, com uma raiva enorme dentro de mim e quando cheguei ao quarto fiz questão de bater a porta com força para todos perceberem o quão chateada estava. Sim, fiz meio que uma birra, mas a avó não tem o direito de esconder-me coisas principalmente se são sobre mim. 
      Bateram à porta e logo gritei: 
- Vai-te embora avó! Não quero falar agora. 
- Luna, sou eu - disse Sol calmo.
     Levantei-me e fui abrir-lhe a porta. Assim que vi a cara dele preocupada comigo, abracei-o. Sol abraçou-me de volta. O calor do seu corpo acalmava-me, trazia paz para a minha cabeça. Os seus braços eram o meu porto de abrigo.
     Sem dar conta, comecei a chorar. Sol afastou-me um bocadinho e colocou as suas protetoras mãos na minha cara e com o polegar limpou-me as lágrimas. Sorriu-me. 
- Vai correr tudo bem Luna. Tudo se vai resolver. 
      As suas palavras deixaram-me mais calma e certa de que tudo realmente se iria resolver. Chorar não me adiantava de nada. Não era a chorar que ia resolver o drama que causei. 
- Tens razão Sol - sorri e limpei as lágrimas. - Tenho de ir falar com a avó. 
- Tens a certeza? 
- Sim, absoluta. 
- Então vamos lá - colocou o seu braço envolta dos meus ombros e deu-me um beijo na testa. 
     Apesar do apoio de Sol estava nervosa como tudo. Será que a avó iria contar-me tudo ou ficar super chateada pela minha atitude? Fui infantil. Fiz birra. Nem lhe dei uma hipótese de se explicar... E Mercúrio? Onde é que ele fica no meio disto tudo? Tantas perguntas e tão poucas respostas. 
     O caminho até à sala pareceu tão longo, e quando cheguei, nem sabia com que cara ficar. Mercúrio e avó estavam sentados no sofá prontos para termos a conversa que causou o drama todo. Tenho dúvidas sobre a avó contar-me assim de boa vontade. Ela disse que eu não poderia saber isto por nada e agora está disposta a falarmos? Ok. Tenho de ter calma. 
- Senta-te por favor Luna - pediu Mercúrio. 
     Sentei-me no cadeirão em frente ao sofá e esperei que eles começassem a falar, mas eu não me contive. 
- Desculpem por isto. Fui uma criança. Não agi com cabeça, se não me quiserem contar nada por agora tudo bem, eu mereço e não... - a avó interrompeu-me. 
- Luna, está tudo bem. Nós percebemos. - sorriu. 
     Com o familiar sorriso da avó percebi que estava tudo bem. Acalmou-me um pouco. Sol que estava atrás de mim, tinha a mão esquerda no meu ombro e delicadamente apertou-o para aliviar a tensão que estava posta neles. O seu toque dizia vai correr tudo bem, não te preocupes, estou aqui
- Vamos contar-te tudo. Já o devíamos tê-lo feito, mas sempre adiámos o assunto - explicou Mercúrio. 
- Agora é tempo de dizer-te a verdade - concluiu a avó. 
- Então força, estou a ouvir - disse. 
- Conheci Mercúrio quando estava a preparar Sol para a luta contra Tema. Ele apareceu e foi como te disse, bastou um olhar e ele me conquistou. E pelos vistos conquistei-o a ele - sorriu a relembrar os bons tempos - Não andávamos sempre juntos, eu ainda tinha que treinar Sol, mas tínhamos os nossos momentos privados. E por causa desses momentos privados, aconteceu o inesperado. 
- O que aconteceu avó? - perguntei curiosa, chocada, nervosa e ansiosa.
- Fiquei grávida Luna, fiquei grávida da tua mãe - confessou finalmente. 
     Eu nem acredito no que ouvi. Mercúrio é pai da minha mãe? A avó e Mercúrio? Sempre pensei que a avó tivesse casado com um homem normal e após a morte da minha mãe divorciado-se...
- Eu sei que é muito para processar Luna mas... 
- Muito para processar? - interrompi-o chocada e confusa - A minha mãe é filha de uma forma humana da Lua e dum planeta... - disse baixinho a assimilar tudo.
     Olhei para eles e vi logo que havia mais.
- Contem-me tudo - pedi. Sol colocou-se ao meu lado e agarrou-me na mão.
- A razão pela qual nunca conheceste os teus pais é porque - começou Mercúrio.
- A minha mãe morreu no parto certo? - interrompi Mercúrio. 
- Sim Luna... Mas tu não sabes quem eram a tua mãe e o teu pai na realidade - continuou avó.
- Então quem eram? - perguntei confusa. 
- A tua mãe era a personificação de Marte - respondeu Mercúrio. 
- O quê? - fiquei de boca aberta. 
- E o teu pai...
- O meu pai? - apressei-o a dar a resposta. 
- O teu pai é a personificação de Plutão.   
       O meu mundo acabou de dar uma volta de 180 graus. Mesmo. 
- Eu sou filha de Planetas? Isso é possível? Como é que isso é possível?  - questionei chocada.
- Bem, pelos vistos é Luna. 
- Mas esperem - comecei a raciocinar - Se o meu pai é a personificação de Plutão e a minha mãe a de Marte, o que eles estavam a fazer na Terra? 
- Assim como Mercúrio pode ir a outros planetas, eles também se o tal Planeta permitir - concluiu avó. 
- Vocês têm a noção que acabaram de jogar uma bomba de informação em mim não sabem? 
- Sabemos e foi por isso que não te queríamos contar - disse Mercúrio. 
- Mas ainda bem que contaram... É bom saber a verdade. 
- Espero que percebas o porquê de o termos escondido isto - disse avó.
- Claro avó e desculpa por tudo - sorri e fui abraçá-la.
- Avó... o meu pai ainda está vivo? 
- Sim Luna. O teu pai ainda está vivo. 

bright petals.