Underneath: Qaya #36

- Como é que nos encontraste? - perguntou Violet.
- Não vos encontrei. Estava a passar e ao virar da esquina vocês apareceram.
- Isso não faz sentido nenhum - Melody comentou, ainda a segurar a t-shirt de Ryan.
      Troy tocou no animal, virou-se e começou a andar.
- Troy, aonde vais? - Ele não respondeu. Violet começou a correr na direção dele com o braço a tentar alcançá-lo. - Onde vais? - As mãos dela puxaram levemente a camisola negra dele. Violet não largou. 
- Encontrar a biblioteca. A Eve sabe o caminho exacto.
- Está bem, espera por nós.
- Obrigado por virem mas podem voltar para trás - ele virou-lhe as costas.
- Troy! - chamou ela, a pegar no braço dele. - Nós estamos aqui. Não vais fazer este caminho sozinho, estás a perceber? - disse ela, irritada. 
- Vi - disse a irmã. Violet não a ouviu. 
- O Ryan quase morreu ao tentar ir atrás de ti naquela floresta. Isso não te diz nada? - continuou Violet.  
- Violet, deixa es... 
- Troy! - exclamou ela, a tentar alcançar demasiado. 
      Violet apertava o braço de Troy com força. A luz azul contornava o rosto dela. Troy nunca a tinha visto com tanta decepção nos olhos. Ele nem deveria sentir-se afectado pelo que ela lhe disse mas ao vê-la a colocar tanto sentimento e determinação nas palavras era impossível ignorar a razão que ela lhe transmitia. Não sentia pena de Ryan, ele seguiu-o por quis mas por alguma razão sentia-se obrigado a reagir ao que Violet disse. Troy até podia ver uma luz invisível irradiar do corpo dela e a puxá-lo. No entanto, ele sentiu uma onda negra a lavar todos aqueles pensamentos. Os seus olhos azuis esverdeados ficaram subitamente mais escuros e qualquer desejo de reagir perante às palavras que lhe foram ditas desapareceram. 
- Ele veio atrás de mim porque quis. Não tenho nada a ver com isso - ele tirou o braço das mãos dela. 
      Os braços dela caíram e ficaram quietos em cada lado do seu corpo. Ela não via nem um pingo da outra metade de Troy naqueles olhos azuis esverdeados. Ela devia tê-lo ajudado quando ele pediu naquela noite...
- Deixa-me ajudar-te, agora. De certeza que não tens comida suficiente ou água - Violet encarou-o com a mesma decepção nos olhos.
- Tudo bem - disse ele. Já não suportava aquele olhar. Preferia fazer-lhe a vontade que vê-la daquela forma. - Vamos. 
- Mel, Ryan, não fiquem para trás - ela sorriu. 


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- Onde arranjaste esse cão? - perguntou Melody. 
- Ou urso - observou Ryan. 
- É uma cadela... Espécie... Mais ou menos - respondeu Troy com pouca vontade de falar. 
- É linda - comentou Violet, a passar a mão pelo corpo grande dela. Eve balançou a cauda em satisfação.
- Devemos prepararmos-nos para alguma surpresa desagradável? 
- Não, felizmente. É difícil, por si só, dormir com o irritante som da água a pingar. Imagino como seria se houvesse ameaças pelo túnel. Se houvesse, a Eve já os teria cheirado, de qualquer maneira. 
- Porque é que ela está aqui? Ela foi presa? - perguntou Ryan. Melody olhou para ele de soslaio pois eram essas exactas perguntas que ia fazer. 
- Penso que sim. Se reparem há gravuras nas paredes e vi algumas sobre a Eve perto da sua toca. Parece que as pessoas da aldeia tinham medo dela e trancaram-na aqui para guardar o túnel. 
- Por falar nisso, não acharam a atitude do Órion suspeita? Ele a sorrir enquanto a porta do túnel fechava... - comentou Violet. 
- Eu acho que ele é um dos anciãos de Qaya. Ele pode parecer jovem mas aposto que usou uma magia qualquer para mudar a aparência. 
- Como é que sabes isso? - Melody questionou. 
- O Saeva contou-me. 
       Um choque silencioso atacou-os. 
- O quê!? - disse Ryan. - Evans, como assim o Saeva contou-te? 
- Oh, és o único que não sabe? Ótimo trabalho, gémeas - disse ele, com um sorriso na voz. 
- Troy! - disseram os três. Troy parou de andar e olhou para eles. 
- O que foi? Não é nada de mais - encolheu os ombros tranquilamente. 
- Nada de mais?! - Ryan exclamou, completamente confuso e nervoso. 
     Ryan avançou na direcção de Troy e colocou-lhe o antebraço no pescoço ao empurrá-lo contra a parede. 
- Ryan, larga-o. 
- O que é tu fizeste ao Troy? Como é que deixaste o Saeva apoderar-se de ti? 
     Troy tinha um sorriso trocista no rosto. Eve estava rosnar baixinho e Violet estava a tentar acalmá-la. 
- Responde-me! - ele pegou em Troy e empurrou-o de novo contra a parede. 
- Ryan, pára - pediu Melody. 
- Isto não vai resultar em nada. Olha para ele - disse Violet. - Ele nem quer saber. 
      Troy ergueu as sobrancelhas a desafiá-lo. Ryan largou-o. 
- O que aconteceu? - perguntou. - Como...
- Eu acordei para a vida, está bem? Para quê recusar todo o poder que a Escuridão me oferece? - respondeu Troy. Ele ajeitou a camisola e o cabelo loiro. - Já estava na hora do Troy bonzinho ir-se embora. Vamos admitir, não estávamos a ir a lado nenhum. Ryan atirou-o contra a parede outra vez. 
- Ryan! - Melody pegou no braço dele. 
      Todos ficaram a olhar para Troy com um certo desprezo e nojo. Ryan não estava a suportar aquilo tudo. 
- Troy, podes calar-te, se faz favor? - Violet pediu mas no tom de voz estava uma clara ordem. 
- Com prazer - ele deu palmadinhas na Eve e os dois começaram a andar. A luz azul dele seguia-o. 
      As gémeas, sem se aperceberem, fizeram os mesmos movimentos com as mãos e criaram luzes brancas e alaranjadas que ficaram a pairar sobre as cabeças deles. 
- Eu sei que devia ter-te dito alguma coisa mas não consegui. Não pensei que ele fosse ficar desta forma, Ryan. Desculpa. 
- Esquece isso, Violet. Isso não interessa agora - disse o rapaz. - O que importa neste momento é o que vamos fazer em relação àquilo - fez um movimento com a mão na direcção do melhor amigo. Ryan ficou a pensar se devia continuar a tratá-lo dessa forma... 
- Não sei - disse a personificação de Vénus. 
- A nossa melhor hipótese é a biblioteca, Ryan. Logo, a nossa melhor hipótese é segui-lo - Melody colocou o seu olhar no corpo alto vestido a negro de Troy. 
- Vêm ou nem por isso? - perguntou Troy. A sua voz ecoou pelo túnel.


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      Da única janela, que tinha 5 metros de largura e que ia até ao tecto do quarto, Catarina conseguia ver Júpiter a flutuar na massa negra e estrelada do espaço. Ela calculou que estaria num dos satélites do Planeta. Tinha passado algumas horas, supôs ela, desde que Júpiter a trouxera e se fora embora. Entretanto, ela tinha dado uma volta pelo quarto mobilado. As paredes azuis escuras e algumas partes da decoração, a cama de dossel em especial, faziam lembrar decoração palaciana com os detalhes dourados nas paredes. Catarina ficou contente ao ver duas grandes pinturas penduradas em cima duma cómoda branca e outra ao lado da porta. Ela demorou a sujeitar-se à situação. Não tinha entrado na cabeça que era prisioneira do maior Planeta do Sistema Solar.
       Estava a ficar escuro. Catarina não tinha certeza do porquê. Se estivesse na Terra o sol ainda brilharia. Mas ela não estava... Quando os olhos dela já quase não conseguiam distinguir por onde ir, as luzes dos candeeiros de parede e o grande lustre no tecto acenderam causando uma enorme iluminação na sala. Catarina teve de tapar os olhos por alguns segundos até conseguir mantê-los abertos sem os fechar logo a seguir. A porta abriu-se. Júpiter entrou com sacos de papel que cheiravam a comida quentinha, como se estivesse a regressar de um dia de trabalho.
- Trouxe chinês. Se não gostares mais fica - disse ele, com a voz grossa.
       Catarina olhou em volta e reparou que a cor das paredes se tinha tornado num azul esbranquiçado, como se tivessem absorvido a luz. 
- Que horas são?
- Hum, o dia está quase a terminar. Se te referes às horas na Terra, são seis horas da tarde.
- Oh merda - disse ela. - Eu preciso de falar com a minha mãe.
- Caso não tenhas percebido, não existe aqui rede - comentou sarcasticamente.
- Não podes deixar-me ir a casa e jantar com ela e depois trazes-me de volta?
- O quê? - disse a julgar a ideia dela como absurda.
- Eu percebo o teu objectivo ao manteres-me presa e eu não pretendo fugir porque, vou ser honesta, nunca ia conseguir, portanto, mais vale ajudar-nos mutuamente. Que tal?
- Que tal... não?
- Vá lá, nem que seja por uns minutos. Ela já está passada comigo por ter desaparecido.
- Não é minha culpa. Não vais sair deste quarto.
     Catarina demorou pouco até arranjar uma solução. 
- Oh, tens a certeza? - disse ela, com um olhar desafiador. 
      Catarina começou a caminhar na direção da porta. Estava disposta a levar a sua avante fosse de que maneira fosse. 
- O que achas que a Luna e o Sol vão fazer quando descobrirem que me deixaste morrer? - Júpiter que estava demasiado ocupado a procurar os bolinhos chineses finalmente prestou atenção à rapariga morena. - O que achas que o Troy - deu ênfase ao nome dele - vai fazer quando souber que me deixaste sair por esta porta fora? - Ela estava agora a rodar a maçaneta. - Tenho a certeza de que não seria o Troy quem eles iriam atrás. Uma passo - levou a mão à ombreira da porta, - e tu é que viras o vilão da história.
- Se és assim tão corajosa, vai em frente.
     E ela foi. Deu dois passos no vazio e sentiu o sistema do seu corpo parar e depois a entrar em colapso: a língua a engrossar, a garganta a secar e o cérebro a paralisar por completo. O coração queria sair-lhe do peito, assim como os olhos. O corpo implorava por oxigénio e Catarina nunca tinha estado em tal agonia. Júpiter agarrou-lhe o braço e puxou-a para dentro. Ele deitou-a no cama e tirou-lhe o cabelo castanho da cara.
- És louca - disse.
      Ela sentiu o oxigénio a regressar aos seus pulmões e ao seu sangue. A agonia estava a passar.
- Vais fazer o que eu te pedi? - conseguiu dizer passado momentos.
- Que remédio tenho eu. Mas primeiro vais comer o que te trouxe. Não gosto de desperdiçar comida - deu-lhe a mão para ela levantar-se e apesar da tontura, ela conseguiu caminhar até à cadeira. - Tenta uma dessas outra vez e eu próprio te mato.
- Tenho de te provar mais uma vez que não me deves desafiar, Juju?
- Continua com as gracinhas que te tranco neste quarto para sempre - disse ele a sorrir ligeiramente. 


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      Charlotte e Steve Evans fecharam o bar mais cedo de propósito para irem à casa dos Brown. Ao contrário da mulher, Steve não ficou nada surpreendido ao ver a porta da frente aberta. 
- Podemos entrar? É a Charlotte, a mãe do Troy. Estou com o meu marido. 
- Entrem, entrem - ouviram uma voz dizer. 
     Uma mulher da idade da Charlotte apareceu no hall. 
- Sou a Luna, a mãe das gémeas - disse ela, a cumprimentar os pais da Estrela com dois beijinhos. - Peço já desculpa pela desarrumação. Não planeávamos ter mais convidados por hoje. 
- Moony? Eu... - um homem alto com uma crista lilás enorme apareceu. - Oh, vocês são mesmo pais do vosso filho - disse ao ver os Evans. - Parece que fizeram copy e paste com... 
- Urano - Luna cortou a fala dele. - Não é a altura para isso. Desculpem, vamos para a sala? É por aqui - Luna indicou-lhes a sala mas os Evans não se mexeram. 
- Hum, Luna - disse Charlotte um pouco desajeitada -, gostávamos de saber o que se passa com o nosso filho. A Catarina também está aqui? Ela disse-me que vinha cá e depois ia almoçar ao bar e nunca chegou a aparecer.
- Pois, em relação a isso - começou Luna. 
- Ela foi raptada pelo meu Irmão - afirmou um rapaz em tronco nu. O seu cabelo parecia chamas de fogo. - Estamos a tratar disso. 
- Como? - disse Steve a colocar o braço à volta da esposa. - Foi raptada por quem? 
- Júpiter - respondeu Urano. - Deixem-me dizer que... 
- Urano? A Terra sentiu o Júpiter a entrar na... Vocês são os pais do Troy?  - disse Sol. - Nunca pensei que ele fosse idêntico aos pais - murmurou. 
- Não é? - disse Urano, entusiasmado. 
- Claro que somos os pais dele - disse Steve que começava a achar aquele ambiente demasiado estranho. 
- Como eu estava a dizer, a Jade sentiu o Júpiter a entrar na Terra. Infelizmente, ele já não cá está. 
- Ele deve estar com a Catarina, então. Charlotte, Steve, se a mãe da Catarina começar a ficar preocupada podem dizer-lhe que ela está a dormir cá em casa? 
- Não! - respondeu Steve.
- Claro - assegurou Charlotte. - No entanto, preciso que me assegurem a segurança dela. Já basta o Troy, as vossas filhas e o Ryan estarem numa outra galáxia... Estou tão preocupada - disse ela, com a mão no peito. 
- Somos duas. Nunca pensei que elas fossem ter de enfrentar uma coisa destas, são apenas crianças! - desabafou Luna. 
- Querida, temos de ir - disse Sol.  
      Charlotte tirou da mala um caderninho, escreveu o seu número de telemóvel numa folha, arrancou-a e entregou-a à mãe das gémeas. 
- Coloquem-nos a par de tudo. Vamos ajudar no que pudermos - disse ela. 
- Assim farei - Luna abraçou a mulher loira e em seguida os Evans saíram da casa. 
- Vocês repararam no nariz dela? Fogo... - disse Urano a passar a mão pelo cabelo. 
- Já acabaste? Aposto que eles ficaram muito impressionados. 
- E deviam! Estar na minha presença é um privilégio. 
- Claro, Urano - Mercúrio deu leves palmadas no ombro dele. 



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       Apesar de iluminado, o caminho parecia bastante escuro. Ninguém falava pois nada havia a ser dito. O grupo parou uma vez para comer e descansar e logo a seguir retomaram o caminho. Violet partilhou a comida do seu saco com Troy visto que ninguém estava disposto a contribuir. Ele recusou as primeiras duas vezes que ela sugeriu a comida. Ryan disse-lhe: 
- O que te custa aceitar uma sandes? O Saeva não gosta de frango e alface? 
      Melody deu peças de fruta à Eve assim como Ryan. Depois de andarem mais algumas horas e terem noção que já estavam a ficar muito cansados, pararam para dormir. Troy tinha razão numa coisa: o som da água a pingar era demasiado irritante. Isso só contribuiu para que eles demorassem bastante tempo a adormecerem apesar do cansaço nas pernas e costas. 
      Ryan certificou-se que as gémeas estavam a dormir quando murmurou baixinho: 
- Temos um mar por descobrir... - ele ficou à espera que Troy, pela amizade deles, dissesse a frase que completava aquela. 
     Troy ouviu-o mas nada disse. 

bright petals.