Underneath: Short Story #1

     Catarina desviou a sua atenção do quadro que pintava para fitar o pôr do sol das altas janelas ao seu lado. Aquela luz obrigou-lhe a cerrar os olhos e fechá-los até. Assim que se habituou aos laranjas, ela mirou a sala de estar atrás de si e viu Júpiter a ler um livro de capa grossa, muito calmo e correto no sofá cinzento. 
     Os olhos azuis bebés de Júpiter subiram do livro e fitaram-na por um longo e silencioso momento. Catarina curvou os lábios num sorriso rápido, muito subtil, e retornou a colocar os olhos na tela com ainda traços de grafite. 
- Quando pensas começar a ajudar-me a pagar a renda, Juju? - perguntou Catarina enquanto escolhia entre dois tons de verde. 
-Eu não vivo aqui. 
- Mas passas a vida aqui - replicou ela, escolhendo o verde da esquerda, lançando-lhe um olhar fugaz.
- Estás a sugerir que me mude para cá, Catarina? 
     Os olhos de Júpiter subiram do seu livro de novo e miraram as costas curvadas de Catarina. Vários metros dividiam-os mas eles nunca foram tão próximos. Ele viu-a encolher os ombros e virar-se para o encarar. 
- Não. Tu estás. 
     Júpiter sorriu e fechou o seu livro. Espreguiçou-se.
- Posso, então? 
- Podes - ela fitou o quadro.
     Ele lambeu os lábios, já a saborear as palavras que iria dizer. 
- Catarina, posso mudar-me para cá? - perguntou ele.
     Júpiter falou com um tom de brincadeira mas queria que ela dissesse que sim para conseguir perceber por onde a relação deles ia a caminho. 
- Hum... Preciso de pensar - gozou ela. 
     Ele soltou um riso mudo e levantou-se. Já esperava aquela resposta dela.
     Catarina virou-se. 
- Vou buscar o jantar e tu - apontou para ela - devias ir arrumando as tuas malas. 
- Já me ia esquecendo... - disse. - Levas-me lá, certo? 
- Claro. Volto já - pegou no casaco de cabedal preto e no boné e saiu do apartamento. 
     Catarina vai para casa amanhã e não queria nada. Teve uma discussão muito feia com a mãe sobre dinheiro, o futuro e as suas escolhas, e apesar de terem conversado ao telemóvel, ainda sentia o sabor amargo das palavras ditas por ambas. Todavia, Catarina tinha saudades da sua praia, do cheiro salgado do mar, dos cafés à beira-mar e das memórias que lá criou e ainda criava. Por isso, ela fez a vontade ao Júpiter e marcou um encontro com a mãe ainda que estivesse hesitante em vê-la. 
     Ultimamente, via cada vez menos Troy e Ryan que já se encontravam na fase seguinte: Ryan tinha começado a trabalhar na empresa do pai e Troy começou a procurar emprego recentemente. Mas sempre que um deles voltava a Crystal Waters, existia sempre uma reunião, longa ou curta, entre eles.
     Em relação às gémeas, Catarina mantinha uma relação próxima com as duas. Desde que elas se tornaram parte do grupo e Violet e Troy um item, foi inevitável a aproximação entre as três. De início, quando ainda estavam no ensino secundário, foi estranho a relação entre ela e Violet por causa do Troy. Ao ultrapassarem esse obstáculo, descobriram os seus pontos em comum que acabou por as aproximar. As duas tornaram-se conhecidas como o duo das partidas visto que, no verão de há dois anos, pregaram partidas aos rapazes quase semanalmente com eles a falharem por completo na sua tentativa de ripostar. (Eles lá tiveram a sua vingança, mas foi uma partida bem concretizada em nove falhadas.) O facto de ambas estudarem na mesma universidade, apenas em faculdades diferentes, fez com que a amizade dela se tornasse muito especial. Era muito comum elas encontrarem-se de manhãzinha no café perto da universidade para uma conversa e um queque. Violet contava-lhe coisas que os rapazes deixavam de parte como cenas super embaraçosas.
     Com Melody, a relação desenvolveu-se muito facilmente. As conversas surgiam quase instantaneamente sendo os seus gostos tão semelhantes. Melody estava numa universidade diferente da dela e da irmã, não muito longe, mas o suficiente para as gémeas estarem sempre a falar por mensagens de texto ao telemóvel. As três viam-se frequentemente e Catarina sentia-se muito grata por ter rostos familiares tão perto.
     Os amigos que criou na faculdade eram fantásticos: a Caroline estudava fotografia e algum teatro, o Nel e a Joanna design de multimédia com especialização em jogos, e a Isabella ilustração e animação. Os cinco eram conhecidos como o grupo inseparável no lado esquerdo da universidade que entravam em quase todas as atividades propostas. E ela era muito feliz assim.
     Só que Catarina gostava de ter por perto alguém que presenciou os mesmos acontecimentos que ela, que estava integrado no mundo muito pouco normal de que os simples humanos não faziam parte sem ser ela. Ela queria o Júpiter por perto, queria o Troy por perto, queria o Ryan por perto, queria as gémeas por perto. Ela precisava de alguém que não lhe permitisse esquecer aqueles tempos porque ela não queria esquecer. Por essa razão ela queria voltar a Crystal Waters onde esse mundo era familiar.
     O sol desceu, escondendo-se atrás dos prédios da cidade e Catarina ouviu Júpiter abrir a porta. O cheiro a comida chinesa invadiu o apartamento. Júpiter pousou o saco de plástico no balcão, despiu o casaco e tirou o boné. Catarina desceu do seu banco de madeira, colocou o pincel e o copo de tinta na mesinha de madeira e foi para a cozinha, esfomeada. 
- Sabes que existe comida mexicana, indiana e até italiana, não sabes? 
- Sei. 
- Então começa a variar as tuas escolhas. 
- Não gostas de chinês? - ele tirou os pacotes do saco. 
     Catarina abriu o armário e tirou dois pratos pretos. 
- Adoro chinês. 
- Então está tudo resolvido - Júpiter abriu a gaveta dos talheres. 
- Podes pegar os tabuleiros? Eu levo as coisas para a mesinha da sala. 
- Está bem. 
     Os dois jantaram a verem a série favorita da Catarina que, por muito tempo, Júpiter não conseguia manter os olhos abertos por muito tempo enquanto a viam. Eventualmente, ele ganhou o gosto pela série e pelas personagens apesar de não admitir a mais ninguém sem ser a ela tal facto.
     Depois de jantarem, comeram um pouco de mousse de chocolate e Catarina ficou a molengar no sofá; Júpiter alimentou os peixes, lavou a loiça e limpou o balcão. Quando deu a meia-noite, Catarina foi tomar banho. Júpiter foi perguntar-lhe a que horas devia aparecer amanhã, do lado de fora da porta da casa de banho.
- Cedo mas não muito cedo. 
- Precisas de mais alguma coisa? 
- Não, obrigada. 
     Ele ia embora quando ouviu-a chamá-lo. 
- Podes mudar-te para cá, se quiseres.
     Catarina não tinha qualquer hesitação na voz ou dúvidas. Não sentia dúvidas e tinha na mente aquela certeza de que ele já vivia ali praticamente. Eles conheciam-se há tempo suficiente para estarem completamente confortáveis, pelo menos ela sentia-se dessa forma, e Catarina não via problema algum em ele trazer a pouquíssima roupa que tinha e dormir na cama a mais. 
     Júpiter ficou paralisado por momentos como uma estátua. 
- Júpiter? Ouviste-me?
- Ouvi - respondeu.
- Eu já te ajudo com os lençóis - disse ela com a voz mais baixa por ter desligado o chuveiro.
- Está bem.
     Ele foi para a cozinha e pousou as mãos no balcão aproveitando o frio do mármore para esfriar o seu corpo quente. Júpiter tinha controlado os seus sentimentos muito bem por uns longos cinco meses porque não estava com ela em todos os segundos do dia. Agora, no entanto, isso iria mudar. E ele perguntava-se como é que iria esconder tais sentimentos, onde é que a relação deles estava e se Catarina estava disposta a continuar com ele se os seus sentimentos revelarem-se. Depois disto, ele obrigou-se a atirar tais pensamentos para o lado.
- Júpiter? - ouviu Catarina chamar.
     Júpiter atirou o cabelo loiro para trás e mirou-a no corredor enrolada num robe branco e a passar a toalha pelo cabelo escuro molhado. Tinha os pés descalços.
- Calça qualquer coisa, Catarina - alertou, apontando para os pés descalços. Ela nem ligou. - Diz.
- Queres mesmo mudar-te? Para mim não me faz diferença... Praticamente vives aqui. E eu estava a brincar com aquilo da renda mas, se quiseres, a ajuda é sempre bem vinda - disse ela a sorrir.
     Júpiter sorriu também.
- Eu posso ajudar. Os benefícios de estar vivo há milhões de anos é ter arrecadado uma linda e dourada herança - respondeu, libertando-se do mármore frio e indo até ela.
     Os dois começaram a andar lado a lado pelo corredor decorado com demasiados quadros a aguarela de lobos. Pararam na porta do quarto que Júpiter iria habitar - abriram-na.
- Achas que ficas bem neste quarto? É muito pequeno agora que vejo... E preciso mesmo de arrumar as caixas que vieram para aqui...
- Isto é mais um espaço para um escritório do que um quarto - comentou ele, entrando no quarto e examinando-o. - E esta cama veio com o apartamento, certo? - ele apalpou o colchão.
     Catarina riu-se à conta do som do colchão, do ridículo que era aquela cama. A ideia de Júpiter mudar-se morreu naquele instante.
- Desculpa - disse ela, a sorrir. - Peço-te para te mudares mas não há condições nenhumas.
- Eu tenho uma cama. Isto - e apontou para a cama - não é problema.
- O espaço é?
     Ele assentiu ligeiramente.
- Bem, se achares que ficas melhor na Europa deixa-te estar. Não quero que venhas para aqui para dormir neste cubículo.
- Então porque me perguntas-te? Já sabias o tamanho deste quarto.
     Catarina fitou-o, apanhada desprevenida. Encolheu os ombros.
- Porque não? Não és nenhum estranho ao apartamento ou para mim.
     Os dois ficaram submersos num silêncio longo. Júpiter deu uma volta pelo quarto e parou diante de Catarina.
- Vai arrumar as tuas malas. Amanhã venho buscar-te às nove em ponto. Compreendidos?
     Ela fitou os olhos azuis-bebé dele.
- Nove e um quarto?
- Nove em ponto.
     Catarina fez má cara e foi para o seu quarto. Antes de fechar a porta disse a Júpiter:
- Podes desligar as luzes todas antes de te ires embora?
- Posso.
- Está bem, obrigada. Boa noite, Júpiter.
- Boa noite - e tirou-lhe a porta das mãos, fechando-a. - Não vás dormir! Arruma as malas - disse num tom mais alto.
- Sim, sim!
- Estou a falar a sério.
- Boa noite, Juju.
     Júpiter suspirou. Desligou as luzes da sala, da cozinha e da sala-estúdio. Ponderou em dormir na cama frágil e barulhenta mas deixou-se levar pelo hábito de se esconder no seu quarto grande na Europa com medo de ficar e de ela perceber o que ele sente por ela. Eles estavam bem sendo somente amigos, ou como ela dizia, besties, e enquanto Catarina não lhe demonstrar o contrário, Júpiter teletransportar-se-ia para o seu quarto na Europa, escondendo-se no conforto da sua sombra.


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- Catarina! - gritou Júpiter ao ver o apartamento em completo silêncio às nove em ponto. - Catarina! - não obteve resposta alguma. - Já era de prever... 
     Júpiter fez o seu caminho até ao quarto dela, bateu à porta delicadamente e entrou. 
- Pois, a bater à porta já és queridinho - resmungou ela debaixo dos lençóis. 
     Ele levantou o pulso e olhou para o relógio. 
- São nove e um. Estás atrasada. 
- Mais uns minutos. Fui deitar-me à uma e não sei quantas... - queixou-se ela, saindo debaixo dos lençóis. 
     Júpiter sentou-se ao lado dela. Catarina manteve os olhos fechados algum tempo com a cabeça na almofada. 
- Eu sei. Ninguém te mandou ires tomar banho à meia noite e demorares vinte minutos. Já fizeste as malas? 
     Catarina levantou a cabeça, apoiando-a na mão esquerda e fitou-o depois de um bocejo. 
- Não toda. Falta-me alguma roupa. 
- Então vai despachar-te. Eu trato do pequeno-almoço - Júpiter acariciou-lhe o ombro e levantou-se. 
- Não faças ovos... Enjoei outra vez. 
- Não vou fazer - e saiu do quarto. 
     Catarina caiu na almofada outra vez, com uma vontade enorme de dormir o dia inteiro e ficar na cama a pôr-se a par das suas queridas séries. Mas tinha de visitar a mãe, colocar a sua zanga para trás. E a verdade é que sentia saudades dela, dos gatos e do cão. Após a morte da Natacha tiveram a sorte de conseguirem um novo cachorro ao que chamaram de Elvis
     Ela abriu os lençóis e com relutância saiu da cama e arrastou-se até à casa de banho. Colocou-se no duche sendo essa a única forma de acordar por completo e tratou-se. Depois foi para o quarto e escolheu umas calças justas cinzentas escuras, uma camisa cor de laranja com padrão e calçou as suas botas pretas de salto alto. Penteou o cabelo cheio de nós e olhou para a mala junto ao espelho alto. Escolheu o resto das roupas, enfiou metade do que estava na gaveta das roupa interior na mala e fechou-a. Encaminhou-se para a cozinha. 
     O fogão não estava ligado, não tinha ouvido o microondas ou panelas, mas um cheiro percorria a sala e a cozinha. 
- O que é que fizeste, Juju? 
- Nada. Comprei uns croissants, dois pães quentes e dois latte. Preferes chá? 
- Não, obrigada. Fizeste uma boa compra - e sorriu. - Já arrumei a mala - disse ela, depois de provar o seu latte. - Hum... extra espuma. 
     Júpiter começou a esconder o riso atrás do seu copo de latte. Ela também começou a gracejar. 
- O que foi? Tenho um bigode? 
     Ele assentiu, agora perdido no seu riso. 
     Catarina estava a tentar tirar o bigode mas por alguma razão, só espalhou ainda mais a espuma no seu rosto. Era tortura vê-lo a rir-se de si mas ela própria sorria. 
- Tira-me isto, Júpiter... - ele não parava de rir. - Tira-me isto! 
     Júpiter respirou fundo e acalmou-se. Pousou o copo de cartão. 
- Anda cá - Catarina aproximou-se. 
     Ele voltou a rir-se. 
- Pára! - ela deu-lhe uma palmada no braço. - Despacha-te. 
- Está bem, está bem... - ele esticou o polegar e passou-o por cima do lábio superior, limpando a espuma de uma só vez. Júpiter limpou o polegar com a boca, saboreando a espuma. - Prontinho.  
     Catarina de repente viu-o de outra forma, com outros olhos, outras sensações. O sorriso dele era, de súbito, demasiado atraente e charmoso e querido. Fitou de rompante o seu latte e esse pensamento desapareceu num instante, esquecido durante muito, muito tempo. 
- Come o teu pão. Não desperdices - disse ele. - Queres outra coisa sem ser queijo ou fiambre? 
- Tu às vezes falas como se fosses muito experiente com comida só que nunca te vi fazer nada - comentou ela, colocando os cotovelos no balcão de mármore. 
- Eu gosto de comida - respondeu, abrindo o frigorífico. - Isso não quer dizer que cozinhe. 
     Acabaram o pequeno-almoço em meia hora e depois de Catarina lavar e arrumar os pincéis, os dois foram para Crystal Waters. Júpiter levou-a mesmo para a sua porta da frente onde já não havia nenhum Marshall a guardar. Não viu nenhum gato à solta ou o Elvis. Se calhar a mãe não estava em casa como tinham previsto. Catarina fitou Júpiter, que parecia mais novo, e este incentivou-a a entrar. 
     Assim o fez. Abriu a porta e viu a mãe deitada no sofá, com o comando na barriga e o Elvis a correr na direção dela. Já se tinha esquecido o quão grande ele era. A mãe acordou logo com o ladrar do Elvis e os preguiçosos gatos saltaram do sofá. 
- Catarina... 
- Olá, mãe - disse ela. 
     A mãe levantou-se num instante e foi abraçá-la, rendendo-se à saudade. 
- Catarina! Tinha tantas saudades tuas... - abraçou-a fortemente. - Desculpa aquela discussão, foi tão estúpida... 
- Eu também peço desculpa - disse Catarina. 
- Que visita é esta? Vais ficar muito tempo? - perguntou a mãe, olhando a mala de relance. 
- Não muito. Uma semana no máximo, acho eu. Tenho telas por acabar - respondeu. - Mas acho que mereço uma linda e longa pausa. 
     Paula prestou atenção a Júpiter pela primeira vez e limpou os olhos meio molhados.
- Oh, Tristan, estás aí! 
- Olá, Paula - disse ele. - Tudo bem? 
- Eu estou uma desgraça agora, não ligues. Mas sim, tudo, e contigo? 
- Também. 
- Cresceste tanto rapaz - comentou a sorrir. - Entrem, entrem... Não vamos ficar aqui parados na cozinha. 
     Paula foi para a sala com os dois atrás. Elvis estava inquieto com uma vontade enorme de ser mimado. Catarina deu-lhe umas belas festas na cabeça.  
- Olá, meu menino, como estás? Hum, hum? Tens-te portado bem? 
- Vou só colocar a mala no teu quarto, Catarina - disse ele. 
- Está bem. 
     A mãe esperou até Júpiter sair do campo visão para observar: 
- Ainda tem muito sotaque francês naquela voz. 
- Ele fala normalmente. É só mania e exibicionismo, mãe. 
     Júpiter desceu e disse que aparecia talvez para almoçar. Paula agradeceu-lhe por ter trazido a Catarina e depois ele foi-se embora, dando espaço para mãe e filha reconciliarem. 


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- Recebi a tua mensagem. O que se passa? - perguntou Júpiter depois da sua luz azul bebé desaparecer. 
- A minha mãe adormeceu. Queres ir sair? O Ryan e o Troy só podem cá vir amanhã. A Jade deve aparecer mais tarde e o Urano já cá está. 
- Reuniste a malta toda. 
- Não te apetece? - ela sussurrou como a dizer-lhe para falar baixo também. - O Barzinho está aberto. 
- Já podias ter dito mais cedo. 
     Ela sorriu. 
- Deixa-me buscar o casaco. Não faças muito barulho. Estão todos a dormir. 
- Está bem. Despacha-te. 
     Momentos depois ela desceu com um casaco de cabedal preto. Escreveu um bilhete à pressa à mãe para caso de ela acordar e ela não estar em casa. Em seguida, Catarina deu o braço a Júpiter e os dois saíram de casa numa luz azul bebé que irritou o Tufas. 
     Desceram o terreno alto onde a casa da Catarina ficava e caminharam pelo passeio. A rua estava vazia com alguns carros estacionados ao lado dela. Voltaram a descer desta vez uma rua mais larga com uma pequena rotunda, calma e muito verde, e chegaram ao ponto turístico mais frequentado de Crystal Waters - a larga rua com uma enorme calçada decorada com palmeiras altas, candeeiros de ferro e bancos dispostos de forma uniforme. 
- Está uma noite muito boa, não achas? 
- Sim, pois está. Onde é que eles estão? 
     Júpiter olhou em volta e não viu nenhum dos Planetas. Porém, apareceu um grupo de rapazes com uma estridente energia. Havia um casal num dos bancos e passou um carro. 
- Não sei... Deixa-me mandar uma mensagem à Jade. 
- Se calhar é melhor irmos indo para o Barzinho - disse Júpiter, colocando o braço aos ombros de Catarina com um olhar frívolo no grupo que se aproximava. Um dos rapazes olhava para Catarina de uma forma muito pouco agradável. 
     Catarina tirou os olhos do telemóvel. Os rapazes começaram a sorrir e a assobiar.  
- Não ligues, Júpiter. Só querem irritar. 
- Pois, está bem. Vamos? 
- Sim. 
     Ao atravessarem a rua até à calçada, Catarina começou a olhar o mar com uma certa nostalgia. Poucos momentos depois, quando começaram a entrar na zona dos bares e dos cafés onde havia, do lado direito, por cima da arriba, um espaço para observar a praia com dois canteiros de flores redondos, encontraram uma figura muito magra e alta a correr em direção a eles. Ambos pararam e Urano saltou para cima de Júpiter num abraço apertado. 
- Juju! 
     Urano agarrou-lhe a face, deu-lhe um grande beijo na bochecha e voltou a abraçá-lo por momentos. Júpiter ficou atordoado à primeira, mas esboçou um sorriso. Os anéis de Urano brilhavam na luz fraca da noite. 
- Desapareceste! - Urano largou-se do Planeta. - É preciso contactarem-te através da Catarina. Sinceramente, Juju - ele colocou a mão no coração com teatralidade -, esperava mais da tua amizade. Eu que te trato tão bem. Tão bem... Deixa-me dizer-te que adoro o teu cabelo assim, Juju - e apontou para a franja apanhada atrás num pitó e o resto do cabelo solto.
     O Planeta sorriu.
- Olá para ti também - Júpiter pousou a mão no ombro dele. - Como tens andando? 
     Urano recompôs-se: ajeitou o colarinho da camisa aberta até quase a meio, alinhou os colares e passou uma mão pelo cabelo lilás. 
- Ainda bem que perguntaste - começou. - Bem, primeiramente, tenho quase a certeza que o Steve vai passar-me aquele belo bar dele. 
- O quê?! Estás a brincar - exclamou Catarina. 
- Não estou nada! Então? Acham que eu brinco com coisas deste género... - e ajeitou a gola do casaco preto. - É um processo lento, com muita dedicação e noites sem dormir a planear noites criativas para os miúdos e graúdos! Um bocadinho de graxa ao patrão... Ele merece, de facto... Eu praticamente beijo-lhe os pés. Ele ama-me a este ponto - disse ele. 
- Não liguem a esse falatório - ouviram Mercúrio dizer. - São só tangas. 
- Se tu me ajudasses já tínhamos o bar! É uma beleza... Uma beleza! Vai valer uma fortuna quando destruírem a vila e colocarem aqui prédios atrás de prédios. 
- Isso nunca vai acontecer. Nem que eu tenha de comprar a vila toda - disse Catarina. 
     Urano ficou pasmado a olhar para ela, com os olhos claros a brilharem. 
- Mercúrio... - ele levantou os dedos finos até ao rosto dela sem ousar tocar-lhe como se fosse uma jóia rara. - Aprende com ela, sim? 
- Quando é que a Jade vem? - perguntou Júpiter colocando as mãos nos bolsos do casaco preto.
- Ela disse-me que não demorava mas que se quisermos podemos ir andando para o bar. 
- As palavras sagradas! Vamos lá então - disse Urano. 
     Começaram todos a caminhar.
- Amanhã é dia de trabalho, amigo - Mercúrio pousou as mãos nos ombros de Urano. - Se o Steve te vê ressacado estás fora do estabelecimento durante três semaninhas - relembrou-lhe. 
- Ninguém te perguntou nada... amigo. Sabes estragar os meus planos todos. 
- É o que dá não pensares antes de agir, Urano! - comentou Jupiter, com um sorriso matreiro no rosto. 
     Mercúrio riu-se e colocou as mãos nos bolsos do casaco de ganga com pêlo no interior e na gola.
Urano fingiu umas risadas e cruzou os braços. 
     Continuaram em frente até virarem à esquerda numa rua pequena e na terceira porta entraram- tinham chegado ao Barzinho. Os quatro foram cumprimentados por alto pelos barmen e encontraram, felizmente, a mesa com o sofá vermelho livre. 
     Catarina e Urano ficaram no sofá, Júpiter e Mercúrio nas cadeiras.
- O que vais beber? - perguntou Júpiter a Catarina. 
- Traz-me uma margarita. 
- Eu quero um martini - disse Urano. 
     Júpiter e Mercúrio saíram da mesa e foram ao balcão. 
- Então, amiga. O que tens feito? A faculdade tem-te tratado bem, sim senhora - ele virou-se para ela e colocou o cotovelo no cimo do sofá. - Nenhuma olheira, pele reluzente, cabelo brilhante... Se eu não te conhecesse melhor diria que... 
     Catarina revirou os olhos e sorriu de fininho. Os olhos de Urano abriram-se. 
- Andas a esconder-me coisas, Catarina! Conta-me tudo. Como é que ele se chama? Ou devo dizer, ela? - e levantou a sobrancelha. 
     Catarina sorriu. 
- É um ele, Urano. 
- É sempre. 
- Bem, é um rapaz da faculdade. Mas não é nada sério. Não estou à procura de algo sério. Não tenho tempo ou paciência. 
- Este rapaz tem nome? É bonito ao menos? 
- Tem. Chama-se Eddie. É bonitinho. 
- Bonitinho? Só isso? 
- Só isso. 
- Então ele deve ser muito bom no que faz para te ter agarrado. 
     Ela riu-se mas assentiu com a cabeça. 
- Muito bom mesmo... - admitiu, baixinho.
- As vossas bebidas - disse Júpiter pousando o martini e a margarita na mesa. 
- Obrigado, Juju - e bebeu um pouco da bebida. 
- Estavam a falar do quê? - perguntou ele ao ver Catarina tão risonha. 
- Do mundo e as suas inúmeras belezas... Como o Big Ben ou a Torre Eiffel. 
     Catarina quase se engasgou na margarita mas assentiu ao que Urano disse. 
     Os quatro ficaram em silêncio durante algum tempo, absorvidos no ambiente mórbido do bar: estavam algumas pessoas no balcão, ouviam-se outras na esplanada e só mais uma mesa estava a ser ocupada no interior. A música a dar não era nada cativante. A pista de dança estava vazia. As mesas redondas de madeira vazias agora faziam parecer o bar maior do que realmente era. Catarina olhou em volta como se tivesse estado ali pela primeira vez. Não reconhecia o poster a preto e branco que estava na parede do lado direito ou a nova máquina de jogos no canto diagonalmente aposto. Os clientes no bar também não lhe eram familiares aparte de dois homens no balcão que bebiam uma cerveja. Aquele lugar, de certa forma, dizia-lhe que ela já não pertencia ali. 
     O telemóvel vibrou: era Jade. 
- A Jade disse que está quase a chegar. Ela disse que só agora conseguiu falar com os Brown para ficarem com os miúdos. 
- Aquela casa amanhã vai estar um caos - comentou Mercúrio. - Como se já não bastasse a energia infinita do Ian e do Noah, ela ainda vem meter a pirralha da Silver ao barulho. 
- Não fales assim dela! - disse Urano. - Ela é uma criança incompreendida. 
- Incompreendida ou histérica. Acho que sei qual é o adjectivo apropriado. 
- Podem parar de insultar a minha filha, obrigada - disse Jade.
- Posso tentar - replicou Mercúrio, nada constrangido. 
- Olá, Jade - cumprimentou Catarina. 
- Olá, Cat. 
     Jade foi sentar-se ao lado de Catarina no sofá vermelho e pousou a mala ao lado. 
- Como estás, cara amiga? - perguntou Urano. 
- Muito bem. E vocês os dois? - Jade falava de Catarina e Júpiter. - Muito desaparecidos! 
- A faculdade ocupa muito tempo na minha agenda inexistente - justificou Catarina. - E estás linda nesse vestido, já agora. 
- Obrigada - ela sorriu. - Já não saia à séculos. Quando disseste para vir ao Barzinho eu fiquei muito tempo a tentar lembrar-me da última vez que vim a um bar.
- Jade, vamos lá mudar isso - Urano estendeu o copo vazio. - Anda comigo ao balcão. 
- É para já - e foi com ele para o balcão. 
- Ela está tão gira - comentou Catarina. - Não acham? 
     Júpiter não respondeu e Mercúrio encolheu os ombros. 
- Vocês são um desânimo. 
- Este bar é um desânimo - corrigiu Júpiter. 
     Começou a dar uma música que Catarina até gostava e aproveitou a deixa para começar a dançar no lugar. 
- Um de vocês vem dançar comigo e não aceito um não. 
     Mercúrio olhou logo para Júpiter. Este notou o olhar e abanou a cabeça. 
- Espera pela Jade ou assim. 
- Não espero nada, anda - e pousou a bebida na mesa. - Anda lá, Juju. 
     Catarina pegou na mão dele e ele não resistiu. Levantou-se muito relutante e seguiu-a para a pista. Catarina começou a dançar e Júpiter ficou a mexer o corpo de forma muito estranha e rígida.
- Dança lá... - Catarina agarrou-lhe as mãos e começou a dançar com ele. - Solta-te um bocadinho. 
     Júpiter apertou-lhe as mãos, nervoso, abanou a cabeça, afastando qualquer negatividade, e seguiu os movimentos de Catarina. À primeira, Catarina queria muito rir-se dele mas depois começou a gostar dos seus movimentos e da forma como ele se mexia ao som da música. 
- Juju! - exclamou. - Se me disseres que nunca gostaste de dançar eu não vou acreditar!
     Ele riu-se. 
- Eu gostei de dançar há algum tempo atrás. 
- Depois tens de me contar essa história. 
- Logo se vê - e sorriu. 
     Jade e Urano apareceram com as suas bebidas e com o aparecimento das luzes, Urano aproveitou para tirar o casaco comprido e preto e colocá-lo no sofá. Os dois miraram a pista de dança. 
- O nosso amado Júpiter está a dançar... - disse Urano. - Isso é deveras uma coisa que nunca esperei voltar a ver. 
- Vou juntar-me a eles - e Jade foi em direção à pista de dança com a bebida na mão.
-Vais ficar aí parado, Mercúriozinho? 
- Ainda não acabei a minha bebida - desculpou-se.
- Eu vou estar de olho em ti - e com os dois primeiros dedos indicou os seus olhos postos nele. - Quando acabar a minha bebida venho buscar-te. 
- Sim, sim - Mercúrio fez um gesto vago com a mão. - Vai lá dançar. 
- Pois vou - e começou a abanar as ancas, desaparecendo lentamente nas luzes que começaram a bailar pelo espaço. 


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- Que noite! - exclamou Catarina ao sair do Barzinho. 
- Que noite, meninos! - acrescentou Urano, extremamente alegre. - Temos de repetir! Ficas até quando, Catita? 
     O grupo foi dos último a sair do Barzinho: como era um dia da semana não havia muitos clientes. A noite ainda estava bem escura mas já cheirava a madrugada. Catarina estava encolhida no seu casaco de cabedal preto com o braço de Júpiter a oferecer mais calor. Mercúrio cedeu o seu casaco à Jade e não estava a tremer ou a queixar-se do frio na sua camisa de manga curta. Parecia imune ao ar gélido da noite. Já Urano tinha o casaco no braço, imune também ao frio, com as bochechas rosadas da bebida e da dança. 
     Tinham agora caminhado até à arriba onde se podia ver a praia toda e ficaram lá. 
- Até ao final da semana - respondeu-lhe. 
- Sete belos dias de festa. Prepara-te - disse ele com um gesto com o dedo indicador.
- Estes sete belos dias são para eu descansar. Festa sete dias seguidos iam colocar-me ainda mais no poço. Para não falar da quantidade de telas que tenho de terminar depois destes sete belos dias. 
- É para a tua apresentação na Galeria? - perguntou Jade. 
- Sim. Ainda só fiz dois. Faltam-me outros cinco que vão a meio ou estão em stand by.  
- Estão a ficar muito bonitos - disse Júpiter. 
- Obrigada, Juju - ela fitou-o e sorriu-lhe. 
     Ele sorriu discretamente. 
- Tenho então de te visitar um dia, Catarina. Também quero uma visita exclusiva ao teu estúdio - disse Jade. 
     Jade aproximou-se, pronta para se despedir de todos. Notava-se que ela era a que mais cansada estava. 
- Estás mais que convidada. Aparece sempre que quiseres. Traz os miúdos se te convir.
- Obrigada. Irei - e deu-lhe um beijinho. 
     Ela deu outros beijos nas bochechas dos rapazes e desapareceu na sua luz esmeralda após verificar que não estava ninguém na rua. Assim que Jade desapareceu, Mercúrio e Urano também decidiram ir visto que amanhã tinham trabalho no bar. 
- Boa noite, amores - despediu-se Urano com um abraço aos dois. - Liga-me quando quiseres voltar a sair. 
- Se calhar passo pelo bar amanhã. Falamos lá, sim? 
- Claro. Até amanhã. 
     Urano reparou no olhar pouco satisfeito de Júpiter.
- Não te preocupes, Juju, que também estás convidado - garantiu-lhe. 
- Sim, está bem. Vai-te lá embora. 
- Sempre a desprezar-me... 
- Anda lá, Urano! - queixou Mercúrio. 
- Pronto, pronto... 
    Mercúrio acenou adeus e quando Urano se aproximou, os dois desapareceram nas suas luzes laranja e roxa. 
- Vamos para casa? 
- Vamos - respondeu Júpiter. 
     Catarina, a ceder ao sono, repousou a cabeça no peito de Júpiter e bocejou. Ele, sem tirar o braço dos ombros dela, criou a sua luz azul-bebé e ambos foram transportados para o quarto de Catarina onde Tufas os esperava. Se não fosse pelo braço dele, Catarina teria caído com o impacto. 
- Obrigada - sussurrou ela. 
- Precisas de mais alguma coisa? 
- Não, estou bem - respondeu, a caminho da cama. - E tu?  
Catarina sentou-se na cama e tirou as botas de salto. 
- Preciso de ir dormir porque este corpo já não dança daquela forma há décadas. 
     Ela sorriu ao lembrar-se. 
- Não te rias de mim, Catarina - disse ele, a sorrir também. 
- Não me estou a rir - ela fitou-o. - Eu adorei esta noite. 
- Eu também. 
     Catarina voltou a sorrir, feliz por saber que Júpiter estava finalmente a soltar-se um pouco da sua restrição que surgiu após a sua quase morte. Talvez até antes, muito antes. 
     Ela soltou um bocejo. 
- Vou-me embora, então. Boa noite, Catarina. 
- Espera... - ela impediu a luz azul de se propagar. - Tomas o pequeno-almoço comigo? Ou preferes almoçar? É que o Troy e o Ryan vão aparecer amanhã... Não sei se queres... 
- Eu apareço cá de manhã e depois logo se vê. Pode ser? 
- Pode - respondeu. - Acorda-me se eu ainda não estiver de pé quando chegares. 
- Obviamente. 
- Boa noite, Juju. 
     A luz azul-bebé já tinha feito desaparecer as pernas de Júpiter quando este se inclinou, pegou no rosto de Catarina com a mão direita e beijou-lhe a testa. Ela estava num estado tão sonolento que por momentos julgou ter imaginado aquele momento se não fosse pelo calor que os lábios dele deixaram na sua testa. 
- Boa noite. 
     Catarina sorriu. 

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