Underneath #50 - Parte I

     Um grande silêncio surgiu após Troy falar. 
- As coisas não funcionam assim, Troy... - começou Luna. 
- Nós nem sabemos se estas pedras têm energia suficiente para serem mais do que são - advertiu Jade.
- Mas temos de tentar! Eu destruí a casa deles, os seus povos, as suas estrelas e luas... Eu tenho de trazê-los de volta. É o mínimo que eu posso fazer - apelou Troy. - E eu preciso da vossa ajuda. 
- E se conseguirmos? Estas pedras viverão como novos Planetas? - questionou Sol num tom sério. - Sabes o choque que vai ser para os humanos, de um momento para o outro surgirem três novos Planetas? 
     Troy queria argumentar mas não conseguia e Sol roubava-lhe a vez de falar. 
- Nós próprios já esticamos a nossa sorte de estar sempre a desaparecer e a reaparecer. As máquinas que eles colocam à nossa volta conseguem captar o momento em que a nossa forma muda, mesmo que seja por um nada de tempo. Eles só vão ficar mais observadores ao longo do tempo e isso vai continuar a ser um factor de risco. Será que esses Planetas valem a pena?
- Valem.
     Sol suspirou.
- Eu percebo o que dizes, Sol, mas eu não vou desistir disto - declarou. - Eu vou encontrar uma maneira. 
- Tu quase morreste da última vez que tentaste encontrar uma maneira - ripostou a Estrela. 
- Ainda estou aqui - Troy sorriu. - E ainda tenho alguns trunfos na manga - as bolas da palma esquerda rodopiaram num tornado pequeno. Troy apanhou-as enquanto flutuavam. 
- Como...? - questionou Luna, curiosa. 
- Antes do Tema ser, bem, o Tema, ele foi Aaro Alexander dotado com a Magia do Ar. A minha parte Tema morreu, mas a parte Aaro não. Agora, se me dão licença - Troy pegou na bola verde que Sol tinha pegado - vou falar com o meu antepassado e a Lua - e saiu apressadamente do complexo principal em direcção ao complexo mais alto. 
- Quando é que aquele miúdo vai parar de nos meter em confusões? - suspirou Sol de braços cruzados. 
- Ele é a reencarnação do Tema. Ele foi feito para nos meter em confusões - lembrou-lhe Jade, virando-se para a chaleira.
- Estou velho demais para isto. 
     Luna revirou os olhos e ela e Jade riram-se dele. 
- Vocês estão a rir mas eu estou vivo há...
     Luna colocou a mão na cabeça dele e despenteando-o.
- Menos, querido. 



◄◊►


     Ao sair do complexo, Troy esbarrou-se contra Violet. 
- Estava à tua procura - disse ela um pouco nervosa. - O Ryan disse-me que recuperaste a voz. 
- Sim, pois foi - ele sorriu na sua posição inquieta.
- Como recuperaste a voz, Troy, eu gostava de conversar contigo sobre... 
- Eu também, Violet, mas tenho de ir resolver um assunto, está bem? 
     Ele esquivou-se para o lado e começou a percorrer a ponte numa grande pressa e excitação. 
- Está bem... - murmurou ela ao vê-lo afastar-se. 
     Troy subiu as escadas e caminhou até ao terraço. Sentia que era impossível acalmar-se após aquela correria toda mas fez um esforço. Inclinou a cabeça para cima e fechou olhos, pedindo ao Tema e à Lua que viessem em seu auxílio. Os dois vieram. 
- Vejo que estás recuperado - disse Tema, afagando-lhe o ombro. 
- Olá, Troy - saudou-lhe Lua. - Sentes-te melhor? 
     O longo cabelo platinado de Lua tapava-lhe os ombros como um manto e os seus olhos brilhavam tão intensamente quanto a sua tiara prateada.
- Olá. Sim, obrigado - Lua sorriu. - Eu preciso da vossa ajuda sobre um assunto - os dois ficaram atentos. - Estão a ver estas pedras? Elas têm a essência dos...
- Os meus Planetas - completou Tema, pegando nas pedras com um olhar esperançoso. - Pensava que os tinhas destruído... 
- Acho que consegui salvá-los e quero fazê-los ganhar vida de novo - disse, fitando as bolas coloridas. - Podes dar-me alguma ajuda nesse tópico, Lua? 
- Bem... isto requer algum poder, Troy - começou. - Se tu ainda tivesses os teus poderes de Estrela, talvez... 
- Eu sabia... - murmurou para si. - O Sol é uma Estrela. Ele tem os poderes necessários, não tem? 
- Tem - Lua assentiu e ficou com um olhar muito pensativo. 
- É mesmo possível, Lua? - perguntou-lhe Tema. 
- Porque não será? - ela começou a andar até ao final do terraço e Troy pensava que ela ia cair até uma luz rosada aparecer e ofuscá-la. 
- Anda, Troy - Tema colocou o braço à volta do rapaz. - Sempre soube que o irias destruir. 
- Eu só o soube à ultima da hora - encolheu os ombros. - Mas correu tudo bem. Dentro dos possíveis.
- Pois foi - um sorriso ouviu-se na voz dele. 
     Os dois seguiram-na e entraram no Mundo dos Espíritos - o mundo da Lua. Troy não esperava encontrar tanta gente a vaguear. Quando lá esteve, Troy esteve acompanhado de Lua, Tema e Vénus e não viu mais ninguém. Agora, parecia que tinha entrado num parque, em tons pastel, com uma dúzia de pessoas. Um grupo de corpos minúsculos com asas passou por Troy, as estames das flores emitiam uma luz, e por detrás de arbustos, ele viu de relance um bichinho muito parecido com um coelho. O local parecia ter saído de um conto de fadas. De longe, ele reconheceu Mondy a falar com uma mulher muito parecida com Mercúrio juntamente com Vénus. As duas últimas vestiam vestidos sessenta.
- É aqui que ficam os espíritos dos Planetas. Não fiques para trás.
     Ao ver que o rapaz não se mexia, Tema estalou os dedos à frente dos seus olhos. 
- Hum? - murmurou Troy.
- Segue-me. 
     Troy caminhou atrás de Tema e reparou que alguns dos espíritos cumprimentavam-no com um sorriso. Depois pararam junto ao largo com bancos de jardim onde Mondy, Vénus e a outra mulher estavam. 
- Troy! - exclamou Mondy assim que o viu. Levantou-se e abraçou-o. - Não me digas que... - afastou-se bruscamente, colocando as mãos nos braços dele.  
- Não, não - disse logo. - Estou bem, Mondy - sorriu. 
     Ele reparou que ela parecia mais nova. O cabelo já não era tão branco e a cor loira notava-se muito bem. As rugas da testa não eram tão vincadas bem como as das mãos e dos olhos. Os seus olhos azuis tinham outro vigor do que aquele que conheceu. 
- Ouve, Mondy - começou Troy mas foi interrompido. Ainda assim, Mondy piscou-lhe o olho já se apercebendo que ele queria mais uma vez agradecer-lhe pelo seu sacrifício. 
- É este o rapaz que vocês me falaram? - perguntou a mulher. 
     A voz dela era-lhe familiar de alguma forma. 
- É sim, Mel - disse Vénus. - É tal e qual o Tema, não achas? 
- Tal e qual mesmo... Colocando de parte o incrível bronze - comentou olhando para os dois. - Mas o rapaz tem outra pinta. Parece mais divertido - brincou ela. 
     Troy finalmente raciocinou.
- É a Mel? A mãe da Luna? 
     Ele tentou procurar parecenças mas não as encontrou até Mel sorrir. O sorriso era idêntico e as vozes eram muito semelhantes. 
- Sou sim. Estás bem informado. 
- Ora, Mel. Não é assim tão difícil - comentou Vénus. 
     Tema sentou-se ao lado da sua Tal. 
- Está tudo bem contigo e com as gémeas, a Luna e o Sol? - questionou Mondy, preocupada. - O Mercúrio não voltou a meter-se em confusões? 
- Está tudo bem, Mondy - descansou-lhe Troy. - Ele por acaso anda a ajudar os meus pais no nosso bar de praia. 
- O papá? A ajudar num bar de praia? - Mel quase não conseguia conter o riso.
- Quem me dera estar viva agora - disse Vénus a juntar-se à risada contida de Mel.
- Realmente - comentou Mondy, também divertida. - Mas diz-me lá o que fazes aqui, Troy.
- Estou aqui para tentar salvar os Planetas de Lymph. A Lua vai ajudar-me. 
- Nunca paras, Troy - observou Vénus. - Precisas de relaxar um bocadinho. 
- Tenho de fazer isto para poder relaxar um bocadinho - contrapôs com um sorriso nervoso. 
- Continua assim, Troy - encorajou Mel, a sorrir. 
- Oh, Troy! Estás aí! - Lua apareceu num abrir e fechar de olhos ao lado de Troy. - Pensava que tinhas vindo atrás de mim - olhou de forma acusativa para Tema e este encolheu os ombros. - Bem, consegui clarear os meus pensamentos. Mas deixa-me perguntar-te, queres que os Planetas renasçam de que maneira? Humanos ou Planetas? 
      Troy não esperava aquela pergunta. 
- Aaa... Não faço ideia... Humanos, acho eu. 
- Então precisas da ajuda da Terra. Ela tem como Cura o seu poder principal, o seu Planeta representa a vida e por isso é ideal para realizar o teu desejo.  
- Obrigado, Lua - sorriu.
     Lua sorriu de volta e assim ficaram até tornar-se constrangedor. 
- Eu não sei como voltar - sussurrou Troy.  
- Oh, pois é - disse Lua, lembrando-se que ele já não era uma Estrela. - Adeus, Troy!
- Adeus, Troy! - ouviu Mel e Mondy dizerem antes desaparecer. 
     E o rapaz voltou à Terra. 



◄◊►


     Ao sentir o chão, Troy desceu rapidamente as escadas à procura de Jade. Primeiro, foi procurá-la na ala hospitalar e ela não estava no seu quarto ou no de Júpiter (este estava a dormir com um ressonar muito alto). As portas de vidro estavam fechadas e ele não via ninguém no pátio. Saiu de rompante dali, esbarrando contra Ryan. 
- Hey, Evans - Ryan agarrou os braços dele. - O que estás a fazer? 
- Acabei de falar com a Lua e ela disse que a Jade pode dar vida aos Planetas - Troy levantou as mãos revelando as pedras coloridas. 
- A Jade está a fazer o almoço com o pai das gémeas - disse Ryan, subitamente muito entusiasmado.
     Os dois percorreram a ponte bambaleante e surpreenderam toda a gente ao entrarem. 
- Voltaste - disse Luna, largando a revista de culinária. 
- Sim, e sei o que temos de fazer. 
- Primeiro - começou Sol, pegando numa travessa -, vamos comer esta maravilhosa refeição. 
     Uma luz alaranjada apareceu entre o sofá e o balcão da cozinha.
- Mesmo a tempo! - disse Mercúrio a esticar os braços. - Urano, despacha-te! 
     E nesse momento o Planeta aparece com um ar completamente derrotado. A sua crista estava deformada, os olhos mal abertos estavam e ainda vestia o avental amarelo do bar atado às ancas completamente manchado de ketchup e mostarda. 
- Marisco! Cheira tão bem - exclamou Mercúrio num suspiro prolongado. 
- Eu acho que vou... - Urano caiu no sofá. - Sim... Boa noite... 
- O que se passou? - perguntou Luna. 
- Houve uma festa de anos de uma menina lá no bar. Muito divertida ela - explicou, pegando numa fatia de pão e ensopando-a no molho. 
- A mesa está pronta! - exclamou Violet a abrir as portas da varanda. 
- Óptimo. Vamos - disse Jade pegando numa tigela com pão.
- Esperem! - gritou Troy por cima do burburinho. - E os Planetas? 
- Quais Planetas? - questionou Mercúrio com a fatia de pão na boca. 
- Pode esperar, Troy - disse-lhe Luna. - Afinal, uma hora ou duas não lhes vai fazer diferença alguma, ou vai? 
     Ao ver que Troy não conseguia responder-lhe, ela disse-lhe: 
- É só por um bocado - ela colocou o braço à volta dele. - Depois lidamos com tudo isso, pode ser? Aliás, marisco não é o teu favorito?
- Sim, é - acabou ele por responder e finalmente prestou atenção ao cheiro do almoço. - Já não como marisco à tempos - revelou com água na boca. 
      Todos dirigiram-se para fora e sentaram-se em cima de uma almofada, rodeando uma mesa baixa mas comprida. Estava um dia bonito, com muita luz e algum calor. Troy já se tinha esquecido que o verão tinha entrado porta adentro. Durante o almoço surgiu muita conversa e Troy distraiu-se dos Planetas de Lymph por completo até Urano acordar e ocupar um lugar na mesa. 
- Troy, olha, ainda bem que estás melhor porque a Eve não aguenta estar no meu apartamento muito mais tempo - disse, colocando o que restava de marisco no prato e pegando cinco fatias de pão. 
- A Eve? A Eve de Qaya? 
- Sim, a Eve de Qaya. Quem haveria de ser? - Estendeu a taça à Luna - Moony, enche-me o copo, se faz favor. Mas enche mesmo. 
- Esqueci-me de dizer-te, Evans - disse-lhe Ryan. 
- Pelo menos ela salvou-se... - comentou Melody de cabisbaixo. 
- Bem, então traz-ma. Ela não merece estar fechada num apartamento - disse Troy por fim. 
- Desculpa lá se não tenho melhor - atirou Urano a beber muito rápido da taça de vinho. 
- Urano, vai com calma - advertiu Mercúrio com um sorriso divertido no rosto. 
- Se falas comigo outra vez hoje, eu mato-te - ameaçou. - Já não basta os acontecimentos desta manhã? Já não tiveste a tua diversão? Francamente... - o sotaque do Planeta nunca esteve tão forte e incompreensível. - Moony, enche-me a taça...  Não, dá-me a garrafa. 
     Luna passou a garrafa a Urano sempre a fitar Mercúrio com um olhar cortante. Este continuava a sorrir. 
- Podemos agora falar dos Planetas? - pediu Troy. 
- Claro - disse Sol. 
- A Lua disse-me que quem pode dar vida aos Planetas como humanos é a Jade - ele colocou os olhos na personificação que ficou muito surpreendida. - Portanto, Jade, gostava muito que me ajudasses. 
- Como humanos? Isso quer dizer que os Planetas não vão nascer como Planetas? - questionou Luna. 
     Melody ia fazer as mesmas questões. 
- Penso que sim. Jade? 
    Ela assentiu com um sorriso nervoso e Troy passou-lhe as pedras. 
- Não faço ideia como fazer isto, Troy... Portanto, se não resultar...
- Vai resultar.  
    Jade agarrou nas pedras, tentando sentir a sua essência, a sua vida. Fechou os olhos e concentrou-se somente nelas. Rapidamente sentiu uma atração que a ligava às pedras que iluminaram-se. Com a ligação a fortalecer, as luzes tornaram-se mais fortes. Jade começou a ver as memórias dos Planetas na sua mente, como cresceram, como governaram os seus Planetas, como a vida em Silver morreu em segundos só voltando a nascer passado séculos, como Qaya criou os seus humanos e como Noir se isolou de todos durante um milénio. Ela conseguia sentir a essência dos três a fluir no seu corpo - a chama fria de Silver, o ardor reconfortante de Qaya e o fogo de Noir. E sem conseguir controlar, os três sugaram energia do seu corpo e causou uma explosão de luz com as cores distintas dos Planetas de Lymph. Antes da luz dissipar por completo surgiu um choro agudo e em seguida, eles viram Jade com três bebés nos seus braços e um sorriso tão alegre que todos ficaram maravilhados.
- Bebés - murmurou Urano num tom desaprovador enquanto bebia outro gole de vinho. - Fá-lo parar.
- Cala-te, Urano - disse Luna rigidamente.
     Ela alcançou Jade, que ficou muito aliviada, pegando no bebé ruivo - Noir.
- Oh, Sol, anda vê-los.
    Os bebés não eram recém-nascidos e pareciam ter entre quatro a seis meses. Vestiam panos com cores representativas dos seus Planetas como fraldas.
- Isto é inesperado - comentou Ryan, fitando os Brown e Jade com os bebés.
- Muito - replicou Melody. - Mas faz sentido... Todos nós começamos a viver como bebés.
- Nunca pensei ver o Noir em bebé - disse Troy, aproximando-se do bebé ruivo e dando-lhe o dedo para ele o agarrar.
- Então e o que vamos fazer com eles? - questionou Mercúrio.
- Ficam comigo - disseram Jade e Luna ao mesmo tempo.
     As duas olharam uma para outra.
- Luna, queres cuidar de outro bebé? - questionou Sol parando de baloiçar Qaya.
- Não! Não... Sim - admitiu.
- Mãe? - chamou Violet. - Estás a dizer o quê?
- Não estou a dizer nada, Vi - disse, a fitar o bebé.
- Eles podem ficar aqui até tomarmos uma decisão - sugeriu Jade com a mão agarrada à de Silver. - Temos é de arranjar roupas e comida e um sítio para eles dormirem.
- Eu e a Luna tratamos disso - disse Sol, colocando Qaya nos braços de Mercúrio.
     Luna pousou Noir nos braços da Violet e Melody ajudou-a com o bebé. Depois, ela e Sol desapareceram em tons azuis e dourados. Jade decidiu levar os bebés para a ala hospitalar onde os instalaram no quarto de Troy.
- É da maneira que vou mais rápido para casa - comentou ele.
- Sabes se a Catarina vem hoje, Troy?
- Não, porquê?
- Não sei se consigo arranjar tempo para cuidar do Júpiter hoje.
- Eu posso fazer isso por ela - respondeu Troy.
     Jade fitou-o num tom sério.
- Tens a certeza?
- Sim. Acho que precisamos de ter uma conversa de qualquer maneira... Se alguma vez nos cruzarmos vai ser estranho não dizer nada.
- Obrigada, Troy - sorriu ela. - Violet, podes ajudá-lo? Ryan e Melody, vocês ficam comigo?
- Sim - responderam os três.
     Violet passou o bebé à irmã e fechou as portas que separavam os quartos.
- O que é que eu tenho de fazer? - perguntou ele, olhando para o conjunto de ligaduras e misturas em cima duma mesa metálica.
- Convinha que ele estivesse acordado... - murmurou Violet, tentando ver se Júpiter dormia ou não. - Acho que está a dormir. Mas tens de mudar-lhe as ligaduras todas.
     Ele suspirou.
- Basicamente, cobrir o corpo inteiro dele de ligaduras... Fácil, é básico. Ele nem quis matar-me nem nada...
- Troy - chamou Violet.
     Ele virou-se e viu-a com as mãos juntas e um olhar muito nervoso.
- O que se passa?
- Não achas que...
     Júpiter espirrou e Violet saltou subtilmente.
- O que é que vocês estão aqui a fazer?
- Estamos a substituir a Catarina - respondeu-lhe Troy.
- Olha só quem decidiu aparecer. Já falas, Estrela?
- Sim - Troy pegou nas ligaduras e nas duas tigelas com misturas e sentou-se no banco de madeira junto à cama. - Preciso de remover-te as ligaduras todas?
- Não, só aquelas que estão sujas.
- Estão, praticamente, todas sujas.
- Então tens de mudá-las a todas - replicou.
     Troy tirou os olhos do Planeta e começou a desenrolar as ligaduras. As feridas eram queimaduras nojentas que ou estavam a sangrar ainda, ou a deitar pus. O rosto dele era o único local onde as queimaduras já tinham cicatrizado e não pareciam alarmantes.
- Não vais ficar de pé, pois não? - perguntou Troy a Violet. - Há outro banco ali ao fundo. Usa este que eu...
- Vou ver os bebés - interrompeu. - Se precisares de ajuda chama-me.
     Ela saiu do quarto com uma expressão estranha. Troy não percebia o que se estava a passar. Júpiter abanou a cabeça com um sorriso estranho no rosto, como se estivesse a fazer pouco caso dele.
- O que foi?
- A Catarina acabou contigo, certo?
     Troy não estava a perceber a pergunta e sentiu um grande nó no estômago.
- Pela tua cara, ela acabou.
     O rapaz continuou a tirar-lhe as ligaduras como se não tivesse ouvido. Porque é que Catarina lhe tinha contado aquilo? De toda a gente que ela poderia confiar aquilo, foi escolher Júpiter que tentou matá-la?
- Ainda bem - ouviu Júpiter murmurar. 

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