Underneath: Qaya #26

     Troy caminhava, lado a lado com Catarina, atrás de Violet. Ela não tinha ideia por onde ir mas mesmo assim andava tão segura de si mesma que tinha piada. Troy controlou o sorriso. Catarina reparou. 
- O que foi? - sorriu de fininho. 
- Nada... nada - abanou a cabeça. 
    Ele olhou para trás e viu Melody e Ryan a conversarem. Ou melhor, quem falava era apenas o seu melhor amigo. O grupo inteiro agia tão normalmente que nem pareciam estar noutra Galáxia, noutro Planeta. A ideia parecia absurda, de repente. Porém, ao olhar para os lados, para cima e para a frente, ele reconhecia que nada disto era normal. Tudo à volta deles era diferente. Parecia que estavam noutra era. Num sonho. Numa ilusão. Ele olhava em redor e sabia que quando regressasse a casa nada estaria igual. Troy nem tinha certeza se iria ver o rosto dos seus pais outra vez. Ele não tinha certezas de nada. E ao caminhar para aquele jardim, com Violet a guiá-los para o desconhecido, ele tomou a decisão de tentar. Não por ele, mas pelas pessoas que ele gosta. Se ele é a possível causa da morte de todos, ele sacrificaria-se sem pensar duas vezes. Apesar do medo que sentia a cada passo que tomava, ele não ia deixar um tormento do passado que nem era seu destruir seja quem fosse. Ele não ia deixar o passado destruir o futuro.
     Violet fitou-o de relance. 
- Estamos a chegar? - perguntou-lhe, em tom divertido.
- Pergunta-me daqui a dez minutos, está bem? 
     Ela sorriu e Troy retribui-lhe o sorriso. Catarina aconchegou-se a ele e fê-lo sair da pequena bolha que o isolava a ele e a Violet do resto. Sentiu-se levemente culpado por querer ficar naquela bolha por mais tempo mas colocou o braço à volta da sua namorada sem contestar. Obrigou-se a afastar aquela sensação e durante o resto do caminho permaneceu calado, com apenas um aperto no coração a fazer-lhe verdadeira companhia. 

     Passado onze minutos, o grupo virou uma esquina e encontrou um belo jardim recheado de plantas e árvores com todas as escalas de verde possíveis. Flores vermelhas, laranjas e amarelas entrelaçavam-se naquele aglomerado verde e libertavam um cheiro tão calmo e pacífico que todos ficaram rendidos. Eles encontraram um pequeno lago que continha flores parecidas a nenúfares, só que muito maiores e com flores de cores tão garridas que poderiam ter saído de um letreiro néon. O lago tinha a água tão cristalina que, se não fosse a água a deslizar ao toque,  Troy nem duvidaria tratar-se de um espelho. 
- É tão bonito - murmurou Catarina. 
- Encontrei comida - gritou Violet. 
     Eles correram até ela e viram um conjunto de árvores carregados de frutos. Nunca tinham visto frutos assim, mas na situação em que eles se encontravam, não queriam realmente saber. 
- Será que são comestíveis? - perguntou Ryan. 
- Está aqui uma placa. Mas não consigo decifrar o que está escrito - disse Melody. 
- Deixa-me tentar. Isto de ser a Estrela Vital duma galáxia tem que ter um pró. 
     Troy aproximou-se da placa que continha um desenho minimalista da fruta gerada. Ele focou-se no texto, mas as palavras não lhe surgiam. Ele tocou nas letras e não sentiu nada, nem uma vibração. Eram meras palavras para ele como para todos os outros. 
     Sopra-lhes
     Troy arregalou os olhos e virou-se para trás. Não estava ninguém atrás dele a não ser Melody. 
- Está tudo bem? 
- Vocês não ouviram? 
- Ouvir o quê? 
     Sopra-lhes. 
- Outra vez! - ele sorriu. - Só pode ser... 
     Sentiu o toque de alguém no braço mas não sabia de quem se tratava pois manteve os olhos fechados à espera que a voz pairasse no ar outra vez. 
- Abre os olhos - disse-lhe Violet. - Troy. Olha para mim. 
     Troy abriu os olhos. Esperava encontrar o olhar da Violet mas era Catarina quem o encarava. 
- Estás bem? - perguntou-lhe Catarina.  
- Desculpa - disse. - Acho que o Tema tentou falar comigo. Ele nunca o tinha feito desta maneira. 
- O que é que ele te disse? - perguntou Melody, toda curiosa. 
     Troy viu Ryan a tentar esconder um sorriso.
- Disse "sopra-lhes". 
- Isso soa muito mal - comentou Catarina. 
- Talvez seja na placa - sugeriu Violet, encostada num tronco, atrás dele. 
- Como é que... - murmurou Troy. Ele não percebia como ela estava tão longe e a tinha ouvido tão perto. 
- Fá-lo! Agora - forçou Melody. 
- Está bem, está bem - levantou as mãos em sinal de paz. Melody passava de concentrada a autoritária em menos de um segundo. 
     Ele aproximou-se da pequena placa quadrangular feita de madeira e ilustrada a tinta preta. Passou os dedos pelas palavras incompreensíveis, fechou os olhos e soprou-lhes. Troy manteve os olhos fechados, mas se os tivesse aberto veria um misto branco e azul bailar no texto e a convertê-lo na língua deles.
     Minutos mais tarde, o grupo estava aposentado na sombra das árvores a comer o que restava da comida e fruta. Naquele momento, o tempo para eles parou. Estavam tão relaxados, como se não estivessem a fugir de problema algum e sim numa exploração. O silêncio dançava por entre eles e era apaziguador. O ar quente, pela primeira vez, era desejado e celebrado. O barulho da agitação das ruas não era irritante. O som palpitante dos corações de cada um marchava ritmicamente com o ambiente e sem mais demoras, os olhos deles começaram a fechar-se num sono, de início, leve e duradouro. 


◄◊► 



     Com as horas a passarem, os sonhos dos cinco aumentavam a intensidade e juntamente com o maiores medos de cada um, o perfeito pesadelo nasceu na mente de todos eles. Melody foi assombrada pelos olhos que ela teme tanto por já os conhecer de cor. Violet viveu no caos e na dor de perder a sua família. Catarina foi perseguida pelos fios negros a roubarem-lhe os seus melhores amigos. Ryan perdeu-se na obscuridade de si mesmo e da doença que o prendeu durante anos com o choro dos seus pais a ecoar na sua mente. Troy estava preso numa sala cheia de luz, com os que amava à sua disposição, só que Saeva já o possuía e todos diante de si eram apenas ilusões do passado que ele fazia questão de ignorar, desprezar e rebaixar. 
     Troy acordou sobressaltado com um grito a percorrer o ar electricamente. Ele virou o rosto apavorado para o lado e viu Catarina a ser atacada por um tentáculo tão negro que quase o deixara paralisado. Ele lançou-se sobre Catarina e viu-lhe o rosto pintado em terror e medo. As gémeas iluminavam o espaço com os seus poderes e Ryan fazia o seu caminho até a eles. 
- Nós temos de ir. Já, Troy! 
- O que aconteceu? Catarina, oh não não não..., Catarina! 
- Não interessa! Deixa-me levá-la - pegou na Catarina e cautelosamente contornou o monstro que se formou do nada. 
- Troy - gritou-lhe Melody. - Podes parar de perder a cabeça e agir, se faz favor? 
     Ele estava de joelhos, paralisado e com o rosto dela a ocupar-lhe a cabeça. Aconteceu o que ele temia e não o pode impedir. Na sua mente só via o sangue a escorrer pelo braço de Catarina até à sua túnica branca. 
- Troy - gritou-lhe Violet. 
- Sim... - murmurou. 
     Elas precisavam dele, agora. Troy Evans levantou-se e atacou o monstro. Os olhos da criatura nem vacilaram e os seus movimentos pareciam nem hesitar perante o poder dele. Eu tenho o poder duma Galáxia e não consigo parar um bicho destes. Ele magoou a Catarina e eu nem consigo fazê-lo recuar. Ele estava carregado de frustração. Não tinha a concentração certa. 
- Pela Catarina - disse-lhe Violet, ciente do desespero dele.  
     Ele assentiu. Redobrou a concentração e a motivação. Obrigou-se a acalmar a cabeça e deixar fluir o seu verdadeiro elemento - o Ar. A voz da Violet ecoou na cabeça e o rosto da Catarina apareceu diante do seus olhos e o seu poder saiu-lhe das mãos tão freneticamente que Troy colocou o pé esquerdo para trás para lhe dar apoio. Violet e Melody foram assoladas pelo ar mágico e os poderes delas já não foram necessários. Os fios da criatura balançaram para trás e os seus olhos fecharam-se. Ela gritou e o som foi tão horripilante e alto que pareceu ficar a pairar no ar como ácido, ferindo os ouvidos dos três. 
- Vão ter com o Ryan! Já vos apanho - disse ele. 
- Não! Troy...
- Vão! - Violet fitava-o preocupadíssima. - Violet, vai - suplicou-lhe. 
     Melody agarrou na mão da irmã e as duas saíram da sua vista. Troy levantou o monstro no ar e atirou-o contra as árvores. A criatura partiu-se em outras sombras de tamanho pequeno. Ficaram a repousar no chão e Troy não esperou para ver se levantavam ou não. Ele correu para fora do jardim e viu Catarina nos braços de Ryan inconsciente. 
- Eu posso curá-la. Mas temos de sair daqui primeiro. 
- Deixa-me levá-la.
- Não sejas parvo, Evans. 
- Ryan! Deixa-me levá-la! 
- Acalmem-se. Troy, precisamos de ti pronto para usares os teus poderes. O Ryan tem de carregá-la por agora. 
- Vamos, então - ele começou a andar e só quando já estava bem à frente reparou que ninguém se mexeu. - Querem que a criatura nos siga? 
     Ryan, a segurar Catarina, e as gémeas começaram a andar. Violet correu e ficou ao lado dele. 
- Está tudo bem? 
- Não, Violet. Nada está bem! 
    Ela estremeceu com o tom de voz dele. Nunca o tinha visto assim. Troy suspirou e passou a mão pelo cabelo. 
- Desculpa.  
- Não faz mal. Eu percebo... Hum, só tenta ter em consideração que não és o único com o mundo aos ombros. Está bem? - Ela passou a mão gentilmente pelo braço dele e foi para perto da irmã. 
     O que ela disse deixou Troy a pensar. Contudo, com os pensamentos a fervilhar e o rosto da Catarina em sofrimento, ele só pensava em acabar com aquele monstro e o seu lado negro, que se escondia por baixo da sua Luz,  fez-se ouvir pela primeira vez.   


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     O grupo estava escondido num beco. As sombras nasciam e morriam e sempre que uma aparecia era sinal de alerta. Saeva, juntamente com a criatura criada por Melody fizeram o seu caminho até eles e desta vez queriam deixar mais danos do que somente uma ferida no braço de uma mortal. 
     Catarina entretanto recuperou os sentidos, mas com o surgimento da plena Escuridão, Violet não conseguiu fazer nada por ela. As ruas estavam agitadas e completamente iluminadas e decoradas. Portanto, porquê esconderem-se num beco escuro e sombrio se a luz pode repelir tal mal? Troy e os outros fugiam, não só da Escuridão, como dos donos duma modesta loja de roupa. 
- Nem posso acreditar que me obrigaste a roubar uma loja, Evans.
- Não posso acreditar que nos estás a obrigar a usar isto! - refilava Melody, enquanto vestia um vestido,  por cima das calças justas e do top, vermelho decorado com detalhes dourados. 
- Se ainda não notaram, hoje deve haver uma festa pela decoração e agitação da rua. Portanto, vamos nos infiltrar. 
- Achas que o Saeva vai perder-te de vista? 
- É capaz. Agora a tua criatura - apontou o olhar para Melody - é que já não tenho tanta certeza. 
- Então deixa-me voltar! 
- Não. Ainda não. Precisamos de ti aqui, para controlar tudo - disse-lhe Violet. 
- Estão prontas? 
- Sim. 
- Bennett? 
- Não consigo fechar a porcaria deste colete - refilou. 
- Ainda vais estragar isso se continuas a mexer na roupa como um selvagem - Melody avançou e fechou-lhe o colete. - Pronto. Vamos? 
     Catarina tinha a ferida disfarçada pelas mangas compridas e cheias do vestido azul escuro. 
    Os cinco saíram daquele beco e contemplaram por uns instantes o ambiente festivo em Qaya. Para eles, naquele momento,  a vida parecia uma montanha russa descontrolada e assustadora e para as pessoas à volta deles era tempo de festa e divertimento. O contraste deixou-os a todos um pouco perturbados e tristes. Todos queriam largar as preocupações e dançar ao som da música alta. Só que as sombras não o vão permitir e mesmo que a Luz pudesse ajudá-los, até mesmo essa os pode condenar.

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