Underneath #19

     A manhã não nasceu tão intensamente pois o Sol estava de folga. Apesar das olheiras debaixo dos olhos, ele animadamente fazia o pequeno-almoço para a família. Luna tinha ido à mercearia comprar fruta e as miúdas ainda não tinham levantado. Ele e Luna sabiam que não iam ter uma conversa calma com as gémeas mas, depois de lhes esconder tanto, eles não esperavam outra coisa.
     Ouviu a porta da entrada abrir-se e fechar-se rapidamente e seguindo os passos da Luna vinha Cosmo a tilintar até à cozinha. Ela pousou os sacos na bancada a meio da cozinha e deu um beijinho no seu marido. Em seguida, começou a retirar os sacos de fruta e a arrumá-los e, depois de escolher as que queria servir no pequeno-almoço, lavou-as e cortou-as. Um por um, os gatos foram aparecendo. O relógio marcou as dez e Melody foi a primeira a descer para comer. Como era habitual, Violet ainda estava na terra dos sonhos sem qualquer chance de acordar por vontade própria.
     Sol foi ao quarto delas e sentou-se na cama da filha. Violet dormia pacificamente, com o cabelo a dançar pela cama e o corpo relaxado. Não queria nada tirá-la dum sonho para viver um pesadelo mas tinha de ser feito. Ele inclinou-se e beijou-lhe o canto da cabeça. Ela abriu os olhos levemente e virou-se para vê-lo. 
- Bom dia - disse roucamente. 
- Bom dia? Diz-me boa tarde - replicou ele. 
- O quê!? - Levantou-se num sobressalto. - Que horas são? - perguntou a tirar o cabelo da frente. 
     O pai riu-se.
- São dez da manhã. 
- Pai! - exclamou e empurrou-o. - Vou voltar a dormir - disse a colocar a almofada na cara.
- Vamos lá - tirou-lhe a almofada -, temos muito que falar.
     Ele acariciou o rosto dela. Violet respirou fundo. 
- Está bem... Vou só lavar a cara e pentear-me. Já desço. 
- Não te demores, senão o chá arrefece - beijou-lhe o cimo da cabeça sem querer largá-la. 
     Violet pousou a mão no braço dele a tentar demonstrar-lhe algum afecto só que ela conseguiu ver que por detrás daquele sorriso ele escondia algo. O que se estaria a passar? 

     Durante o pequeno-almoço não se ouviu uma palavra mas era óbvio que algo se passava. Depois de comerem, as gémeas foram para a sala e fecharam a porta atrás delas.
- Sou só eu ou os pais estão estranhos? 
- Estão muito estranhos - concordou Melody. 
- O que... 
     Violet foi interrompida pela chegada dos pais que se sentaram no sofá oposto. O pai tinha o braço à volta da mãe e ambos estavam estranhos, preocupados. 
- O que se passa? 
- Precisamos de falar. É importante e por favor, tentem compreender - disse-lhes a mãe. 
- Está bem - disseram em uníssono. 
- Vamos contar-vos a história do Tema - começou o pai - do princípio e espero que no final percebam porque é que mantivemos isto em segredo. 
- Vocês já sabem os aspectos mais importantes. O Tema era o vilão da história. E ele queria destruir o vosso pai a qualquer custo mas o que vocês não sabem é porque é que nós... Eu - reformulou -, quis esconder isto de vocês. - Sol deu a mão a Luna. Sorriu sem fitá-lo de maneira quase imperceptível  e voltou a olhar para as suas filhas. - Quando eu fui ao Universo pela primeira vez, com o vosso pai, vi que Plutão não estava presente. O meu pai estava na Terra e eu fiquei obcecada em encontrá-lo. Cheguei a viver de café, não dormia e por conseguinte desmaiei. Isso levou a que o vosso pai e eu tivéssemos uma discussão e ele desapareceu durante semanas. Durante essas semanas conheci alguém. Esse alguém, era Tema. 
-  Estás a dizer que estiveste com o Tema?  
- Violet. Deixa a mãe falar. 
- Ele apresentou-se com outro nome, Tiago. Parecia normal, humano. E conseguiu apanhar-me no meu momento mais frágil. Depois, Sol voltou com o meu pai. Descobriu que eu não tinha estado sozinha durante estas semanas e nós nos afastámos. Durante esse tempo, a Vénus apareceu. Ela meteu-se entre nós apesar de não ser o vosso pai que ela queria. Quando a identidade do Tema foi revelada, algo mais se revelou também - Luna fez uma pausa. 
- A Vénus e o Tema... - murmurou Melody a juntar as peças. 
- O quê? - perguntou Violet a olhar para a irmã. E assim como ela, Violet juntou as peças - Eles eram o Tal um do outro. 
- Nessa noite, Tema partiu pedindo que ela fosse com ele. - Continuou Sol. - Ela acabou por ir e durante os tempos seguintes não houve grande agitação. Mas ele acabou por vacilar e acabou por magoar a Mondy - Luna fechou os olhos ao relembrar - o que deu origem ao gigantesco ódio do Mercúrio para com Tema. A Vénus deixou-o e lutou contra ele na batalha. Apesar das chances de vencer não estarem do nosso lado devido à arma secreta dele, nós vencemos pelo sacrifício da Vénus que sofreu o ataque destinado a mim. Apesar de tudo o que ele a fez passar, as últimas palavras dela foram a declaração de amor por ele. 
- Nós fizemos o funeral dela no seu Planeta para reencarnar e a Lua chamou-me nessa noite. Disse-me que Tema tinha partido com ela para o Mundo dos Espíritos, ela disse-me também para colocar o corpo dele junto do da Vénus de modo... - a voz fracassou-lhe de repente. Tinha um nó na garganta mas conseguiu falar antes que Melody se antecipasse. - De modo a que as almas deles voltassem a reencontrar-se, para todo o sempre. 
- Isso quer dizer que... 
     Violet nem quis pronunciar o resto da frase. Sentia-se tão presa e encurralada que as palavras não lhe saíam. O seu destino estava traçado para sempre e esse destino era ficar com Troy, sem qualquer opinião sobre o assunto.
     E se ele fosse igual ao Tema? Era suposto aguentar estar com uma pessoa como ele para sempre? Não. Claro que não. Mas que escolha tinha? Iria reencontrar-se com ele para sempre mesmo que se afastassem. Que raio de destino era esse? Violet sentia-se frustrada. 
- Como é que vocês puderam esconder isto de mim? Eu só existo porque um monstro matou a minha antepassada que foi burra o suficiente para amá-lo de volta. E agora é suposto eu amá-lo nesta vida? O que acontece se ele for pior que o Tema? E se nunca conseguir ficar afastada dele? Ou pior... 
- Eu sei que estás zangada, tens todo o direito. Mas se algo ameaçar-te, eu irei proteger-te - disse a mãe. 
- E, querida, tu podes nem vir a amá-lo. Só tens a garantia que irás sempre reencontrá-lo. Nesta vida, ou na próxima - disse o pai. 
     Violet juntou as pernas ao tronco e baixou a cabeça. Ela não sabia o que sentir mas não estava tão zangada como gostaria. Ela queria libertar a raiva que sentia pelos pais lhe terem escondido o seu inevitável destino mas numa coisa eles têm razão: Violet pode nunca vir a amá-lo. Se calhar nesta vida eles estavam destinados a crescer como amigos e Troy deve ficar com a Catarina no final. Talvez esse seja o seu propósito nesta vida com ele. No entanto, tinha a certeza duma coisa: se eles acabassem juntos, Violet não queria que fosse por causa da Lua o querer mas sim por eles quererem. Ela sentiu as mãos da mãe nos seus pés. O seu toque era gentil e familiar. Violet fitou-a. A mãe ajoelhou-se e tirou-lhe o cabelo do rosto. Ela sorria com muita ansiedade e tristeza no olhar, talvez até com medo. 
- Desculpa- disse ela. Uma lágrima caiu-lhe pelo rosto. 
- Não chores - pediu. - Eu desculpo - baixou as pernas com cuidado e abraçou a mãe. - Não estou zangada, mas não me voltes a esconder coisas destas, pode ser? 
- Amo-te muito - ouviu-se um sorriso na voz dela.
- Eu também - abraçou-a com força. 
     Melody sorria mas rapidamente o sorriso se desvaneceu quando a mãe lhe disse:
- Nós também precisamos de falar contigo. 


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     A manhã começou excelente. Tinha um gigante pequeno-almoço na mesa, Catarina vinha a caminho da casa dele e Ryan sabia de tudo! Sabia tão bem não ter um peso enorme nos ombros por Ryan não saber de nada, porém, um pouco desse peso se mantinha nas suas costas como um lembrete de que a Catarina andava às escuras. Troy tentou ao máximo apagar esse peso durante umas horas. Queria aproveitar o máximo que pudesse o tempo que tinha com ela. 
- Quando é que ela chega? - perguntou a mãe a tirar as panquecas da frigideira. 
- Hum... - olhou para o relógio da cozinha. - Daqui a cinco minutos, acho eu. 
     A campainha tocou. 
- Diz antes cinco segundos - corrigiu-lhe a mãe. - Vai atender. 
     Catarina tinha uma cara de sono inconfundível. Vestia um top e uns calções e o casaco azul que lhe emprestara e que ficava-lhe um pouco grande. 
- Não sei como me convences a acordar a estas horas - disse. 
- Faz parte do meu charme - respondeu-lhe e puxou-a para dentro com a mão. Beijou-a. 
- Eu consigo ver-vos! - gritou a mãe da cozinha. Obviamente que não conseguia mas eles foram de imediato para a cozinha. - Olá, Catarina. Como estás? - deu-lhe dois beijinhos. 
- Bem e a Charlotte? Cheira tão bem. Estou esfomeada. 
- Estou bem, obrigada e ainda bem. As panquecas estão prontas - limpou as mãos a um pano. - Façam o que quiserem, eu vou voltar para a cama - disse. 
- Tu vais o quê? - perguntou-lhe o filho. 
- Voltar para a cama. É o meu dia de folga e não mereço estar de pé às nove da manhã. 
- Somos duas, então - Catarina admitiu. 
- Levantaram-se porque quiseram - disse, despreocupado, dando uma garfada nas panquecas. 
- Sim, está bem. Divirtam-se mas não façam muito barulho. O pai ainda está a dormir que nem um bebé.
- Está bem, dorme bem - beijou a mão da mãe e deixou-a ir para o quarto.

     Eles tomaram o pequeno-almoço e foram para a sala ver televisão. Catarina estava super cansada e estar no quentinho dos braços de Troy só a incentivava a dormitar.
- Não te atrevas a adormecer, Catarina Serra! É a melhor parte do Dark Knight Rises - disse a direccionar o comando para a televisão. - Ele está prestes a sair da prisão.
- Vais ter de fazer melhor do que pôr o Batman a dar para me manter acordada - confessou.
- Ok - colocou pausa no filme e olhou para ela. Notava-se tanto o cansaço nela que talvez fosse melhor deixá-la dormir. - O que queres fazer?
- Não sei. Não podemos fazer muito se os teus pais estão a dormir - observou.
- Então vou deixar-te dormir. O que andaste a fazer a noite toda?
- Porcaria. Estou atrasada nas minhas séries e filmes - sorriu meio culpada e enterrou a cara na curva do pescoço dele. Antes de Troy começar a gozar com ela, Catarina disse - não te atrevas a gozar com as minhas séries, Troy Evans.
- Tudo bem. Vamos por-te na cama - disse e pegou-a ao colo. 
     Troy deitou-a na sua cama por fazer. Colocou-se ao lado dela e ficou a vê-la adormecer. Com a luz solar a aumentar, as suas sardas notavam-se mais e o cabelo clareava muito subtilmente. Passou a mão pelo rosto dela e parou nos seus lábios. Beijou-a e sussurrou-lhe:
- Dorme bem.
     Saiu da cama de fininho e cobriu o corpo dela com os cobertores. Desceu para a sala e ligou ao Ryan. Troy tinha recusado o convite de passar a noite em casa dele e por isso hoje tinha de compensá-lo.
- Bennett?
- Estou? Quem é?
- Sou eu.
- Troy? Porque estás a sussurrar?
- Está toda a gente a dormir, não quero acordar ninguém mas ouve, queres ir sair?

     Troy e Ryan pegaram nas bicicletas e foram para aquele campo de flores selvagens. Antes de sair, ele deixou um bilhete para a Catarina. Ela provavelmente iria estar a dormir quando ele voltasse para casa mas é sempre bom prevenir.
- A tua sorte é que ontem fui dormir cedo, Evans - disse, a deitar-se na relva e com os óculos de sol postos.
- És o terceiro hoje que reclama. Saíste da cama porque quiseste, ora - respondeu-lhe. Ryan riu-se.
- O que queres fazer?
- Vou praticar os meus poderes - respondeu hesitante. Ryan tirou os óculos e fitou-o.
- Óptimo, podes começar - voltou a por os óculos e deitou-se de novo. Colocou as mãos por baixo da cabeça, super descontraído. - Tenta não me congelar, está bem?
- Não prometo nada, Bennett - Ryan sorriu e moveu os óculos o suficiente para poder vê-lo.
     Troy posicionou-se, respirou fundo e esticou os braços com a palma da mão direita agarrando o pulso com a esquerda, como se tivesse força a mais e tivesse medo de não conseguir controlá-la. Fechou os olhos e por uns momentos não aconteceu nada mas, num piscar de olhos, uma faísca rodopiou nos dedos dele e antes que pudesse preparar-se, uma energia azul e gelada correu à velocidade da luz para uma árvore que ficou pintada de azul esbranquiçado - gelo.
- Evans! - exclamou Ryan. - Isso foi fantástico!

     
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- O que precisam de falar sobre mim? 
- Quando iam contar-nos que teletransportaram para os vossos planetas? - perguntou o pai, em resposta. 
     As irmãs olharam uma para a outra com o olhar culpado. Melody conseguia ouvir o riso sinistro do monstro a ecoar pela sala. 
- Vocês sabiam que se fossem teletransportar-se tinham de falar connosco primeiro, para que não houvesse consequências quase irreversíveis - continuou Sol. 
- Mas não aconteceu nada - prosseguiu Violet. - Ficámos lá uma hora e saímos quase sem problemas. A sério. 
- Melody? Não queres contar-nos o que realmente aconteceu? 
     Melody abanou a cabeça subtilmente. Não conseguia olhar para os pais. Não conseguia olhar para a irmã. Sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha e soube que o demónio vinha atrás dela, outra vez. 
- Querida, tens de nos contar. Senão não podemos ajudar-te - disse-lhe a mãe. 
- Como? O monstro é só meu - murmurou. Começou a tremer. 
     Sol aproximou-se dela. Agarrou-lhe na mão. Deixou o seu calor acalmá-la e fitou-a. 
- Olha para mim, Melody - ela não olhou. - Olha para mim - repetiu. Ela olhou-o. - Conta-me o que se passou. Podes contar-me tudo. Estou aqui, eu protejo-te. Ouviste? - ela assentiu. - Conta-me. 
- Eu fui para Marte para tentar descobrir algo acerca do Tema. Queria ajudar o Troy. Mas de repente fui cercada por um redemoinho de areia e depois por espelhos. Eles reflectiram o meu rosto, deformaram-no e tornaram-no num monstro. Eu paralisei, pai - apertou a mão dele. - Eu não consegui passar o teste. 
- É por isso que andas a ter pesadelos? - perguntou a irmã. Violet nem precisava da resposta - Porque não me contaste? 
- Já temos problemas que cheguem não achas? 
- Mas tu não és um problema. Nós somos a tua família e nós cuidamos uns dos outros - disse a mãe. - E nós precisamos que vás ao teu Planeta. 
     Melody levantou-se bruscamente. 
- Não! Eu não vou pôr lá os pés! 
- Não te queres ver livre do demónio? É a única solução, Mel - disse-lhe o pai gentilmente. 
- Melody, ouve-me... 
     As vozes deles começaram a alterar-se de tom. Não eram as vozes da sua família que ouvia, eram misturas de vozes electrificadas, finas e agudas, grossas e pesadas que a chamavam. Melody. Melody. Melodyyyy. Melody. Melody. Meloody. 
- CALEM-SE - gritou com as mãos nos ouvidos. Ela abriu os olhos e viu o rosto do pai, depois o da mãe e da Violet e ao percorrer a sala, encontrou um par de olhos tenebrosos. Ela ficou de pé à espera que ele fosse atacá-la mas o demónio agarrou a mãe e puxou-a para o outro lado da sala. 
- Mãe! - gritaram as gémeas em uníssono.
- Luna! - gritou o pai. Foi atrás dela e verificou se estava bem. 
- Melody, ele só está aqui porque estás com medo. Só tu o podes parar pois foste tu que o chamaste. 
- Eu não o chamei! Ele chamou-me! Ele chamou-me... 
- Violet, cuida da mãe - disse. Ele foi ter com Melody. - Querida, Mel, olha para mim. Tu podes pará-lo. Estou aqui contigo, ele não te vai fazer mal, ok? - colocou o rosto dela nas suas mãos. - Tu consegues. 
- Como? 
- Arranja uma maneira. Tu sempre arranjas uma maneira. 


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     Catarina acordou após dormir três horas. Olhou em redor e não viu sinal do seu namorado. Virou-se e viu um bilhete com o nome dela

       Fui ter com o Ryan, volto rápido. Provavelmente nem vais ver este bilhete. Mas pronto. Vemos-nos daqui a pouco. Beijo, Troy. 

- Lá se vai o volto rápido. 
     Passou a mão pelo cabelo e levantou-se. Ajustou o casaco e foi para a sala. Esperava não ver os pais dele mas lá estavam eles a ver televisão aninhados um no outro. 
- Catarina? 
- Olá. O Troy deixou-me dormir enquanto foi passear com o Ryan. Típico - sorriu-lhe. 
- Podes ficar o tempo que quiseres. 
- Senta! Está a dar uns filmes giros na TvCine - sugeriu Steve. 
- Oh não, obrigada - disse enquanto pegava nos sapatos. - Vou procurá-los. De certeza que estão no mar ou a fazer porcaria algures. 
- Nisso podes apostar - riu-se o pai dele. 


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     Do outro lado da vila, embrenhados no lado mais solitário de Crystal Waters, Ryan e Troy criavam alvos para o último lançar flechas de gelo e ataques de energia e luz. Quanto mais destruíssem, maior era a diversão dos dois. 
- Evans, se tu acertares esta eu pago-te o almoço durante duas semanas! Ouviste? Duas semanas in-tei-ri-nhas.
- É melhor reformulares essa tua proposta porque eu vou mesmo acertar e tu vais mesmo pagar-me durante duas semanas o almoço. 
- Acerta primeiro e logo falamos. 
     Troy posicionou-se como se estivesse a segurar num arco e flecha. Esticou o braço e entre os dois primeiros dedos apareceu uma flecha fina e esbeltamente esculpida em gelo. Ele respirou fundo e focou-se no meio do X marcado na árvore. Soltou a flecha e ela acertou em cheio no meio da letra. 
- Parece-me que me deves duas semanas de almoço grátis - disse Troy, muito orgulhoso e convencido. 
- Sorte, Evans. Isso foi muita sorte. 
- É, está bem, mas vou-te cobrar um almoço já hoje e faço questão de pedir tudo no menu. 
- Quem depois vira obeso não sou eu - ergueu as mãos no ar. 
- Boa tentativa, Bennett - disse a rir.   
     O telefone de Troy começou a tocar. Ele atendeu tão rapidamente que nem viu quem era, supondo que fosse a Catarina, e por isso, quando a voz do outro da linha parecia completamente envolvida no caos, ele ficou surpreso e alarmado. 
- Troy? É a Violet! Precisamos de ti! Vem rápido para cá, por favor. 
- Violet, tem calma. O que se está a passar? Está tudo bem? - A chamada ficou em completo silêncio por instantes e ele pensou que ela tivesse desligado. 
- Troy... Por favor - e a chamada desligou. 
- O que se passa? 
- As gémeas estão com problemas. 
     Os dois foram para a casa delas e estava tudo em silêncio total. Mas ao observar bem, Ryan conseguiu reparar num vulto ondulante que passou pela varanda. Eles colocaram as bicicletas no passeio e entraram no jardim. Não foi preciso bater na porta pois esta já estava aberta. 
- Violet? - chamou Troy. - Melody? - Não ouviu resposta. 
     Troy abriu a porta da sala e viu tudo desarrumado: a estante de livros caída, os sofás fora de ordem, as cortinas rasgadas assim como o tapete e dois vasos partidos no chão. 
- O que aconteceu aqui? 
- Não faço ideia - Troy respondeu. 
     Eles ouviram um grito. 
- Melody - disse Ryan. 
     Eles seguiram o grito e correram para o jardim. Melody estava envolvida por uma bolha negra enquanto que Violet estava encurralada por fios vindos de uma criatura sinistra gigantesca. 
- Troy - disse, num suspiro. 
- Eu vou tirar-te daí - assegurou-lhe. Ela assentiu. 
- O que vais fazer? - perguntou Ryan.
- Não sei mas tu vais distrair. Vai ter com a Melody e finge que sabes como libertá-la. A criatura deve sentir-se atacada - respondeu a tentar soar calmo e forte. 
- Deve? 
- Agora! - Troy empurrou-o para a direção da Melody e ele correu para a Violet. - Vou tirar-te daí. Não te mexas - pediu-lhe. 
     Troy tentou mover aqueles tentáculos mas era impossível. Eram demasiado fortes. 
- Os teus poderes, Troy - relembrou-lhe. 
     Ele assentiu. Abriu as mãos e um espirro de gelo atacou os tentáculos que prendiam Violet. Troy deu um pontapé e os fios partiram-se em mil bocados, libertando-a enfim. A criatura ondulou, soltou um riso agudo e os seus braços voaram por toda a parte. Um deles sobrevoou a cabeça de Troy e por pouco não o cortou. Ele agarrou a Violet pelo braço e levou-a para o alpendre. 
- Estás ferida? - Ela abanou a cabeça. Troy virou-se para trás para ver se o Ryan estava bem. - Onde estão os teus pais? 
- Não sei... O monstro fê-los desaparecer - disse. - Como se os tivesse engolido. 
- Fica aqui - ele virou-se.
- Não! Troy - puxou-o pelo braço. - Eu vou salvar a minha irmã. 


◄◊►



- Melody! - Ryan batia na bolha mas ela parecia não o ver ou ouvir. - Melody! Olha para mim! - ele berrou, desesperado. Ela arregalou os olhos e viu-o. Os lábios dela pronunciaram o nome dele mas ele não a conseguia ouvir. - Melody. Fala mais alto! - Ela abanava a cabeça e apontava para cima. Ele virou a cabeça e viu um enorme fio negro a cair na direcção dele. Ryan desviou-se mas o fio cortou-lhe as costas na diagonal. Melody bateu na bolha em desespero e a vir na direcção deles estava Troy e Violet.
     A criatura criou mais tentáculos negros e cada vez mais deles atacavam Troy e Violet. Eles conseguiam empatar mas era Melody que precisava da atenção deles.
- Violet, vou ter com a Melody.
     Troy seguiu para a bolha negra. Ele viu o seu melhor amigo caído.
- Não a consegues ouvir. Nem ela te ouve - murmurou Ryan.
- Estás bem?
- Dentro dos possíveis - disse com um sorriso torto. Rolou para a esquerda com cuidado. Não conseguia sentar-te devido ao corte.
- Fica como estás. Não te mexas - disse-lhe.
     Troy colocou as mãos na bolha e Melody fitou-o expectante. Murmurou-lhe algo e das suas mãos saiu um brilho que congelou a bolha aos poucos.
- Troy, cuidado!
     Um braço da criatura acertou-lhe em cheio no braço e outro na perna. Cortou o tecido e a pele dele fazendo-o ajoelhar-se em dor. Conseguia sentir a obscuridade. Parecia ter o mesmo toque que o de Saeva.
- Troy - gritou-lhe Violet. - Continua!
     Ele voltou a colocar as mãos na bolha e o gelo intensificou-se. Sentia a energia a desaparecer-lhe das mãos. Sentia a Escuridão vincar-se-lhe na pele a cada segundo. Mas tinha de continuar. O gelo cobriu a bolha toda. No entanto, Troy não conseguia arranjar forças para se levantar. Ryan, porém, levantou-se e partiu um pedaço da bolha com um pontapé. Melody saiu nos braços de Ryan.
- Estás bem? - ela assentiu. Ele deixou-a levantar-se e depois agarrou no seu melhor amigo. - Não desligues, Evans. Tenho uma ferida maior que tu e não me vês a queixar - falou com os dentes semicerrados, tentando conter a dor.
     Melody correu para a irmã e apoiou-a no ataque de luz que ela tinha formado. A barreira parecia cegar a criatura mas não a inabilitava. Os tentáculos dela mexiam ao sabor dum furacão invisível e alguns deles conseguiram cortar a pele das irmãs, no entanto, isso não as parou. O ataque delas parecia mais forte e mais forte até Violet começar a perder as energias e os seus braços começaram a ceder.
- Vi, não desistas!
     A criatura remexeu um dos seus fios e ele acertou na anca da Violet, no centro da sua marca. Violet gritou de dor e caiu. Melody gritou e Troy, ao vê-la cair, gritou pelo seu nome também. Como estava no alpendre, ele conseguiu ver o que a criatura planeava fazer - atacar as gémeas. Ele levantou-se e seguiu para o jardim. Os tentáculos da criatura subiram todos e radiaram com uma luz negra e púrpura intensa. Troy colocou-se em frente às gémeas. A criatura virou os seus tentáculos todos para ele com Escuridão e medo a reinar à volta deles. Ele ergueu as palmas das mãos e delas nasceu uma luz intensa que aniquilou a Escuridão mas um dos fios, afiado que nem uma faca, atingiu-o no ombro. O seu braço direito cedeu completamente e a luz desapareceu.
- Troy! - gritou Ryan.
     A reencarnação de Tema sentia-se derrotado e cansado e não conseguia arranjar motivação para continuar. Sentia as sombras a saborearem o seu fracasso como uma relíquia. Mas também com as recordações da Escuridão ele teve um vislumbre brilhante duma luz que ele jamais iria esquecer e da felicidade que ela lhe trazia. De repente, ele viu todos os motivos para se levantar à sua frente. As únicas pessoas por quem ele sempre iria levanta-se.
     Então, Troy levantou-se. O olhar dele tornou-se perigoso. Uma faísca brilhou nos seus olhos e uma luz intensa surgiu - tão fresca quanto uma onda, tão fatal como o mar durante uma tempestade. Melody teve de fechar os olhos por causa da intensidade daquela luz. Ryan conseguiu manter os olhos abertos mas por muito pouco tempo. Os dois nunca o tinham visto com aquela expressão no rosto, tão certa e determinada. Pelo canto do olho conseguiu ver duas figuras aparecerem no jardim. Troy tornava aquela luz cada vez mais forte e era quase impossível distinguir a criatura e aquela luz. A criatura gemia. Os seus gritos pareciam facas tão agudos e finos que eram. Alguns tentáculos ainda remexiam e o grito sinistro do demónio era ensurdecedor à medida que ele desaparecia na luz mágica que Troy criara.
     Nenhuma pessoa no jardim mantinha os olhos abertos, agora. Troy não sentia mas quem comandava aquele poder todo era Tema. O demónio caiu no chão e ficou do tamanho de uma pessoa. Melody abriu os olhos e viu a criatura dissipar-se como cinzas numa expressão agonizante. Viu os pais deitados na relva junto ao banco e viu também a última pessoa que devia lá estar: Catarina. Ela tinha os olhos bem abertos e tinha visto tudo. Troy parecia nem vê-la. Tinha os olhos completamente brancos e avançava agora para ela e Violet. Agarrou na sua irmã e Melody levantou-se, pondo-se ao lado dele e da Vi. A luz surgiu de novo e abrangeu apenas as gémeas e Ryan. Um zumbido estridente pairou no ar. Melody e Ryan tiveram a sensação de estarem a flutuar mas ainda estavam demasiado perto do chão para poderem afirmá-lo com certeza. A luz tornou-se mais forte e mais poderosa. Melody sentia o gosto a adrenalina na pele e sabia o que ia acontecer a seguir. Catarina chamou por Troy mas ele ignorou-a. Estava tão concentrado que não via nada ou ouvia. Só agia. E agia exactamente como Tema agiria.
     A luz começou a dissipar-se. Melody e Ryan entre-olharam-se e viram os corpos um do outro desaparecerem com a luz, lentamente. Catarina presenciava tudo. Via o seu namorado a desaparecer aos poucos e não sabia como isso poderia ser possível mas mesmo assim gritou por ele com toda a força que tinha.
- Troy! - ele não a ouviu nem olhou para ela.
     Ela, antes de vê-lo desaparecer completamente, correu para ele e, ao mesmo tempo que eles se foram no ar, ela também foi.

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