I'll Never Let You Go Again #58




     A visão dele estava desfocada. Apenas via silhuetas negras e várias flores brancas. Elas estavam em todo o lado. À volta dele, à volta dela, no seu cabelo ruivo, na roupa das pessoas. Por um momento Tema esqueceu-se onde estava, quem era e o que estava a acontecer diante dos seus olhos. O funeral da Vénus. Era isso que estava a acontecer. 
     Dois dias depois da guerra Tema recebeu uma informação da Mondy e pedir-lhe que trouxesse Vénus para o seu planeta. Com a sua morte, o planeta dela voltou a materializar-se sozinho. Nesses dois dias ele chorou imenso, contudo, de vez em quando, sorria a imaginar peças em que eles os dois era os protagonistas. Um romance com um final feliz. Com direito a um viveram felizes para sempre. Porque eles iriam viver felizes para sempre se não fosse por ele. Era o que ele pensava e isso desencadeava as lágrimas, a tristeza, a solidão, a dor.
     Agora, Tema olhava para o corpo dela guardado num caixão de vidro, usando um vestido branco a segurar duas flores, uma branca e outra azul. O seu rosto não parecia morto. Parecia adormecido. E Tema queria acreditar que a qualquer segundo ela acordaria e diria que teve um sonho esquisito, que tinha sido atacada por ele e que tinha morrido... Que estúpido. Que estúpido
     Tema olhou à volta, tirando os olhos do vidro que a guardava. Tentou descobrir se todos se sentiam como ele. Primeiro encarou os olhos da Luna que, para a sua surpresa, transpareciam uma tristeza incontestável, mas quem sofria mais era claramente a Estrela. Via-se pouco no seu olhar, mas Tema percebeu. Ele conhecia Vénus à demasiado tempo para não se importar com ela. Depois encarou os olhos azuis da Mondy. Ela sim não tinha medo de mostrar o que sentia. Ao contrário de Mercúrio. Tema nem conseguia ver os seus olhos vermelhos devido ao cabelo dele. E por fim, Plutão que era o único que percebia o que Tema estava a sentir. Ele perdeu a sua amada, a sua companheira, a sua melhor amiga, a sua Tal por um erro que ele cometera.
     Isto não devia ser assim. Criar alguém no mundo que é a nossa alma gémea, a nossa outra metade, que antes de a encontrarmos, durante maior parte da nossa vida, vivemos uma boa vida e nem nos apercebemos deste gigante buraco dentro de nós. Mas quando a encontramos... Quando a encontramos tudo muda. O gigante buraco é preenchido, sentimos-nos completos finalmente, preenche um vazio que pareceu nem existir a maior parte do tempo. E depois algo acontece e perdemos essa pessoa e o tal buraco volta a esvaziar-se e desta vez sabemos que não há nada que possamos fazer, que nunca haverá mais ninguém que nos irá fazer preencher da maneira como aquela pessoa preencheu. Isto não devia ser assim... Não devia - pensou Tema. Os seus olhos lutaram contra a dor de novo. Ele respirou fundo. Limpou os olhos com a manga e procurou forças para manter-se forte.
      Plutão aproximou-se de Tema e soube perfeitamente o que se passava na mente dele. Ele um dia sentira-se assim, ainda se sente. Pousou uma mão no ombro dele e confortou-o. 
- Não vou dizer que te desculpo porque nunca irei. Mas ninguém devia passar pelo que tu estás a passar, pelo que eu ainda estou a passar. Gostava de dizer que tudo melhora mas não é verdade - Plutão tirou a mão do ombro dele e colocou-a no bolso das calças. Tema fitou-o - A verdade é que é difícil. Todos os dias, todos os instantes conscientes da tua vida, todo o teu ser volta àquele momento em que a perdeste. Como se fosse um castigo. 
- Uau. Obrigado pelo discurso animador, sinto-me melhor. 
- No entanto - continuou ele -, com aquele momento também vem aqueles felizes. Em que nada no mundo importava, em que era apenas tu e ela. Hás vezes até consegues sorrir, depois de visualizares todos estes momentos, em vez de desatares a chorar como um bebé. 
     Tema curvou o canto da boca, muito subtilmente. Plutão olhou para o rosto dele e viu-o marcado de olheiras e os olhos vermelhos. Tinha um corte no lábio inferior e um arranhão no final da sobrancelha do seu lado esquerdo. O azul-esverdeado dos seus olhos já não tinha qualquer brilho.
- Como é que não ficaste doido? Eu acho que vou perder a cabeça - desabafou ele.
- Quem diz que eu não fiquei? Como achas que passei os vinte e um anos em que me ausentei? Eu deixei a minha própria filha - respondeu. - Deixei a minha filha sozinha porque não aguentava o sofrimento. Mas foi ela que me trouxe de volta daquele buraco escuro. Saber que ela andava à minha procura fez-me despertar.
     Tema assentiu, digerindo cada palavra dele. Começou a formar os cenários de um futuro próximo onde se isolaria de tudo e todos, vivendo a vida na sua sombra de onde Vénus tentou tirá-lo. Tema queria honrar o sacrifício dela mas sentia-se demasiado partido e fraco, já completamente submerso pela Escuridão que tão familiar lhe era.
- Só te resta não desistir - disse-lhe Plutão. - É a pior coisa que podes fazer.
     Os olhos da Estrela arregalaram-se subtilmente. 
     Plutão deu-lhe leves palmadinhas nas costas e afirmou: 
- Eu sei que não foste o melhor Tal do mundo, mas ela não te trocava por nada - e lentamente afastou-se dele. 





     Mercúrio mal abrira a boca durante os dois dias que se passaram. Mondy sabia que ele iria explodir eventualmente e a única coisa a fazer é estar preparada para o acalmar e fazê-lo sentir-se menos impotente. Para os dois, a morte da Vénus foi como uma seta a atravessar pela barriga, uma facada nas costas, uma dor inesperada. Por muito que houvessem discussões, desentendimentos, eles eram uma família, amigos de longa data. Para os dois, a tristeza iria permanecer para sempre com eles como uma ferida que, de vez em quando, decide abrir e jorrar de novo. 
     Aos olhos da Luna, tudo lhe parecia injusto. A morte dela não foi justa. Ela não merecia morrer e se morresse, não devia ser a tentar emendar os erros de outra pessoa. Mas Vénus salvou toda a gente. Salvou a vida do Sol, do Mercúrio, do seu pai, de todos os outros planetas e a sua. Apesar desta tragédia não lhe parecer merecida, Luna achou que a Vénus estava linda. O seu cabelo ruivo parecia ter ganho mais cor, a sua pele continuava belíssima, o vestido que usava era maravilhoso e o seu corpo esta envolvido em pequenas flores brancas. O seu caixão feito de vidro lembrava-o da história da Branca de Neve. Como se um beijo do Tema a pudesse acordar dum sono amaldiçoado. Mas isto não é um conto de fadas em que há um final feliz, é a realidade. E a realidade não escapa a ninguém.
     A tensão no corpo do Sol era imensa. Estava a custar-lhe imenso passar por isto tudo. Estava a custar a todos. O seu rosto estava escondido por uma máscara. Essa máscara escondia tudo o que ele sentia e mostrava uma expressão séria e abalada, demonstrando nem um terço do que ele realmente sentia. A Vénus nunca foi alguém que tivesse sempre ao seu lado. Ela um dia aparecia e colava-se a ele durante semanas até um dia desaparecer. E este ciclo repetia-se uma e outra vez até que ela atacou a Luna em bebé. A partir daí, Vénus tornara-se numa estranha para toda a gente, uma mulher que só olhava para o seu próprio umbigo e que não tinha medo de magoar fosse quem fosse. Porque ela estava magoada o suficiente para não se preocupar com mais ninguém a não ser ela mesma. No entanto, Sol sempre a achou piada. Irritante, mas com piada. Como Estrela, Sol sentia que parte dele tinha sido arrancada, como um braço. Como amigos que se conhecem à demasiados anos, era inevitável não terem um lugar no coração um do outro. E agora esse lugar parecia ter sido arrancado sem qualquer aviso.
     Vai haver um dia em que não vou sentir a tua falta... Mas hoje não é o dia - pensou Sol.






     À medida que o tempo ia passando, foram aparecendo os Planetas, usando fatos formais que representavam o seu Planeta, sempre na cor branca. Todos vieram acompanhados de uma flor branca ou um ramo, um olhar triste e entre alguns deles, muita raiva. Todos lançaram olhares ao Tal de Vénus que parecia estar num estado de dormência, longe daquele lugar. Porém, não se atreveram a perturbar o silêncio do templo onde Vénus estava. 
     Júpiter apareceu com Neptuno, este primeiro com um pequeno ramo de rosas carmesins escuras com uma pluméria branca no centro, e o outro com um lindo conjunto de flores brancas. A Terra apareceu e cumprimentou toda a gente, Tema incluído, indo dar os seus pêsames a Mercúrio, a outra metade dos gémeos, apesar de este mal olhar-lhe nos olhos. Mondy agradeceu-lhe por ter vindo, assim como Sol. À parte deste tipo de conversa, houve o discurso de Sol quando todos os Planetas fizeram a sua aparência, que nas suas palavras tentou descrever a imensa beleza que Vénus trazia dentro de si.
     Tema achou que nenhuma palavra conseguiu descrevê-la correctamente, nem mesmo perfeita.





     Um por um, todos deixaram aquela sala ficar quase vazia. Tema era o único que ainda estava com Vénus.
     Depois dos Planetas do Sistema Solar abandonarem o templo, apareceram os seus próprios: Qaya, Noir e Silver. Ficaram, durante algum tempo, em silêncio. Não sabiam o que dizer. Era a primeira vez que tinham visto a sua poderosa Estrela naquele estado frágil e abatido. 
- Ela era muito bonita - Silver murmurou numa tentativa falhada de animá-lo. 
     Ela pousou a flor prateada que tinha na mão no caixão fechado. Antes da Silver afastar a mão, Tema alcançou-a e olhou-a nos olhos. 
- Obrigado - disse.
     Silver sorriu de fininho e voltou para junto de Noir enquanto Qaya fazia o caminho até Tema. 
     Tema e Qaya fitaram-se. 
- Não me olhes assim - Tema riu-se evidenciando ainda mais a voz fraca. 
     Qaya sorriu-lhe ao mesmo tempo que encolhia os ombros e esticava-lhe uma mão.
- Só queria que não tivesses de passar por isto - e pousou a outra mão no ombro dele.
- Não há nada a fazer. 
- Não fiques aqui muito mais tempo que só te faz mal - opinou. 
      Eles largaram as mãos e Qaya, a afastar-se, exclamou: 
- Ela era demasiado boa para ti de qualquer maneira.
      Tema soltou um sorriso. Das sombras surgiu Noir. 
- Quem me dera ter palavras bonitas para te dizer mas não tenho. 
- Isso foi tão simpático. Vou-me lembrar disso para o resto da vida - Tema colocou a mão junto ao coração.
     Noir sorriu e deu-lhe um toque no ombro. De seguida, abraçaram-se. 
- Vem para casa quando estiveres pronto. Não quero um chorão a vaguear pelos corredores - Noir largou-o. - Estamos entendidos, Estrela Vital? - e apontou-lhe o dedo, com um sorriso no rosto.
     Tema assentiu.
     Noir juntou-se aos dois restantes Planetas e apesar da preocupação, voltaram para Lymph.





     De novo sozinho, Tema começou a andar da esquerda para a direita, até que por fim decidiu abrir o caixão para poder tocar-lhe só mais uma vez. O seu rosto, apenas iluminado por uma fração de luz, continuava macio e ainda lhe causavam bons arrepios. Os seus lábios ainda eram desejáveis. A esperança de Vénus abrir os olhos a qualquer momento ainda vivia. O que ele não dava para ver aquele brilho rubi uma ultima vez.
     Tema sentou-se no apoio do caixão e acariciou o rosto da sua Tal. Sem se aperceber, um sorriso nasceu nos seus lábios.
- Só queria que me tivesses levado contigo - murmurou. - Mas eu mereço cada segundo deste sofrimento.
     Ele deitou os braços e a cabeça junto às pernas dela, com a mão na dela. Sentia que podia ficar acordado mais mil anos seguidos, mas os seus olhos não deixavam estar desperto. O seu consciente já estava meio adormecido quando uma luz brilhante surgiu vinda do tecto. Tema julgou estar a sonhar.
- O que... - antes de poder terminar a frase, Tema viu-a. - Vénus?
- Ainda queres que te leve comigo?
     Ela parecia uma ilusão, com o cabelo a flutuar ao seu redor, o vestido a brilhar como o resto do espaço. Tema levantou-se, indo para o outro lado do caixão.
- Mais que tudo - respondeu ele.
     Tema julgou estar a sonhar. Deixou-se levar até que Vénus lhe estendeu a mão. Com o seu toque, Tema soube que aquilo era a realidade, que ela estava mesmo ali, a dar-lhe a mão e Tema agarrou-a como se fosse a única chance de não cair num abismo. Sentiu-se imediatamente revitalizado e cheio de energia mas depois essa energia foi-lhe drenada e Tema caiu de joelhos. Uma sensação esquisita invadiu o seu ser como se estivesse a sair de si mesmo, e a verdade é que estava. Tema deparou-se com o seu corpo caído de joelhos atrás de si.
- Mas que raio?
- O teu corpo foi separado do seu espírito. Quer dizer que morreste - disse ela, num tom lamentável.
- Já estava morto muito antes disto - Tema pegou-lhe no queixo, ainda maravilhado com a presença dela. - Nem acredito que estou contigo... - ele sorriu, quase a chorar de felicidade.
     Vénus sorriu e encostou o seu rosto ao dele.
     Antes de ele voltar a desculpar-se por todo o mal que causou, Vénus antecipou-se:
- Eu perdoo-te se me perdoares - disse, colando as suas testas.
- Pelo quê? Não fizeste nada de errado - a mão dele encontrou-se com o rosto de Vénus.
- Não te devia ter deixado.
- Vénus - ele sussurrou.
     O seu tom mudara ligeiramente. Ele já tinha certeza de que ela era a pessoa mais bondosa que tinha conhecido, mas agora ela tinha-se elevado para um patamar. Como é que ela só consegue pensar no que poderia ter feito para o ajudar quando já fez tudo e mais alguma coisa?
- Não te volto a deixar nunca mais - Vénus apertou a mão dele a assegurar-se que não ia a lado nenhum.
- E eu não te vou deixar ir, nunca mais. Eu prometo - ele abraçou-a com força. - Eu prometo - Vénus tinha o seu rosto na curva do pescoço dele. - Deixa-me compensar-te. Deixa-me amar-te melhor, deixa-me merecer o teu perdão - pediu ele, afastando ligeiramente dela.
     Vénus colocou as mãos no rosto dele, quase a chorar. Ela entendeu aquilo pelo que foi: um pedido de compromisso eterno.
- Claro que deixo, Tema - ela sorriu e deixou escapar uma pequena lágrima.
     Tema sorriu, fitando aqueles olhos cor de rubi.
- Eu amo-te. Mais que tudo e para sempre - disse ele, transparecendo no rosto tudo o que disse.
- Eu também te amo, Tema.
     Os seus lábios selaram-se num beijo como nunca antes dado que aumentou a Luz, rodeando-os, e a Escuridão em Tema abandonou-o por fim.  

Comentários