Weak #48



Luna 



     Abri os olhos. A dor atingiu-me como um relâmpago e eu sabia que uma parte dela não vinha de mim, mas sim de Sol.
     Estava deitada de barriga para baixo no chão polvilhado de pó dum túnel onde plantas trepadeiras enfeitavam as suas paredes. Não tinha forças para me levantar, sentia-me fraca. Os meus olhos avistaram o meu pai, a avó e o Mercúrio deitados no chão, imóveis. Tentei levantar-me. Apoiei-me nos braços e consegui sentar-me. Sentia-me suja e imunda. Sentia-me vazia e só. Sentia-me impotente e fraca. 
     Sol escorregou por entre os meus dedos e não houve nada que eu pudesse fazer para impedi-lo. Ou melhor, houve, e eu não o fiz. Mais uma vez: fraca. Impotente.
     Deixei uma última lágrima cair antes de largar-me desta pessoa que eu não gostava. Limpei o rosto sujo e qualquer vestígio de choro desapareceu. Não queria tornar a ver esta fraqueza nunca mais.
      O meu pai mexeu-se e movi-me até ele. 
- Luna? Estás bem? - A voz dele soava rouca, cansada e preocupada.
     Assenti.
- S-sim, estou bem. E tu? 
- Estou - passou uma mão pelo meu rosto e acariciou-a. - Vai ficar tudo bem, prometo. - O meu rosto movia consoante o seu toque e assenti. Esperava mesmo que ficasse tudo bem. Tinha de ficar.
     Depois de todos acordarem, a avó pediu-me para buscar água das plantas à nossa volta. Como era algo que nunca tinha feito, demorei mais do que queria para cumprir o meu objectivo, mas consegui sugar a água necessária. As malas que tínhamos feito estavam desaparecidas, apenas restou o saco que eu trazia no ombro e a mochila de Mercúrio com alguma comida e roupa.
     Todos nos separámos e fomos andar durante uns vinte minutos os túneis que nasciam do nosso. O nosso túnel não estava totalmente escuro mas existiam vários completamente envolvidos em negro. Quando nos voltámos a reunir, seguimos pelo caminho do Mercúrio que era o que mais luz tinha apesar de no início não o aparentar.
     Tentei contactar Sol pela minha Ligação mas não consegui chegar até ele. Estava a ficar muito preocupada até que senti uma onda de alívio e frescura percorrer o meu corpo. Soube nessa altura que ele estava a ser curado. Já não tinha aquela ponta de dor no peito que vinha dele. Quem estaria a curá-lo? Vénus. Só pode ser ela. De qualquer das formas, senti-me melhor por saber que ele estava a sarar. Só queria encontrá-lo.

     Chegamos a um local onde a luz me cegava. Sentia a agitação dela na minha pele como se algo se passasse, como se algo estivesse errado ali. Não sabia o que era ao certo.
     De início, mantive o antebraço junto aos olhos. Lentamente a luz ficou cada vez mais fraca até estar no seu estado natural: calma, serena e auxiliadora. O meu olhar centrou-se na avó e vi nos seus olhos que ela iria desmaiar. Chamei-a e ela apenas não caiu no chão porque Mercúrio a apanhou a tempo. Caminhei até ela.
- Oh não... - sentei-me em cima das minhas pernas e agarrei nas mãos da avó.
- Ela vai ficar bem, Luna. Foi da luz - Mercúrio disse.
- Por falar nisso, que raio se passou? - perguntou o meu pai.
     Ele olhou para mim à espera duma resposta. Porque haveria de saber? Só porque tenho afinidade com a Luz?
     Em contrapartida olhei para Mercúrio. Ele suspirou.
- A Mel tinha afinidade com a Luz, certo? - O meu pai assentiu. - Portanto deve ter sido alguma espécie de proteção.
- Mas se for esse o caso, porque senti a Luz agitada e perturbada?... Como se estivesse a fugir de algo?
- Não sei. Sem ser a Mondy, nenhum de nós sabe algo sobre isso - confessou Mercúrio.
- Será que ela vai ficar assim muito tempo? Temos de andar, Mercúrio.
- Pai, temos de ter calma. Ninguém fica para trás.
      As minhas palavras pareceram uma piada assim que as interiorizei. Sol ficou para trás e nós ainda não tínhamos feito nada em relação a isso, nem sequer falámos sobre o assunto.
     O meu pai foi-se sentar numa das rochas que estava junto à parede. Apoiou a cabeça nas mãos e apercebi-me de que isto era demais para ele. Ele conheceu a minha mãe, ele teve quase uma vida com ela. O que ele está a sentir ao estar no planeta que outrora ela fora é demasiado. Levantei-me e fui ter com ele.
- Pensa que ao estares aqui, já não estás assim tão longe dela - disse-lhe.
      Ele pai nada disse, apenas deu-me um sorriso pouco convincente.





     Assim que avó acordou e descansou um pouco, começámos a andar outra vez. Igual a mim, a avó não soube responder às perguntas que pairavam na cabeça de cada um de nós acerca da luz. Porém, todas as perguntas desapareceram quando nos deparámos com o final do templo em que nos encontrávamos. Uma porta altíssima, mas não tão alta quanto o próprio tempo, elevava-se na parede, protegida pela natureza: ramos verdes e castanhos, heras longuíssimas, lianas e muito mais plantas.
- Não é assim tão mau - falei, cedo de mais.
     As minhas palavras premiram o gatilho que fez acordar a magia do tempo que criou gigantes feitos de caules e ramos de plantas que protegiam a passagem. Antes que pudesse raciocinar, dois dos gigantes começaram a correr na nossa direção prontos para atacar.
- Repete lá isso, Luna - disse Mercúrio com o seu tom sarcástico e com um sorriso convencido nos lábios.


  

Tema



     Tema e Noir chegaram no ponto inicial do enorme labirinto que era a parte subterrânea de Marte. Os grandes portões de aço, envolvidos por caules finos e curvilíneos e outras plantas, elevavam-se muito acima das suas cabeças. Tema perguntou-se se estaria preparado para entrar nesta jornada que poderia custar-lhe Vénus, porém, esse pensamento diluiu-se com a chama que Noir fez com as mãos para abrir os portões como se tivesse queimado.
- Noir - a voz de Tema parecia um rugido de repreensão -, o que estás a fazer?
      Noir encarou-o irritado.
- Ora, estou a tentar ajudar-te nesta missão. Não era isso que querias, loirinho?
      Tema já tinha esquecido o temperamento de Noir. Respirou fundo.
- Não podes abrir um portão destes apenas com fogo. 
- Então abro com o quê, Tema? - A voz dele soava perigosamente irritada.
      Tema ignorou-o por completo, virou-lhe as costas e encarou o portão de aço. Tema levantou os braços e posiciono-os na diagonal. Das suas mãos surgiram luzes azuis com pingos brancos e de súbito tornaram-se chamas azuis. Tema proferiu palavras que libertaram os portões da sua fechadura mágica, de modo a abrirem. Tema respirou fundo e encarou Noir.
- E é assim que se abre um portão mágico - o olhar de Tema era cortante que nem uma lâmina, porém, o momento de tensão foi quebrado pelos sorrisos divertidos dos dois. Noir envolveu os ombros de Tema com o braço direito e Tema deu-lhe leves palmadas no peito.
     O momento de brincadeira foi rapidamente quebrado quando os dois se aperceberam do perigo diante dos seus olhos. Altas paredes de arbusto, quase tão altas quanto o portão que eles acabaram de passar, enfeitadas com lianas com picos e flores de fogo.
     Tema e Noir largaram-se e o divertimento desapareceu juntamente com o abraço desfeito. Noir passou a mão pelo cabelo ruivo e o seu olhar negro intensificou-se.
- Em que raio me fui meter, hum, Tema?
     Tema soltou um leve sorriso e com uma ponta de medo e outra de sarcasmo, disse:
- Na melhor aventura de tua vida - os dois partilharam um sorriso.
     O duo avançou no labirinto e Tema desejou não ter de fazer nada mais do que o necessário para ter a Pedra. No fundo do seu ser, ele sussurrou um desculpa para o fio dourado que ligava o seu coração ao dela, a sua Tal, Vénus.



Vénus



     Aturar Sol era mais difícil do que Vénus se lembrava.  Cada passo, movimento, ou gesto, Sol queixava-se. 
- Importas-te de estar calado? 
- Importas-te de me dizer para onde vamos? 
- Para um sítio seguro - a sua voz elevou-se. Sol ficou irritado. - Ouve, tens de confiar em mim, está bem? 
- Que remédio. 
      Vénus revirou os olhos, parou e virou-se para o fitar.
- Se queres fazer o teu caminho, no estado em que estás, correndo a chance de morreres nas armadilhas de Marte sem ninguém ao teu socorro, força. Eu até me vejo livre dos teus gemidos.
     Sol fitou-a sem nenhuma emoção passar no seu rosto. Ficaram em silêncio durante longos instantes.
- Lidera o caminho - acabou ele por dizer.
     Vénus mexeu no cabelo, colocando uma longa mecha para trás com a mão. Continuou a liderar o caminho com a cabeça levantada. 
     Eles caminhavam pelos túneis subterrâneos e à volta deles só existia areia e rochas de tom avermelhado. Vénus estava farta daqueles túneis e saber que a saída ainda estava distante desgastava-a ainda mais. Quando chegassem à saída eles iriam encontrar a entrada para o Templo de Kutsal onde a Pedra reside. Vénus esperava chegar lá primeiro que toda a gente. No entanto, Sol estava preso a ela. Vou aproveitar a sua lesão para conseguir a Pedra - pensou.



 

     O cansaço atingiu Vénus com mais força e a sua paciência estava a esgotar-se. Foi então que ela sentiu um fraca energia chegar até ela, vindo de Tema. Essa energia sussurrou algo mas era tão fraca, suave e pequena que Vénus não conseguiu perceber o significado. Ela obrigou-se a queimar a ideia de que a relação deles era como esta energia: fraca, suave e pequena. Prosseguiu o seu caminho sentindo-se cada vez mais débil.

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