Take Care #32



Vénus



- Vai-te embora - sussurrou, ofegante. 
- Não. Eu não vou... Vénus. - Tema pronunciou o seu nome dela com um carinho novo para os dois. - Não sentes? - sorriu admirado. 
- Sinto, óbvio. - Ela quase sorriu até ver de relance o grupo atrás de Tema. - Mas isso não é motivo para ficares. 
- Vem comigo.  
     Vénus não acreditava que tinha encontrado o seu Tal, não acreditava. Ele não é quem ela esperava. Tema é o Mal. Ele é o motivo pelo qual ela iria treinar e lutar, se fosse preciso. Porém, ao encontrá-lo, algo a preencheu com um sentimento de preenchimento, como se ela tivesse finalmente preenchido o vazio que a atormentava.  
     Sentia os olhos de toda a gente, que estava no jardim, postos neles os dois. E dentro de si, sentia a raiva de Mercúrio e Plutão a perfurar-lhe a alma. Os seus Irmãos estavam a observá-la, a ver se ela não caia na teia de Tema e Vénus não queria nada cair. 
- Vénus? 
- Ouve - fitou-o -, eu não posso.
     Tema olhou para baixo, respirou fundo e conseguiu mostrar-lhe um sorriso sincero. 
- Tudo bem - disse e tocou-lhe no rosto - Quando quiseres vir ter comigo, chama-me. -
     Deu-lhe um beijo na bochecha, muito tímido e hesitante e abandonou o jardim da mesma maneira que entrou. 
     Assim que Tema saiu do jardim,Vénus fez o seu caminho até aos seus irmãos. 
- Podemos falar? Os vossos olhares estão a pedir uma conversa. 
- Vénus? O que raio se passou ali? - perguntou Plutão. 
- Eu sabia que teres vindo para cá só iria trazer problemas - disse Mercúrio. 
- Eu e Tema somos um, e daí? Isso não quer dizer que eu vá virar uma vilã que vai matar Sol! 
      Plutão e Mercúrio encararam-na e acreditavam nela, mas não a queriam com Tema. 
- Ouve, o Tema é perigoso, Vénus. - Mercúrio suspirou.
- Eu sei cuidar de mim, tu sabes. 
      Riu-se a lembrar-se das aventuras que os dois tinham. - Sei, mas eu não confio nele. 
- Nós só queremos que estejas sempre no melhor caminho para ti - adicionou Plutão enquanto colocava a mão no ombro de Vénus. 
- Já pensaram que eu posso mudá-lo? Colocá-lo no bom caminho? 
- Mas para isso, tu tens de ser totalmente boa e... 
- Eu sei que não sou uma santa, mas eu não quero que ninguém morra. - Vénus fez má cara. 
- Nós sabemos - Plutão suspirou. 
- Não contem isto aos outros, está bem? Eles iam dar cabo do meu juízo e eu não tenho paciência alguma.
- Pois, já estou a ver Neptuno a dar-te na cabeça - Mercúrio gozou. 
- Não quero nem imaginar.
      Os três riram-se e qualquer problema pendente entre eles, se resolveu naqueles sorrisos. Estavam a rir como antes, e isso bastava. Vénus sabia que iria ter de se encontrar com Tema, queria conhecê-lo, afinal de contas, é o seu Tal. Mas agora queria manter os seus irmãos o mais perto que pudesse junto de si, queria aproveitar o curto momento de união que iriam ter, pois poderia ser o último. 
     Mercúrio mudou de assunto, começou a falar dos velhos tempos. Vénus desculpou-se por tudo, com sinceridade, e ambos a desculparam. São família, e família é para sempre. 
      Antes de se ir embora, Vénus pediu-lhes um abraço como nos velhos tempos. 
- Toma cuidado - dizia Mercúrio. 
- Chama-nos se precisares de alguma coisa - falou Plutão. 
- Eu vou ter com o meu Tal, acho que ele não me vai querer matar não é? 
- Nunca se sabe - respondeu Mercúrio. 
      Vénus abraçou-os, afastou-se um pouco e num piscar de olhos desapareceu do jardim.
      Algo neles sabia que Vénus iria para um futuro fatal em que seria tudo ou nada.



Luna 



- Não acredito no que acabei de ver. 
- Somos dois. 
- Só espero que Vénus não se torne maléfica. 
- Somos dois - repetiu Sol.
     Deixei de encarar o jardim que agora parecia muito vazio sem a presença flamejante de Vénus e fitei os olhos âmbarinos de Sol. 
- Importas-te de parar, se faz favor? 
- Desculpa - Sol riu-se. 
- Só acho que isto é mais um problema. 
- Mas repara bem, agora a Vénus tem alguém a quem dar atenção sem estar atrás de mim - falou Sol, colocando os seus braços à minha volta por trás. 
- Eu não ia deixar que isso acontecesse de qualquer das formas - fitei-o.
- Eu sei, mas não deixa de ser algo positivo. A Vénus sabe ser chata. 
- É, está bem - desviei o olhar para o meu pai e Mercúrio. Pareciam preocupados. 
- Pai - avancei até ele, largando-me de Sol -, está tudo bem? 
- Não sei, Luna. Vénus foi ter com Tema, como sabes. 
- Sim, sei, mas ela sabe cuidar de si. 
- Mas é de Tema que estamos a falar. E a Vénus pode deixar-se influenciar por este novo amor.. - confessou Mercúrio. 
- Acham que Tema pode lhe fazer a cabeça? - Sol fez a pergunta que rondava a minha cabeça. 
- Não sei. Ela continua a nossa irmã - Mercúrio olhou para Plutão, preocupado -, e não queremos que nada lhe faça mal. 
- Não se preocupem tanto com a Vénus - disse a avó à entrada da porta que dava ao jardim. - Ela sabe, melhor que ninguém, cuidar de si mesma. Ela vai fazer a coisa acertada. Não deviam estar a inferiorizá-la só porque encontrou o seu Tal.  
- Como podes ter tanta certeza, avó?
     Mercúrio encarava-a mais do que ninguém. 
- Porque eu sei. Eu conheço-a. A Vénus é demasiado certa de si própria para se deixar ceder por um homem - os olhos de avó ficaram postos em Mercúrio, durante a sua resposta. 
- Talvez tenhas razão.  
- Eu tenho sempre razão.
     A avó fez o seu caminho para dentro de casa e Mercúrio seguiu-a.   
     Passado um bocado fomos todos almoçar. O ambiente estava esquisito e a avó era a única que agia normalmente. Todos, incluindo eu, estavam preocupados e cansados. Eu até posso nem gostar muito de Vénus, mas Tiago ou Tema não é flor que se cheire. 
     Tema enganou-me bem. Muito bem mesmo, aliás. Só queria apagar da minha memória todas as vezes que estivemos juntos. 
- Não penses nisso, só te faz é mal - sussurrou Sol. 
     Agarrei-lhe na mão e sorri-lhe.
     A batalha nem tinha começado e eu já estava cansada disto tudo. Só de pensar que Tema tem-nos na sua mão dá-me uma raiva enorme e saber que não tenho maneiras de proteger Sol só faz essa raiva crescer. Nem o meu destino estou a cumprir. Mas eu vou conseguir, tenho de conseguir. 
     Já a noite caia quando fui para de baixo da árvore. A Lua e as estrelas mal brilhavam. 
- Oh, podiam brilhar mais um pouquinho, não? - disse e num instante a Lua e as estrelas soltaram o dobro do brilho no céu escuro. 
- Mas que... - sussurrei.
     De súbito surgiu um leve formigueiro nas pontas dos meus dedos das mãos e um calor indescritível de onde começaram a sair luzes amareladas. À minha volta apareceram vários pontos brilhantes como pirilampos à medida que as minhas mãos mexiam-se. Quando dei por mim, estava envolvida por luz amarela, branca e azul.
- Tenho afinidade com a Luz! - exclamei. 
      Comecei a festejar no jardim e a fazer mais luzes com as minhas mãos. Sentia-me tão feliz. Estava a ganhar poderes fortes, capazes de ajudar a derrota de Tema e a proteção de Sol. 
- Obrigada, Lua.

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