Venus #28



Luna 



     Quando a luz enfraqueceu por completo, deu lugar a uma mulher esbelta. O seu olhar vermelho como sangue faziam Sol tremer, e não consegui perceber se era num bom sentido ou mau sentido, para mim. O cabelo de Vénus, ruivo brilhante, caía-lhe pelos ombros e era dum comprimento infinito, completamente liso. Trazia um vestido comprido, com decote em V, preto. Olhava somente para Sol, como se fosse ele a única pessoa que importasse. A única pessoa digna do seu olhar.
     Sentia o nervosismo de Sol, mas não podia interferir-me no caminho de Vénus para ele quando estávamos mal. Pior que mal. Tive que controlar-me para não armar-me em possessiva e ciumenta.
     Avó olhava Vénus intrigada. O meu pai e Mercúrio esperaram que ela dissesse o que estaria ali a fazer antes de tomar quaisquer atitudes.
- O que estás aqui a fazer, Vénus? - perguntou Sol, claramente perturbado. 
- Bem, decidi visitar-te. Estava a sentir saudades tuas - respondeu, enquanto se aproximava dele. - Tu nunca mais voltavas - acrescentou. - Imaginei que estarias muito ocupado e...
     Sol interrompeu-a - E estou. Não se nota? 
     Vénus não desviou o olhar do dele nem um segundo. Colocou a mão no seu pescoço. 
     Mas quem é que ela pensa que é? Sol é o meu Tal, eu sou a Tal dele! O que ela pensa que está a fazer? 
     Não consegui controlar-me. Estiquei a minha mão em direção a Vénus e atirei-a contra o muro. 
- Luna! - gritou avó num tom autoritário e chateado. 
     Não lhe liguei. Fui ter com Sol, meio envergonhada, meio orgulhosa. Coloquei-me ao seu lado e não liguei ao facto de toda a gente estar com os olhos postos em mim, espantados.
- Oh, olá Vénus. Sou a Luna, protetora e Tal do Sol. Como vais? - Soltei um orgulhoso e leve sorriso para ela. 
     Vénus levantou-se, ajeitou o vestido, tirou o cabelo da cara graciosamente e começou a soltar risinhos. 
- Parece que arranjas-te companhia enquanto estive ausente. Pelo menos, finalmente arranjaste uma companhia de jeito - falou para Sol. - Ou então... - fitou-me pouco convencida.
- Podes explicar o que estás aqui a fazer? - perguntou ele.
- Já te disse. Estou com saudades tuas. 
- Pelo menos podias parar com as mentiras, Vénus - disse avó como se a conhecesse à anos.
- Mondy. Nem te tinha visto... 
- Vê lá como falas, Vénus - disse Mercúrio irritado e a aproximar-se da avó. 
- Olá, Irmão. 
- Não venhas com a treta do Irmão, Vénus. 
- Já lá vão décadas, maninho. Podíamos esquecer esse assunto. Começar de novo... Que achas, Irmão?  
- Podíamos. Mas não o vamos fazer - abraçou avó com o braço esquerdo. 
- Pronto, pronto. Já não insisto mais. 
     Vénus virou-se para mim e para Sol de novo. Aproximou-se. Olhou para mim, a avaliar-me, e fixou os seus olhos em Sol, de seguida. Colocou a sua mão no pescoço dele e sussurrou-lhe algo ao ouvido. O que quer que tenha sido, deixou Sol chateado, mas não o demonstrou no rosto. Vénus olhou-me de cima a abaixo, sorriu, e começou a andar para dentro de casa. Até ela desaparecer completamente da nossa vista, nenhuma palavra foi dita. Quando a sua figura finalmente entrou em casa, a avó começou a ficar preocupada. Mercúrio acalmou-a. Eu ia ter com ela, se não fosse Sol a puxar-me pelo braço e a falar comigo. E já que ele começou, eu também queria dizer-lhe algumas coisas. 
- Luna, desculpa por esta situação. A Vénus é uma doida. 
- Não peças desculpas por isso. Eu não tenho moral - hesitei e fiquei de cabisbaixo - Mas quem é ela Sol? 
- Bem, ela é Vénus. 
- Isso sei eu, obrigada.
- Nós tivemos uma... coisa - disse hesitante.
- Uma coisa? - perguntei duvidosa. 
- Sim, Luna, tu sabes... 
- Oh. Já percebi. 
- Pois. 
- Mas Sol... - fitei-o. - Como ficamos nós no meio disto tudo? Eu sei que tu ainda não me perdoaste. 
     Sol olhou-me nos olhos. Reparei que no seu olhar já existia um fio de amor e perdão, um fio desprovido de desilusão e tristeza. 
     Ele demorou a dizer algo de tal maneira que pensei não ouvir nenhuma resposta vindo dele. E quando ele finalmente abriu a boca para dizer as palavras que mais ansiava, a campainha toca de uma maneira louca. Obriguei-me a afastar-me de Sol. Aquela doida da Vénus ainda abria a porta e fazia sei lá o quê. Suspirei. Mais um problema para as minhas costas.
      Avó, Mercúrio, Sol e o meu pai foram para dentro de casa. De certo que pensavam numa maneira de lidar com esta mulher. Reparei que Vénus só trouxera stress e preocupação cá para casa. E ela chamou Mercúrio de Irmão. Isso quer dizer que são família? Quer dizer que a minha mãe também fora Irmã de Vénus? Assim como o meu pai?
     Quando finalmente abri a porta, os meus olhos não estavam preparados para ver o rosto que me apareceu à frente.
- Tiago? O que fazes aqui?
- Desculpa ter tocado à campainha feito um louco. Mas eu estou farto de esperar, Luna.
- Esperar pelo quê? - questionei a tentar compreender a sua expressão.
- Por uma explicação tua! - Tiago aproximou-se de mim. O seu semblante estava carregado transparecendo tristeza e confusão.
- Desculpa Tiago, mas isto não é realmente boa altura.
- E quando será, Luna?
- Não sei. Mas de certeza que não é agora.
     Um calor abrasador começava a fazer-se sentir vindo das minhas costas. Que raio?
- És o Tiago? - perguntou Sol, possuído por testosterona.
- Sou sim.
- Oh, então finalmente conheço-te.
- Sol, o que estás a fazer?
- Nada Luna, queria conhecer o teu amigo.
- Pronto, já o conheces. Podes ir embora - afirmei sem encará-lo.
- Tiago, não queres vir cá jantar, mais logo?
     Tiago olhou para mim duvidoso. Olhei para ele tentando fazê-lo recusar o convite mas não consegui. Ele encheu o peito, como Sol, possuído pelo orgulho, e aceitou o convite. Sorriu-me, disse um até já e foi-se embora. Fechei a porta com uma raiva. Sol ficou a olhar para mim, a sorrir, como se tivesse ganho um prémio.
- O que foi isto Sol?
- Ora, chama-se conviver Luna.
- Porque estás a fazer isto?
- Acho que é mais assim: - aproximou-se de mim, colocou a mão na porta de modo a bloquear-me de lado com o braço, sorriu orgulhoso e concluiu - porque não haveria de fazer isto? - E com isto, Sol subiu as escadas em direção aos quartos.



Sol 



     Ver Vénus de novo causou náuseas a Sol. Detestava-a. Agora mais que nunca por interferir num momento destes, de novo. Detestava-a pelo que fez décadas atrás. Vénus fora uma diversão para Sol mas isso durou mais do que previsto e agora ela aparecia inesperadamente como uma chama longe de ser extinta - a ideia de Sol fazer o mesmo que Luna lhe fez enojava-o. Mas eles não estavam juntos. Ainda não. 
     No entanto, Sol pediu-lhe desculpa por este problema de Vénus mesmo sem ter culpa alguma. E quando Luna lhe perguntou sobre o estado da relação deles, Sol tentou procurar palavras, tentou dizer-lhe que ainda a ama muito e que, em breve, espera estar junto dela, como sempre irá estar. Mas um infernal barulho começou vindo da porta e as palavras escolhidas de Sol ficaram para segundo plano. 
     Luna começou a andar em direção à porta de entrada e sem ela dar conta, Sol seguiu-a. Ficou um pouco mais atrás, mas estava lá, atrás dela, a protegê-la de qualquer ataque inesperado de Vénus ou surpresa vindo da porta.  Quando se apercebeu da pessoa que estava lá fora, Sol não se conteve: olhou para aqueles olhos azuis esverdeados e algo dentro de si reconheceu aquela pessoa. Não do dia em que chegou e o viu com Luna, mas de outra altura, outro momento. Porém, logo largou essa sensação e meteu-se com o rapaz. Sol sentia a frustração e a irritação de Luna e isso só indicava de que estava a resultar, a sua tática. Convidou-o para jantar e fez Luna perceber de que a vingança está próxima. 
      Sol subiu as escadas e sabia que Vénus estaria à sua espera no quarto. Durante o caminho tentara preparar-se para não se exaltar, mas quando abriu a porta e Vénus o olhou com se fosse uma presa, Sol não se deteve. 
- Vou perguntar pela última vez Vénus - estendeu a mão para o lado, aberta, e, num ápice, uma chama apareceu para ameaçar Vénus -, o que estás aqui a fazer? 
- Calma, meu querido - aproximou-se devagar, hesitante por causa da chama - Não precisamos de ir por esse caminho. - Sorriu. 
- Acredita que precisamos. 
     Vénus tirou o charme do seu rosto e olhou para Sol com desprezo. Virou-lhe costas e deitou-se na cama, de frente para Sol.  
- Vim porque me apeteceu. Mercúrio e Plutão estão longe há tanto tempo, pareceu-me que a diversão estava toda cá em baixo, e parece que não me enganei. 
- Porque te apeteceu, hum? - Sol riu-se com a estupidez dela ao mesmo tempo que abanava a cabeça. 
- Sim. Estou farta de estar sozinha lá cima. Sabes perfeitamente que a Terra, o Júpiter, Saturno, Urano e Neptuno são uns chatos. E Marte... - Vénus ficou de cabisbaixo.
      Sol, pela primeira vez, viu Vénus com uma tristeza genuína.  
- Eu sei. Mas não podes simplesmente aparecer. 
- O que perturba, Sol? 
- Não tens nada a ver com isso. Volta para casa, Vénus. 
     Vénus ignorou-o completamente, avançou para ele e agarrou-lhe pelo pescoço. Fitou-o e deu-lhe um beijo. 
Sol surpreendeu-se com a facilidade com que cedeu ao beijo de Vénus. Os seus lábios eram familiares, quentes, sedosos... Sabia o caminho até ela e ceder não lhe pareceu errado. A sua cabeça apagou-se envolvida somente em desejo de toques, beijos, paixão de que Luna lhe tinha privado. As suas mãos percorreram o corpo de Vénus num desejo incontrolável. Quando reparou, Sol e ela estavam deitados na cama, a querer mais e mais. Vénus estava pronta para reclamar Sol como seu quando ele afastou-a brutalmente.
- O que se passa agora? Estou a ficar farta dos vossos modos. 
- Fica longe de mim, Vénus. 
- Tenta tu ficar longe de mim, Sol. 
     Vénus soltou um sorriso vitorioso e orgulhoso. 
     Sol afastou-se dela e caminhou para fora do quarto a tentar similar o que acabou de acontecer. No seu corpo e mente ardiam a confusão, enjoo e raiva que eram maioritariamente dirigidos a si por ter sido fraco. 

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