The Dream #11

      Fui-me deitar logo depois de termos a conversa. Não aguentava mais bombas em cima de mim, é demasiada informação. A minha vida mudou completamente, mesmo. Descobri coisas que agora me fazem pensar de maneira completamente diferente. A imagem que tinha dos meus pais, dos meus avós, mudou radicalmente. Já nada é o mesmo, e agora é que me apercebi disso.  
      Deitei-me e logo adormeci. O stresse era tanto, que a única coisa que se manteve a mesma, a minha confortável cama, me acalmou e me relaxou.


No Sonho Dessa Noite 


     O local estava iluminado e o céu era luz branca com suaves toques de lilás e azul; Dele caíam gotas de  luz que tornavam tudo mágico. Havia um pequeno lago de cor cristalina, reluzia de tanta beleza e trazia nenúfares com flores cor de rosa. À sua volta estavam pedras que completavam o cenário de conto de fadas. 
     Havia altas árvores com espaços generosos entre si e as flores eram, de longe, as mais bonitas que alguma vez vira. Combinavam com os tons do cenário, eram azuis, lilás, brancas e algumas tinham um pingo de amarelo. 
    Uma voz suave cantou o meu nome, Luna, e uma luz apareceu. Dessa luz apareceu a mulher que, apesar de nunca ter conhecido, sabia exatamente quem era. 
- Lua - sorri. 
- Sim Luna, sou eu - sorriu.
     A sua cara era ainda mais bonita do que sempre imaginara. Os seus olhos era tão claros que quase pareciam brancos, no entanto, tinham um toque de prateado que os tornavam prata pura. O tom do seu olhar era compreensivo, carinhoso e meigo. Trazia calma e sabedoria. Lábios bem desenhados e tinham uma cor natural linda. O seu belo cabelo liso e loiro claro cobria-a como um véu e trazia uma tiara prateada com uma lua prateada. 
      No seu corpo, assentava um vestido comprido com um corte, não muito profundo, da perna direita até ao chão, de cor azul-acinzentado que criava um degradê até em baixo, da cor mais clara para a mais escura.
      Estendeu-me a mão e eu sem hesitar deu-lhe a minha. Apesar de ser a sua representante, a Lua tem o seu próprio espírito, bem como todas as luas, e eu tinha de estar à altura desse mesmo espírito.
- Onde vamos? 
- Já vais ver, Luna - sorriu-me. 
      Assim que as nossas mãos se tocaram, criámos uma espécie de ligação. Ao toque fomos transportadas para um tipo de espaço completamente diferente. Nele flutuávamos, e nas paredes havia marcas do passado, presente e futuro. Todos os acontecimentos que se passaram, passam e passarão. Notei neles algo de familiar. 
- Espera... Isto é a minha vida - conclui. 
- Sim Luna, esta é a tua vida e tudo o que se relaciona com ela - explicou Lua - Como por exemplo, temos ali um espaço somente com acontecimentos sobre a tua avó - e apontou para uma parede do nosso lado esquerdo. 
- Vamos ver o meu passado? - perguntei receosa. 
- Vamos sim. Há coisas que precisas de saber antes de te prepares.
- Mas a avó já me contou Lua - insisti. 
- Contou-te o que lhe aconteceu, contou-te o que sabe - olhou para mim - e precisas de saber o que ela não te pode contar - sorriu-me. 
     Lua esticou a mão que não estava agarrada à minha e pegou num acontecimento do passado da avó. 
     Num instante já não estávamos no espaço de memórias, mas sim no momento em que aconteceu a cena que estávamos a ver. 
      A avó estava nova, tinha os seus longos cabelos loiros preso num rabo de cavalo alto e trazia roupa que não devia ser confortável para lutar mas era de alguma forma: calças justas de cintura alta e uma camisola de manga até ao cotovelo. Ajudava Sol a preparar-se para a sua primeira batalha contra Tema quando uma luz aparece no nosso jardim. Era Mercúrio. Mercúrio tinha aparecido pela primeira vez em nossa casa. Sabia disso pelo olhar confuso da avó. Sol fez as apresentações, avó e Mercúrio logo se conectaram. A ligação entre os dois foi instantânea, tão diferente de mim e de Sol, porém, muito encantadora. 
- Foi assim que os teus avós se conheceram - disse Lua. 
      Desse momento fomos para quando a avó soube que estava grávida da minha mãe. 
- Mercúrio - chamou avó. 
- Sim Mondy? - sorriu ao vê-la entrar pelo alpendre.
- Temos de falar.
- Está tudo bem? 
- Sim, bem... Não... Não sei. 
- Então? Conta-me - insistiu impaciente. 
- Estou grávida - confessou.
      Mercúrio sorriu de orelha a orelha quando ouviu a notícia. Agarrou em avó e levantou-a ao ar de alegria. Beijou-a e abraçou-a. A avó retribuiu-lhe a felicidade e o amor. Estavam os dois felizes e chocados. Não sabiam que isto era possível. 
      Com este momento acabado, fomos para o dia do parto. A avó estava em casa, no quarto de hóspedes com Mercúrio, Sol e outra mulher desconhecida. Sol entretanto saiu e a avó ficou somente com Mercúrio. 
- É uma enfermeira amiga da tua avó, Luna - já me tinha esquecido que ainda à quem me consiga ler.      Lua sorriu. 
     Quando a minha mãe finalmente nasceu, trazia o símbolo de Marte no ombro a brilhar. Foi assim que souberam que o bebé que tinha acabado de nascer era a nova forma humana de Marte. A minha mãe e Mercúrio tinham as marcas em ombros opostos; ela no seu direito, Mercúrio no seu esquerdo.
- Lua... Como é que a minha mãe nasceu um Planeta? 
- A tua mãe era uma mulher muito especial, Luna. Ela cumpriu o seu destino de grandes feitos, e nasceu com poderes enormes. Foi a consequência de ser filha de um planeta e de uma representante. Ou ela nascia humana ou representante e o seu destino era ser uma personificação. Ela foi escolhida por Marte, por alguma razão terá sido - explicou e sorriu-me. 
      Depois do momento do parto vimos pequenos fragmentos de alguns dos episódios do passado da minha mãe como a infância. Eu estava a ver a minha mãe a crescer, a sorrir, a viver e trouxe-me tantos sentimentos desconhecidos. Adorei ver a avó sorrir e Mercúrio a ser pai. A minha mãe tinha o sorriso mais bonito. 
      De todos estes flashes, paramos no momento em que a minha mãe conheceu o meu pai. Ela não devia ter mais de dezanove anos.
- Quem és? - perguntou desconfiada. 
- Calma, não pretendo fazer mal.
      E da sombra que o cobria, surgiu um homem alto, vestido apenas com calças de ganga pretas. O seu cabelo era preto que nem a noite, os seus olhos dum azul acinzentado claros e os lábios bem traçados. Trazia um sorriso de engatatão mas atraente e a sua marca estava na parte de dentro do seu braço esquerdo. Aproximei-me dele, afinal, isto já se tinha passado, não fazia mal. Do local onde o meu pai parou, eu parei também. Fiquei de frente a admirar cada pedaço do meu pai, a tentar descobrir as coisas em comum que eram praticamente todas. Infelizmente, herdei pouco da minha mãe, fisicamente.
       A minha mãe, como eu, teimosa que nem uma porta, não deu o braço a torcer facilmente. Parecia um dèja vú. 
- Fazem-me lembrei duas pessoas - disse Lua a meter-se comigo. 
     Corei e dei-lhe um sorriso tímido. Em seguida visitámos alguns fragmentos da relação dos dois, a maior parte eram cenas dos dois a conversarem ou a passearem por algum lugar. Hás vezes via vislumbres de discussões mas eram tão breves que pensava estar enganada. Momentos depois, Lua parou o tempo quando a minha mãe contou ao meu pai da gravidez. 
- Plutão, tenho de te contar uma coisa. 
- Está tudo bem, Mel? 
- Sim. 
- Podes contar-me - deu-lhe a mão. 
     Hesitante disse - Estou... Estou grávida.
     O meu pai ficou sem reação, limitou-se a soltar um sorriso antes de falar. 
- Mel, isto não é a brincar pois não?
- Sabes que não ia brincar com coisas assim. 
- Mel! - exclamou num suspiro. - Isto é fantástico, vamos ter um bebé!
      Sorriu ainda mais e agarrou na minha mãe, abraçou-a e beijaram-se. Notei que o meu pai não quis acreditar logo, porém, mostrou uma felicidade imensa depois.  
- Não te preocupes Luna, o teu pai amou-te desde do dia que soube que existias. 
- Pois, mas isso não o impediu de deixar-me. 
       Lua nada disse.
     Quando este momento chegou ao fim, assim como no da avó, fomos para o dia do parto. Estava a avó, uma enfermeira e Mercúrio no quarto onde se encontrava a minha mãe, prestes a dar à luz. Nasci, e nos últimos segundos de vida da minha mãe eu estava com ela, deitada junto da sua cabeça. Ela sorria e olhava para mim orgulhosa, apesar de não me poder ver crescer, eu via o seu amor por mim a cair por entre as lágrimas de felicidade que derramava por ser a última coisa que iria ver. Comecei a chorar tanto. Eu acabei de ver a vida da minha mãe, de ver o seu amor por mim e isso é algo que nunca vou poder esquecer. Eu tenho tantas saudades dela apesar de ela nunca ter estado comigo. Eu queria tanto que ela tivesse vivido, por mim.  
- Lua, porque é que ela morreu? - disse, a limpar as lágrimas.
- Apesar do seu amor por ti ser maior que todas as forças, o coração da tua mãe estava partido. O seu Tal não estava com ela. Plutão não esteve presente nos últimos dias de vida da tua mãe Luna, e esses foram os mais importantes. Para além do mais, ela perdeu muito sangue. Nem mesmo um Planeta consegue sobreviver assim.
- O meu pai deixou-a? 
- Não, mas eles não estavam bem e o teu pai decidiu Materializar-se.
- Mas então... Porque ele não ficou comigo? 
- Não posso responder por ele, Luna. Vais ter de perguntar-lhe.  
       Voltámos a dar atenção ao momento que decorria à nossa frente, o meu nascimento. A minha marca atrás do pescoço soltava um brilho azul e era em forma de lua cheia - um círculo. A minha marca mudava de sete em sete anos mostrando as quatro fases da lua. Aos vinte e um anos, a minha marca final era de Quarto Minguante. 
      Num segundo voltámos ao local onde encontrei Lua. Depressa encontrámos um banco e nos sentámos. 
- Sempre que precisares de mim, aparecerei nos teus sonhos Luna. 
- Foi por isso que apareceste hoje? 
- Sim. Estavas muito confusa e percebi que precisavas dum caminho melhor - explicou. 
      Lua era para mim uma figura maternal, carinhosa e sábia. Agora que a conheci finalmente, não queria deixar este lugar. Tenho mil e uma perguntas para lhe fazer. 
- Podes perguntar-me o que quiseres Luna - sorriu. 
- Lua, onde estão os meus poderes? 
- Hão de aparecer Luna, ainda não é tempo - respondeu. 
- Mas eu preciso de treinar, como é suposto ajudar Sol?
- Com o teu carisma. Há muito que possas ensinar ao Sol, tens é usar a cabeça. 
- E se não for capaz?
- Não duvides de ti Luna, és mais poderosa do que pensas - sorriu. 

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