The Bond #16

     Chorei até adormecer... Não conseguia parar de pensar na minha discussão com Sol. Nunca pensei que fossemos discutir por isto e muito menos que ele não me apoiasse nisto. O pior é não perceber o porquê. 
     Não queria sair da cama, principalmente se sabia que ia cruzar-me com ele.  Mas que excelente. 
     Obriguei-me a levantar, tomei um banho demorado, e livrei-me do rasto das lágrimas caídas. Não coloquei um sorriso nos lábios mas também não demonstrei o que realmente sentia. Saí do quarto na esperança de não me cruzar com Sol e quando pensava que o meu dia até podia correr bem, ele vem contra mim à saída do quarto.  
     Ficámos ali, parados, a olhar um para o outro sem reação ou palavras. Tudo em mim queria pedir-lhe desculpas, queria perguntar-lhe o porquê de tudo isto e dizer que ia ficar tudo bem, que fica sempre. Mas não consegui, estava demasiado ferida por dentro. As marcas deixadas de ontem ainda não sararam. Eu preciso de tempo. 
     Não consegui dirigir-lhe qualquer tipo de frase, ou uma mera palavra. Acho que ele conseguiu ler-me perfeitamente e percebeu. Continuei o meu caminho como se não o tivesse visto e só desejava que isto passasse rápido. Eu não quero ficar longe dele, não aguento.
     Cheguei à cozinha e a avó não demorou muito a perceber o meu baixo estado de espírito. Contei-lhe tudo, precisava de desabafar.
- E agora avó? O que faço?
- Sol está apenas com medo que te magoes. O teu pai não é flor que se cheire, e ele ao saber disso tão bem fica preocupado contigo.
- Mas custa-lhe muito apoiar-me nisto? É o meu pai, caramba - refilei.
- Eu sei que é difícil. Mas por isso mesmo é que ele está a reagir assim. Por Plutão ser teu pai, Sol carrega a necessidade desnecessária de te proteger de qualquer forma de ataque. O teu pai pode magoar-te imenso Luna, e Sol não quer isso.
- Okay, mas eu tenho de descobrir isso por mim.
- Pronto, tudo bem - fez uma pausa. - Vocês precisam de uma longa e calma conversa.
- Depois, logo se vê.
      Estou tão desorientada. Não sei o que pensar, como agir. Não sei nada. Neste momento, estou de rastos. O meu dia estava destinado a ser passado enfiada no quarto. E nada do que a avó dissesse ou Mercúrio, ou até Sol (se ele tivesse coragem para dizer alguma coisa) iriam mudar isso. Acabei de ajudar a avó com a cozinha, como sempre faço, e fui em direção ao quarto. Deitei-me na minha cama por fazer e todos os momentos bons com Sol passaram em frente aos meus olhos. Não evitei, sorri. Mas logo o sorriso se desvaneceu. Adormeci mais uma vez, antes que começasse a chorar de novo. Estava cansada e isso notava-se pelas minhas enormes olheiras.  



Sonho 


      Com o meu consciente finalmente adormecido, dei de caras com o mundo da Lua. Sabia que ela me tinha levado lá para falar comigo, ela deve ter sentido a minha aflição. E por perceber isto, deduzi que Sol devia sentir toda esta angústia dentro de mim. Por um lado é bom, desta forma ele sabe o quão mal estou, mas por outro, não queria que ele visse este meu lado fraco.  
      Lua apareceu e fui a correr abraçá-la. Não consegui evitar o choro e ela acolheu-me nos seus braços. Sentámos no banco da outra vez. 
- Luna, não podes ficar assim. 
- Não sei como hei-de ficar Lua, não há nada que eu possa fazer - disse - Sol escolheu o seu caminho. 
- O seu caminho és tu. 
- Não parece... - Lua abraçou-me. 
      O seu abraço não foi um abraço de consolo. Lua estava diferente. 
- O que se passa Lua? 
- Estou preocupada Luna, muito. 
- Com o quê? O que se passa? 
- És tu Luna. Uma má surpresa irá surgir e temo que estrague tudo. 
- Que surpresa Lua? - perguntei confusa. 
- Irás descobrir. Não te preocupes, não é nada que tu não consigas superar, disso eu não duvido. 
- Agora estou a ficar preocupada...
- Não fiques. Tenho aqui uma visita para ti - disse tentando mudar de assunto. 
- Quem? 
      Tinha esperanças que fosse a minha mãe, iria fazer-me bem ouvi-la. 
- Olá Luna - disse Plutão, a sorrir. 
      O meu coração parou de bater por meros instantes, os meus movimentos paralisaram e o meu corpo não sabia que reação ter. O meu pai, ele estava mesmo ali. Frente a mim, a poucos metros de distância e pronto para receber-me nos seus braços finalmente. Mas eu não conseguia mexer-me. Mesmo querendo ceder, abraçá-lo, fazer as perguntas que giram em torno da minha cabeça por anos, eu não consegui fingir que ele não me abandonou quando nasci. Era de mais. Aquele sentimento sobrepôs-se a todos naquele momento.
      Plutão veio em direção a mim, porém retrai-me um pouco. Levantei-me e ficámos frente a frente, com poucos centímetros de distância um do outro. Ao olhá-lo vi tristeza, arrependimento e felicidade. Não aguentei mais tempo e abracei-o como sempre sonhei. Os meus braços apertaram-no forte, assim como os dele. O nosso abraço cheio de entrega pareceu não ter fim e eu nem queria que tivesse. Queria ficar bem com ele, queria ficar bem com a minha mãe, queria tê-los aos dois comigo.  Plutão soltou-me a encarou-me. 
- Desculpa Luna. Desculpa-me por tudo - pediu com arrependimento nos olhos. 
- Pai... - interrompeu-me.
- Agora não temos muito tempo, eu não posso ficar Luna. Mas eu volto, eu prometo - sorriu. - Agora que te encontrei finalmente, não te volto a deixar. 
- Mas vais deixar-me aqui de novo.
- Hey, não fiques triste. Desta vez tens a garantia do meu retorno, isso eu prometo-te. 
- Não te demores - fitei os seus olhos azuis-acinzentados.
- Nunca mais,  filha - beijou-me a testa e desapareceu num segundo de luz. 
     Eu soube a partir desse instante que eu nunca iria abandoná-lo, que ele tinha virado parte de mim e que iria depender dele para sempre. 

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