The Kiss #7

      



     Brindou-me com um sorriso sincero, delicado, encantador e atraente. A quantidade de adjectivos que eu poderia atribuir-lhe nunca iriam chegar, nem perfeito acho que seria o suficiente. Apesar de ele me irritar tanto, eu não conseguia negar a nossa incrível atração, e eu ainda nem sabia ao certo o que fazer quanto a isso. Que o tempo nos ajude, pensei eu.
- Sol, mostra-me tudo! - exclamei. 
     Esticou-me a sua mão e disse - Anda Luna, temos um Universo por descobrir. 
      Agarrei na mão protetora e carinhosa de Sol e deixei-me levar pelo seu instinto. 
     Já estar no universo era fantástico, só de olhar à volta era uma experiência incrível e pensar em dar "uma volta" era maravilhoso! As estrelas eram lindas, fartei-me de tocar nelas. Não me queimavam com a luz que emitiam, traziam-me arrepios, mas dos bons. Vimos imensos espaços com nada, mas foi neles que flutuei e brinquei mais. Flutuar sabe tão bem, sem nenhum peso nos ombros, sem problemas na nossa cabeça, relaxa tanto...
     No lugar de Sol, estavam os tais raios que ele tinha enviado para cá. Eram tão poderosos, eram capaz de me cegar se olhasse para eles de frente, o que Sol alertou-me para não fazer. 
      Com pena minha não visitámos nenhum planeta, mas diverti-me imenso nos anéis de Saturno. São magníficos, nem tenho palavras para descrever!  
- Sol, obrigada por tudo, adorei, mesmo - disse quando chegámos ao jardim. 
- Não agradeças, o prazer foi todo meu Luna - retorquiu sorrindo. 
      Mais uma vez, o dourado dos seus olhos encheram o meu coração de conforto e amor até ouvir um barulho vindo da cozinha. 
- Sol, ouviste? - perguntei assustada. 
- Luna, fica aqui - colocou-me para trás de si e foi em direção à porta do alpendre. 
      Se fosse um barulho normal nem teria ligado, seria a avó certamente, mas a esta hora a avó não está em casa. 
- Não, não. Eu vou contigo - afirmei. 
- Luna, fica aqui por favor. 
- Não Sol, a casa é minha. 
     Avancei à frente dele e abri a porta do alpendre antes de Sol. O tal barulho continuava e tentei fazer o  mínimo ruído para não afugentar a tal pessoa. Queria apanhá-lo. 
- Luna - disse uma voz desconhecida. 
- Aparece - mandei. 
      Por detrás da parede que nos separava, um homem bem estruturado apareceu. Tinha uns olhos avermelhados assustadores, como sangue, pele clara e o cabelo loiro acastanhado despenteado. Os lábios finos e bem delineados.  
- Mercúrio? - perguntou Sol no fundo da sala. 
- Aí estás tu, procurei por ti em todo o lado - e foi abraçar Sol como se não se vissem há anos. 
- Alguém me explica o que se passa aqui? 
- Mercúrio, prazer em conhecer-te Luna - esticou-me a sua mão para o cumprimentar. - Interessante. 
- O que foi? - questionei atrevida. 
- Não te consigo ler a mente - declarou. 
- Olha outro - falei baixinho. 
     Acho que nenhum deles ouviu.
- O que fazes aqui Mercúrio? - perguntou Sol. 
     A partir daí não ouvi a conversa deles. Estava super distraída a olhar para o corpo perfeito de Mercúrio e a marca no seu ombro esquerdo. Ele também só trazia calças de ganga vestidas. Mas lá no Universo não aprendem que também existem t-shirts e camisolas? Começa a ser um pouco presunçoso da parte deles. 
- Luna? - perguntou Sol - Luna? 
- Ah, sim, que foi Sol? 
- Achas que o Mercúrio pode cá ficar? 
- Sim, ainda está uma cama a mais no teu quarto não é? - assentiu - Então pode.  
     A avó entretanto chegou, cumprimentou Mercúrio hesitante e sem o alarido do costume. Fui para o alpendre espairecer, o meu dia não tinha sido lá muito normal e precisava de processar as coisas. 
     A Lua estava linda. Brilhante e mostrava o seu núcleo inteiro. O cinzento da sua face reluzia infinitamente trazendo-me paz e sussurrava um vai tudo correr bem, tem paciência
- Finalmente conheço-te - afirmou Mercúrio enquanto se sentava ao meu lado. 
- Como assim? - disse mais curiosa do que estava. 
- És a nossa salvadora, já ouvimos falar de ti, Luna - confessou. 
      Algo na sua voz dizia-me que aquilo não era tudo, que havia segredos por revelar.
- Bem, espero que não esperem muito de mim. 
- Porque dizes isso? 
- Os meus poderes não apareceram. Como queres que vos salve? 
- Essas coisas levam tempo, tens de ter paciência. E aliás, acredito em ti - olhou-me nos olhos e falou a verdade.  
- Como podes ter tanta a certeza, Mercúrio? Eu posso ser uma perda de tempo. 
- Não te rebaixes, Luna. Foste escolhida pela Lua, por alguma razão terá sido. Não duvides dela - soltou um sorriso. 
- Obrigada - disse envergonhada. 
       Mercúrio sorriu e contou-me histórias que viveu. 
      Ele realmente me entendia no final de tudo e aqueles olhos vermelhos afinal não assustavam tanto. Traziam com eles compreensão e paciência, carinho e ternura. 
- Posso confiar em ti? - perguntei. 
- Tens a minha palavra, Luna - sorriu-me e saiu do alpendre.   
      E foi nesse instante que eu e Mercúrio criámos a nossa ligação, uma ligação que jamais se irá romper.
       Ia a caminho do meu quarto quando Sol me aparece à frente, com um ar chateado. 
- Que se passa Sol? - perguntei preocupada.
- Porque não perguntas ao Mercúrio? Já que ele é tão fascinante - disse. 
- Estás com ciúmes? A sério? - ri-me. 
- Estás a rir do quê? 
- De ti, tonto. 
       Sol fez má cara e reparei logo que ele estava a falar a sério. Ele estava mesmo mal. Mas o que eu poderia fazer? Eu não sou sua namorada, eu para Sol sou apenas sua protetora. 
- Ouve, não precisas de ter ciúmes. 
     Sol aproximou-se de mim mais do que devia. Estávamos peito a peito, e ele de certeza que conseguia ouvir o batimento do meu coração a acelerar a pouco e pouco. 
- Mas eu tenho Luna - olhou-me nos olhos e agarrou-me com as suas mãos firmes - Não quero que ninguém se aproxime de ti, não dessa maneira. 
- Porquê?
- Luna, eu gosto imenso de ti - confessou. 
      As suas palavras foram o paraíso para os meus ouvidos e para o meu pequenino coração. O olhar dele era viciante e tinha toda a minha atenção. Os seus lábios chamavam os meus e eu não conseguia aguentar mais. Finalmente tinha descodificado o meu sentimento por Sol. Eu gostava dele também, mas eu sou sua protetora e não sua amante. 
- Sol.. 
- Eu sei que também sentes o mesmo Luna. 
- Não disse o contrário. 
- Então porque estás com Mercúrio? Porque não ficas comigo? 
- Eu não estou com Mercúrio - afastei-me dele - E as coisas são complicadas Sol. 
- Não são Luna - puxou-me para ele de novo. 
      Sol estava cada vez mais perto de mim, tão perto que ouvia a sua respiração. Estávamos a um milímetro de distância. Conseguia sentir o seu calor a invadir o meu corpo e os seus lábios desejarem os meus. Ceder parecia tão fácil, ele estava ali a confessar-me o seu coração e eu estava indecisa em tudo. Decidi apenas fechar os olhos. Ceder parecia o correto. Porque não? 
      O desejo tomou posse de mim e dele e os nossos lábios uniram-se finalmente. Os nossos corpos se juntaram mais e as minhas mãos estavam agora no seu pescoço. O seu beijo era contagiante e delicado, quando dei por mim os meus lábios não queriam largar os seus. O calor dele aqueceu-me o corpo e a alma. Num misto de sentimentos estava o meu coração quase a saltar para fora do peito. Agora que cedi não há volta a dar. Neste beijo longo e apaixonante o meu coração se fundiu com o dele. Tornámos-nos um. E eu não queria deixá-lo nunca.

      Sorrimos. Olhámos-nos nos olhos e nem precisámos de palavras para descrever o momento.
- Bons sonhos, Luna - disse olhando nos meus olhos.
- Boa noite Sol - sorri.

Fui para o meu quarto nas nuvens, nem acreditava no que tinha acontecido! Eu e Sol tínhamos-nos beijado... Demasiado para um dia só. Acho melhor ir dormir, se conseguir claro.



Dia Seguinte 



- La la la la la la - cantarolei enquanto me sentava na mesa da cozinha.
- Bom dia - disse a avó.
- Booooom diaaaa - retorqui.
- Mas o que aconteceu que causou essa boa disposição toda?
- Bem, até te conto, mas só porque és minha avó - expliquei.
- Conta vá - pediu.
- Então - hesitei.
- Sim...?
- Eu e o Sol - hesitei - eu e o Sol beijámos-nos.
      A avó estava tão surpreendida quanto nada surpreendida e sentou-se na cadeira ao meu lado, pedindo mais detalhes.
- Como é que isso aconteceu? - questionou.
- Oh, avó aconteceu. Ontem eu e Mercúrio ficámos a falar no alpendre e quando fui para o quarto, Sol apareceu amuado e eu perguntei porquê, ele disse que gostava de mim e que tinha ciúmes e beijou-me. E pronto.
- Sempre soube que vocês iam dar coisa - disse a avó, a levantar-se. 
- Mas senti-me tão diferente avó, depois do beijo - confessei - Foi diferente de todos os outros rapazes. Está bem que ele é o Sol, mas ainda assim, senti-me ligada a ele de maneira diferente, percebes?
- Oh meu deus... - disse ela lentamente e a sorrir.
- Que se passa avó?!
- Tu e o Sol criaram uma Ligação - respondeu.
- Sim isso eu sei avó, mas não foi isso...
- Luna, vocês criaram uma Ligação. Uma Ligação é quando um sentimento entre duas pessoas os une e os liga um ao outro - explicou.
- Como assim?
- Por exemplo, se ele estiver em perigo tu sentes o que ele sente. Se ele está triste, tu sentes a sua tristeza, se ele está ferido, tu sentes a dor que ele está a passar. Entendes?
- Isso existe? - comecei analisar os meus sentimentos, perguntando-me se estaria a sentir algo dele. - E agora? 
- E agora nada. Ninguém vos mandou apaixonarem-se um pelo outro e andarem aos beijos.
- Avó! - ralhei - Mas, a Ligação não se pode quebrar?
- Pode, mas apenas se partilhares um sentimento suficientemente forte com outra pessoa a não ser Sol.
- Oh bolas. 

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