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Underneath #17

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Primeiro, sentiu o chão duro e áspero. Depois, veio o cheiro a pedra molhada e fumo. Os seus olhos abriram-se lentamente, piscou-os várias vezes para focar a visão e viu-se deitado na gruta, mas esta não se apresentava igual à gruta que ele tão habituado estava. Ele não via nenhum vestígio de areia. Era só rocha. Levantou-se. Conseguia ouvir água a correr algures. Passou a mão pelas calças escuras e viu-se sem t-shirt. No interior do seu braço esquerdo tinha uma marca estranha tatuada. Uns metros mais à frente encontrou um vulto duma rapariga. Tinha o cabelo atado e vestia-se como se estivesse prestes a encontrar o fóssil mais procurado dos últimos séculos.  - Quem és? - perguntou ela. A voz ameaçava-o, no entanto, ele só se sentia mais atraído a ela.  - Calma, não pretendo fazer mal - respondeu.       Ela revistou-o com os olhos e posou-os na marca do seu braço. Ele sorria sem o conseguir evitar. Como se o seu corpo não fosse dele. Como se alguém o comandasse. Ela avançou para e…

Underneath #16

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Troy parou em casa para guardar as compras. Pedalou em seguida, com os raios de Sol a desaparecerem à medida que avançava, para a casa das gémeas. Não se importou com o facto de poder encontrar-se com Mercúrio. Era um risco que tinha de correr. Precisava de vê-las. Bateu à porta. As luzes do quarto delas estava desligada. Viu o hall iluminar-se pelo vitral da porta. Reconheceu a figura pequena que lhe abriu a porta - Violet.  - O que estás aqui a fazer?  - Preciso mesmo de falar com vocês. Podes sair?  - Posso, mas não por muito. O que se passa? - disse serenamente, numa tentativa de acalmá-lo.  - Urano veio ter comigo.  - O quê!? - disse num guincho. Clareou a garganta e recostou a porta devagar. Os corpos deles ficaram quase colados um no outro. Violet reteve a respiração e fitou-o. Ambos coraram e Troy afastou-se colocando a mão no pescoço e desviando o olhar.  - Podes ir chamar a Melody? - perguntou, a fitar a Lua baixa.  - Claro. Já volto.       Violet entrou em casa. Troy …

Underneath #15

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Aos tropeções, ela corria pela rua fora. O cabelo ondulado colava-se-lhe à testa e o ar começava a faltar-lhe. Via tudo às rodas, a cabeça doía-lhe como se tivesse um ferimento provocado por um pedregulho e a rua... A rua de alguma maneira ficava cada vez mais íngreme e algo na escuridão aproximava-se dela velozmente. Ela não tinha a coragem de olhar para trás pois receava perder a pouca força que ainda tinha e cair ficando à mercê do que quer que estivesse atrás dela.       Não era dia nem noite, mas pairava um ambiente entre os dois onde o céu tinha pinceladas de laranja-vivo e negro de vários tons. Um nevoeiro místico sobrevoava as casas e os prédios de cada lado da rua que se sobressaíam devido às luzes laranjas elevadas ao longo do seu caminho. Tentáculos negros surgiam nas sombras que se reflectiam nas paredes e um grito ficou encurralado na sua garganta. O ar parecia tóxico, queimando-lhe os pulmões e destruindo o fluxo do seu sangue. À medida que as forças se iam esgotan…

Underneath #14

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Ela estava tão paralisada que não sentiu os braços que se envolveram à sua volta. Os gritos ainda ecoavam nos seus ouvidos, aquele rosto ainda assombrava a sua visão e para sempre teria aquele momento na sua cabeça como um lembrete de que era fraca e miserável. Melody não tinha conseguido superar o seu maior medo - a sua insegurança - quando chegou ao seu planeta. Ficara com os braços estendidos o máximo que pode até que os gritos vindos dos reflexos nos espelhos a deixaram surda e paralisada. A sua respiração estava acelerada e o seu coração ainda mais. Ela não conseguia perceber bem o porquê depois de tudo. Não conseguia perceber o porquê de se ter ido abaixo tão facilmente.       Violet foi buscá-la depois de ter conseguido concluir o seu enigma. Para suceder no teste, Violet teve de refletir sobre cada porta. Não demorou muito, como ela pensava que iria, e concluiu que todas as portas que vira eram portas de entrada, portas da frente. Ou seja, a porta correta era uma das tra…

Underneath #13

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Assim que os dois saíram, Luna chegara a casa. Viu-os no caminho e disse-lhes olá. A presença daquele rapaz era amarga e não o queria perto das suas filhas. Por muito que ele não fosse Tema. - Violet? Melody? Estou em casa - chamou do hall. - Trouxe o almoço.       Elas deram-lhe um beijinho e carregaram os sacos que a mãe trazia para a cozinha. Estavam loucas para almoçar mas também para que a mãe deixasse escapar alguma informação sem querer. O que acontecia de vez em quando se elas estivessem atentas o suficiente.   - A visita foi boa?  - Sim.  - Nós já tínhamos ido àquele museu antes. Tinha algumas coisas novas, mas nada de mais - respondeu Melody.  - Acho que há uma exposição nova num museu da cidade. Depois combinamos com o vosso pai e vamos. Que tal?  - Parece-me bem - disse Violet a comer uma batata frita.  - O que estava o Troy e o amigo a fazerem aqui? - inquiriu a buscar os pratos.       As gémeas entre-olharam-se. Não sabiam ao certo o que lhe responder. Se dissessem…

Underneath #12

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Os pais abandonaram o quarto dele assim que explicou as coisas sobre a família das gémeas e o historial que tinha com a Escuridão. O sacrifício da Mondy foi difícil de eles engolirem, porém, estavam mais que gratos por ela o ter salvado. A mãe fez questão de repetir umas mil vezes que queria ir à casa dos Brown agradecer e mostrar os seus pêsames pela Mondy. Troy não conseguiu convencê-la do contrário e por isso tinha que combinar uma data com as gémeas para a ida da mãe à casa delas.
     Depois daquela confusão toda durante a noite, Troy não conseguiu dormir mais. A sua imaginação continuava a trabalhar, criando cenários onde ele era um assassino que matava os seus próprios pais por estar possuído pela Escuridão. Por mais que tentasse, os tentáculos negros e pesados do Saeva o prendiam sem chance de escapar. Às vezes, sonhava que se tinha deixado ceder ao poder do obscuro e que os dois se tinham tornado num só. Um monstro. Só que ele tinha o sentimento estranho que não passara…